O Benfica de Eusébio de 1963-64 e o atual. Semelhanças só nos 103 golos

Encarnados foram campeões, marcaram 103 golos no campeonato e acabaram como o melhor marcador da prova como há 55 anos. Mas de resto são poucas as afinidades com aquela equipa de Eusébio que vivia a ressaca dos grandes êxitos na Europa e era treinada por um húngaro de 70 anos.

O Benfica sagrou-se campeão nacional na última jornada e a goleada ao Santa Clara permitiu ao clube igualar o recorde da equipa de 1963-64, com 103 golos marcados no campeonato. Há 55 anos, o conjunto então treinado por Lajos Czeizler vivia a ressaca europeia, depois de três épocas em que se sagrou duas vezes campeão europeu e chegou a uma final da Taça dos Campeões Europeus, mas conquistou o campeonato numa prova em que liderou do início ao fim.

Não podendo ser comparáveis, há alguns pontos comuns entre uma e outra temporada relacionados com golos. Por exemplo, um resultado de 10-0 no campeonato (em 1963-64 diante do Seixal; nesta época ao Nacional) e vários jogadores a conseguir ultrapassar a barreira dos 10 golos na prova. Os melhores goleadores do campeonato foram ambos benfiquistas (Eusébio, com 28, Seferovic, com 23) e vários jogadores conseguiram passar a barreira dos 10 golos.

De resto, são poucas as semelhanças. Na altura, o Benfica tinha um treinador experiente húngaro de 70 anos, agora o técnico é Bruno Lage, de apenas 43, a começar a carreira como treinador principal. O sistema de jogo também é completamente diferente e atualmente não há um Eusébio na equipa do Benfica.

Os golos

Na temporada 1963-64, o Benfica chegou aos 103 golos. Foi a primeira vez na história do clube que a equipa atingiu os três dígitos, muito à custa dos golos de Eusébio da Silva Ferreira, que chegou ao final do campeonato com 28 remates certeiros. Foi esta mesma marca de 103 golos que a equipa de Bruno Lage atingiu nesta temporada, mas com uma nuance: há 55 anos, o campeonato tinha apenas 26 jornadas, ou seja, menos oito do que o atual. O que significa que a média de golos por jogo foi superior - em 1963-64 foi de quatro golos por jogo; em 2018-19 três.

Curiosamente, houve um ponto em comum. Há 55 anos, a maior goleada imposta pelo Benfica no campeonato foi um 10-0 ao Seixal, na 16.ª jornada (só Eusébio contribuiu com seis). Um resultado que saiu caro ao presidente benfiquista da altura, que prometeu pagar por cada golo marcado e teve de desembolsar na altura 20 mil escudos. Nesta época a equipa de Lage registou um resultado semelhante, quando na 21.ª ronda despachou o Nacional com um resultado idêntico (Jonas e Seferovic bisaram). Em 1963-64, as águias marcaram cinco ou mais golos em nove jogos. Nesta temporada conseguiram esse registo em cinco ocasiões.

Os treinadores

O treinador benfiquista na temporada 1963-64, que levou o Benfica ao título de campeão com o recorde golos marcados, era o húngaro Lajos Czeizler, um antigo guarda-redes. Chegou para render o chileno Fernando Riera, um técnico algo questionado por ser demasiado cauteloso e defensivo, numa equipa que tinha as maiores armas no ataque e que na época anterior, apesar de ter sido campeã, foi derrotada pelo AC Milan na final da Taça dos Campeões Europeus. Czeizler ingressou no clube da Luz já com 70 anos e tinha no currículo vários títulos de campeão sueco, pelo IFK Norrkoping, e ainda um campeonato italiano pelo AC Milan (1951).

Uma trajetória em tudo diferente de Bruno Lage, de 43 anos, que se sagrou campeão logo no seu primeiro ano como treinador da equipa principal do Benfica (e depois de ter pegado na equipa a meio da temporada), ele que tinha um longo trajeto nas camadas de formação dos encarnados e desempenhado o cargo de técnico adjunto de Carlos Carvalhal em Inglaterra - Sheffield Wednesday e Swansea.

Os goleadores

Há 55 anos, no campeonato, Eusébio da Silva Ferreira sagrou-se (mais uma vez) o melhor goleador da prova, com um total de 28 golos apontados em 19 jogos disputados (dois foram de grande penalidade). Houve quatro jogadores das águias que se destacaram, com mais de dez golos apontados. A seguir ao Pantera Negra seguiram-se José Torres com 22 golos, Iaúca com 15 e José Augusto com 11.

Na atual temporada, o melhor marcador da I Liga foi o suíço Seferovic, que terminou com 23 remates certeiros e com a particularidade de nenhum ter sido apontado de penálti - e 16 foram na segunda volta do campeonato. No plantel do Benfica destacaram-se mais quatro jogadores que passaram a marca dos 10 golos no campeonato: Rafa (17), João Félix (15), Pizzi (13) e Jonas (11).

Os jogadores

No plantel de 1963-64, um total de 22 jogadores sagraram-se campeões nacional. O guarda-redes Costa Pereira foi o mais utilizado, com participações em 26 jogos e um total de 2280 minutos no campeonato nacional daquela época.

