Bilionários, a nova arma secreta no espaço 

Anousheh Ansari, que entrevistei há dias para o DN, gastou uma fortuna para ser astronauta, um sonho para a engenheira de telecomunicações nascida no Irão mas que fez toda a carreira nos Estados Unidos. Aquando do voo, em 2006, Ansari foi descrita como uma turista espacial, no fundo pagando do seu bolso para voar com os russos até à Estação Espacial Internacional. O pioneiro nessa matéria tinha sido o empresário americano Dennis Tito, que em 2001 admitiu que ir ao espaço lhe tinha custado 20 milhões de dólares.

Passadas duas décadas dessa aventura de Tito, é preciso ter cuidado em não comparar o voo de ontem de Jeff Bezos com o turismo espacial. Homem mais rico do mundo graças à Amazon, que vende desde livros a eletrodomésticos via net, o americano fez da sua viagem de 10 minutos um acontecimento à escala mundial, levou consigo o irmão e ainda os dois novos recordistas de idade no espaço (o mais jovem de sempre e a mais velha de sempre), mas existe muito mais do que vaidade e marketing na viagem a bordo do New Shepard, o foguetão da Blue Origin, a empresa de transporte espacial criada pelo magnata. Trata-se de nova prova de que os privados podem entrar na corrida espacial, e isso joga muito a favor do espírito empreendedor americano, capitalismo sem controlo ideológico, ao contrário do que acontece na China.

Por causa da viagem quase em simultâneo de Richard Branson, a Virgin Galactic aparece agora referida também nesta via alternativa de ir ao espaço, mas, muito mais do que a empresa do britânico fundador da Virgin, é na SpaceX, de Elon Musk, que as atenções devem estar centradas. O seu Crew Dragon já transportou astronautas da NASA para a Estação Espacial Orbital e é o próprio Musk, sul-africano dono dos automóveis Tesla, que faz a diferença entre a sua empresa e a de Branson ao ter comprado (diz o amigo) para um futuro passeio espacial um lugar com a Virgin Galactic, reservando a SpaceX para voos mais altos, literalmente. A Lua e até Marte estão nos objetivos da empresa espacial de Musk, o que mostra o rumo revolucionário que está a tomar nos Estados Unidos a atual fase de exploração do universo, sobretudo se comparada com a experiência de há meio século, em plena Guerra Fria, em que o governo americano apostava nos seus próprios meios para contrariar o programa espacial da União Soviética.

Com sucessos recentes no espaço para exibir, a China tenta assumir-se como o grande competidor com os Estados Unidos também nesta área, apesar da experiência dos russos (herdeiros dos soviéticos) e das ambições europeias, indianas e japonesas. O desafio maior para os líderes chineses será mostrar que a sua fórmula de programa espacial sob a batuta do Estado, tal qual a América noutros tempos, está em condições de rivalizar com a cooperação entre uma NASA sempre dotada de pujantes meios e a genialidade de homens como Bezos e Musk, já agora também de Branson. Bilionários como arma secreta no espaço, a América, admita-se, não deixa de nos surpreender.

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