Cat Stevens. Quando o islão travou um sex symbol

Mudou de nome, de religião e de estatuto. Há quatro décadas, depois de se converter, deixou palcos e discos. Regressou, sem grande êxito. Faz hoje (21 de Julho) 70 anos.

Terá sido um dos poucos casos, felizmente raríssimos, que não escaparam à "tradução" local do nome que o popularizou: por cá nunca quisemos ouvir e seguir Las Piedras Rolantes. Mas muitos, e sobretudo muitas, chamavam-lhe "Gato Esteves". O caso explicava-se com facilidade, em nome dos suspiros que provocava nas adolescentes (e, porventura, mais dissimulados, nalguns rapazes da mesma faixa etária) na primeira metade da década de 1970 - "gato" era um nome que vinha a calhar, depois de Steven Demetre Georgiou, que até começou a sua cruzada cantigueira pelos pubs londrinos como Steve Adams, ter sido "rebatizado" por uma namorada que concluiu que os olhos do moço se pareciam com os de um felino doméstico. Mais tarde, levado por uma conversão religiosa que o conduziu ao Corão e ao islão ("de forma progressiva, nada de repentino", sublinha o próprio), viria nova mudança: passou a chamar-se Yusuf Islam. E, pelo caminho, acabou, ao menos na vida artística, por prescindir do "apelido", passando a chamar-se simplesmente Yusuf. Para baralhar ainda um pouco mais o leitor, acrescente-se que o mais recente sinal de vida - em disco - deste homem tão singular como plural, o álbum The Laughing Apple (de 2017), vem assinado assim: Yusuf/Cat Stevens. A explicação é mais prosaica do que qualquer teoria psicologista rumo à múltipla personalidade - cinco das canções incluídas, incluindo a que vale o título, vêm da "fase" Cat Stevens, particularmente do disco falhado, comercialmente falando, nesse primeiro ciclo, New Masters (1967).

Quando abandonou o estatuto de estrela musical, depois de editar o disco Back to Earth (1978), Cat Stevens tinha 30 anos. A opção pelo islão confirmou-o como um ser "ecuménico": o pai, cipriota grego, era cristão ortodoxo; a mãe, sueca, seguia um culto evangélico; o jovem Steven foi educado num colégio católico... Querendo assumir em pleno a sua escolha, levou a sua coleção de guitarras a leilão, fazendo reverter o dinheiro obtido para a UNESCO. Proibiu-se de cantar em inglês, convicto - à época - de estar a cumprir as regras do Corão. Abandonou os concertos, para viver de acordo com aquilo que entendia serem os seus novos preceitos religiosos. E assim partiu muitos corações, de gente que aplaudia as suas canções - umas mais próximas do folk, que foi assumidamente beber a Bob Dylan, a Paul Simon e a outros mestres, outras mais de acordo com os ventos pop e rock, que o tinham levado a adotar sintetizadores, por exemplo - e que apreciava a sua imagem, de cabelos longos encaracolados e barba sobre a pele tisnada, condizente e paradigmática nesses tempos que prolongavam a cultura lançada pelos hippies. Quando voltou aos discos, em 2006 (An Other Cup), já em versão Yusuf, tinham passado 28 anos, e o mundo tinha-lhe reduzido drasticamente o espaço e o tempo disponíveis. E algumas das suas declarações, certas ou extrapoladas, não ajudaram nada...

O trovador e o radical

Cat Stevens, apesar de muito novo quando virou costas às canções "profanas", já tinha comido o pão que o diabo amassou. Em matéria curricular, passou de uma estreia fulgurante - com o álbum Matthew and Son, publicado quando tinha 18 anos, a chegar ao top 10 britânico e a render três canções de êxito, o tema-título, mais I Love My Dog e I'm Gonna Get Me A Gun - para um segundo disco, o já citado New Masters, recebido com total indiferença, apesar de ter rendido um clássico, The First Cut Is the Deepest, que haveria de gerar versões de meio mundo, de Rod Stewart a Sheryl Crow. No domínio privado, passara algum tempo entre a vida e a morte, apanhado por uma tuberculose que o reteve alguns meses numa cama de hospital. De regresso, começou por rescindir o contrato discográfico que o ligava à Decca e a procurar quem lhe desse liberdade criativa e estilística. Descobriu-a na editora Island, de Chris Blackwell, ávida de alargar horizontes além do reggae que lhe estava na génese.

Os quatro melhores discos de Stevens vêm na sequência deste grito do Ipiranga: Mona Bone Jakon (1970), Tea for the Tillerman (1970), Teaser and the Firecat (1971) e Catch Bull at Four (1972) juntam crítica e público no aplauso a um "trovador" que, por cá, era pau para toda a obra. Nas festas de garagem, muito antes do flagelo das BPM (batidas por minuto), Cat Stevens embalava romances nos slows e agitava almas nos shakes, por exemplo com a inesquecível Can't Keep It In. Além disso, não havia instruendo ou autodiata de guitarra que não passasse pelos acordes de Father and Son. Com o pretensiosismo de Foreigner (de 1974, em que um dos lados do LP era uma suite sem interrupções e sem graça) e a desinspiração dos discos seguintes, pareceu entrar em declínio. O fim do namoro com os fãs adensou-se de forma irremediável com a sua entrada na comunidade islâmica de Londres, que passou pelo casamento com Fauzia Mubarak Ali (matrimónio que vai completar 40 anos em dezembro e que se traduz em cinco filhos e sete netos), terminando assim a fase das namoradas mediáticas, como a atriz Patti d'Arbanville, base humana da canção My Lady d'Arbanville, a cantora Carly Simon, ponto de partida do tema Sweet Scarlet, e a bailarina Louise Wightman.

Os dissabores com a opção religiosa foram muitos e prolongaram-se no tempo - o antigo cantor foi proibido de entrar nos Estados Unidos durante anos, viu-se forçado a processar jornais ingleses que o apontaram como adepto do terrorismo islâmico e acabou envolvido em polémicas tão estranhas como aquela que dava conta de que Yusuf não dialogava com mulheres que não usassem o véu protetor. Afinal, esclareceu o próprio, ele só pedia que não lhe tocassem... Maiores consequências teve uma declaração sua de apoio à fatwa (condenação à morte) lançada sobre o escritor Salman Ruhsdie após a publicação de Os Versículos Satânicos (1989). Yusuf sempre defendeu que as suas declarações tinham sido truncadas, mas tal não impediu um profundo e generalizado repúdio. Aconteceu, por exemplo, que o grupo norte-americano 10 000 Maniacs, liderado pela cantora Natalie Merchant, que tinha gravado uma versão de Peace Train, original de Stevens, na primeira edição do álbum In My Tribe, depois do "caso Rushdie", obrigasse a editora a relançar o disco sem a cantiga, para não contribuir para os direitos de autor do britânico - que, ainda assim, continuou a arrecadar cerca de milhão e meio de dólares anuais, distribuindo uma parte desses proventos por iniciativas da comunidade islâmica. A longevidade do melhor Cat Stevens prova-se nisto: as suas criações foram regravadas por gente tão diferente como (além dos já citados) Johnny Cash, Jimmy Cliff, os Boyzone, Marianne Faithfull, Elton John, Dalida, Dolly Parton, Eddie Vedder (dos Pearl Jam) ou Melanie Safka. Ainda no ano passado, os regressados Garbage meteram as mãos, e as vozes, em Where Do the Children Play?.

Cat Stevens, ou Yusuf, se preferirem, faz hoje 70 anos. Como sex symbol, já era. E como cantor, ainda voltará a ser?

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