Na equipa atual, durante o campeonato, foram utilizados um total de 29 futebolistas. O que somou mais minutos foi o guarda-redes Vlachodimos, utilizado em 34 jogos com 3055 minutos de jogo. Segue-se Grimaldo, o defesa esquerdo espanhol, com os mesmos 34 jogos e 3052 minutos de utilização no campeonato.

Há também uma enorme diferença de idades entre os dois plantéis, pois o Benfica de há 55 anos era composto na sua grande maioria por jogadores experientes e o atual está recheado de jovens, alguns, caso de João Félix, com 19 anos.

Os campeões de 1963-64: Costa Pereira, Cavém, António Simões, José Augusto, Coluna, Cruz, Eusébio, Luciano, Iaúca, Serafim, Neto, José Torres, Raul Machado, Augusto Silva, Germano, Santana, Humberto Fernandes, Jacinto, Ângelo, Pedras, Calado e José Rita.

Os campeões de 2018-19: Vlachodimos, Svilar, Conti, Rúben Dias, Jardel, Ferro, Lema, Grimaldo, Corchia, André Almeida, Fejsa, Krovinovic, Samaris, Florentino Luís, Gabriel, Pizzi, Taarabt, Gedson Fernandes, Alfa Semedo, Jonas, Seferovic, Salvio, Rafa, João Félix, Cervi, Zivkovic, Jota, Ferreyra e Castillo.

O sistema

Após uma época com o chileno Fernando Riera, a direção do Benfica recuperou a influência húngara na orientação da equipa, que tão bons frutos tinha dado com Béla Gutmann. Foi por isso contratado o experiente Lajos Czeizler, com muitos anos de futebol italiano. O esquema tático manteve-se fiel ao que vigorava um pouco por toda a Europa e que tinha conduzido os encarnados à glória internacional. Estava enraizado o 3x2x5, também denominado de WM, com vários jogadores que se mantinham de épocas anteriores.

Na baliza Costa Pereira era indiscutível, na defesa contava com o jovem Luciano, recém-contratado ao Olhanense, Fernando Cruz e Cavém, um extremo bicampeão europeu convertido em defesa. O meio-campo estava entregue ao capitão Mário Coluna e a José Neto, enquanto no ataque estavam José Augusto, Eusébio, José Torres, António Simões e Yaúca, outra das novidades do onze que nessa época tinha sido contratado ao Belenenses. Eusébio foi o goleador do campeonato com 28 golos, seguido por José Torres com 22.

55 anos anos depois, o Benfica voltou a marcar 103 golos, mas neste período de tempo o futebol mudou muito. Os sistemas táticos passaram a privilegiar mais o equilíbrio das equipas. Nesta época, os encarnados começaram com um 4x3x3 implementado por Rui Vitória, mas com a entrada de Bruno Lage tudo mudou. O 4x4x2 passou a ser o modelo utilizado, com os laterais a ter liberdade para integrar o ataque e Pizzi e Rafa Silva a jogar como alas interiores.

O trajeto europeu

O Benfica da temporada 1963-64, que na época anterior tinha chegado à final da Taça dos Campeões Europeus (perdeu por 2-1 com o AC Milan) e que antes disso (1961-62 e 1962-63) tinha ganho duas taças, foi uma desilusão nas provas europeias sob a orientação de Lajos Czeizler, caindo (com estrondo) logo na segunda ronda da prova. Os encarnados começaram por eliminar o modesto Lisburn, da Irlanda do Norte (3-3 fora e 5-0 na Luz), mas depois sucumbiram perante os alemães do B. Dortmund - vitória por 2-1 em Lisboa e derrota fora por 5-0. E com isso foi-se o sonho do terceiro título europeu e a recordação da célebre frase de Béla Guttmann: "Nos próximos cem anos, o Benfica não voltará a ser campeão europeu."

Nesta época, o Benfica começou na Liga dos Campeões (sempre com Rui Vitória como treinador), mas terminou em terceiro lugar do grupo E, atrás de Bayern Munique e Ajax e à frente do AEK Atenas. Relegado para a Liga Europa, o clube da Luz ainda atingiu os quartos-de-final desta competição, eliminando o Galatasaray e o Dínamo de Zagreb, mas não superando o Eintracht Frankfurt - venceu os alemães por 4-2 na Luz mas perdeu por 2-0 fora.

Distância para os rivais

Nesta temporada, o campeonato só foi decidido na última jornada. O Benfica chegou à derradeira ronda com mais dois pontos do que o FC Porto e a precisar apenas de um empate para se sagrar campeão. Mesmo assim acabou por golear o Santa Clara (4-1), com golos que foram decisivos para chegar aos 103 e igualar o recorde do clube da época 1963-64. Quando terminou a primeira volta, e Rui Vitória deu lugar a Bruno Lage, a distância para o FC Porto era de sete pontos. Mas os encarnados partiram para uma segunda volta fenomenal e acabaram campeões, com mais dois pontos do que o FC Porto e a 13 do Sporting. Marcaram um total de 103 golos e sofreram 31.

Em 1963-64, a caminhada foi diferente. O Benfica foi sempre líder da primeira à última jornada e sagrou-se campeão nacional na penúltima ronda, após o triunfo por 5-1 no campo do Leixões. As águias terminaram a prova (na altura a vitória valia dois pontos) com 46 pontos, mais seis do que o FC Porto e a 12 do Sporting. Resultado de 21 triunfos, quatro empates e apenas uma derrota (com o Sporting em Alvalade). Golos marcados foram 103 e sofridos 26.

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