Brittany Kaiser: "A multa aplicada à Google foi uma enorme conquista"

Era a presença mais esperada de um encontro que juntou esta semana 200 "anarquistas" no Porto. Brittany Kaiser ficou conhecida no início do ano quando foi protagonista do caso "Cambridge Analytica", a empresa que acedeu aos dados de 87 milhões de utilizadores do Facebook sem autorização. Kaiser revelou provas de que a Cambridge Analytica interferiu no resultado das eleições nos Estados Unidos e no brexit.

Hoje, Brittany Kaisler dedica-se à missão de "evangelizar" o mundo para a importância da proteção de dados pessoais. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, defende que a informação partilhada com as empresas deve ter retorno financeiro para os utilizadores, que deixariam assim de estar dependentes de subsídios do Estado. Aplaude as medidas tomadas pela União Europeia para proteger os dados dos cidadãos e espera que a multa de 4,3 mil milhões aplicada à Google sirva de exemplo a todas as "manipuladoras" gigantes tecnológicas.

O que a trouxe a um encontro de anarquistas em Portugal? Considera-se anarquista?

Não me considero anarquista, mas tenho uma mente muito aberta em relação a novas formas de resolver problemas. Para mim um anarquista é alguém que acredita que as comunidades são mais capazes de resolver os problemas do que os Governos. E a verdade é que há, de facto, questões que os Governos e a legislação não são capazes de resolver. Neste momento, a comunidade blockchain, da qual eu faço parte, oferece muitas soluções para a resolução de problemas sociais através da tecnologia.

Após a polémica com a Cambridge Analytica qual é a mensagem que tenta transmitir?

O que quero que as pessoas percebam é que ter poder sobre os próprios dados garante mais liberdade. Trabalho com o uso de dados para comunicação há mais de dez anos e sei que é possível usar dados pessoais para fazer o bem mas que também é muito fácil abusar deles. Felizmente já começa a existir muita tecnologia que permite que as pessoas sejam donas do valor criado pelos seus dados. Mas a maior parte das informações que produzimos todos os dias ainda ficam nas mão das empresas que os recebem. As regras aplicadas aos dados pessoais são únicas. Qualquer outra coisa que seja nossa ou que tenhamos produzido segue uma lógica diferente. Se alguém pedir o meu carro emprestado precisa da minha autorização para usá-lo. E vai pagar algo por isso, seja um valor de aluguer pré-combinado ou pelo menos a gasolina. Os dados não funcionam assim. Há uma teia muito complexa de termos e condições com as quais temos de concordar para usar um smartphone, um computador, uma aplicação ou um website. E só podes usá-los se concordares com esses termos. Ora isso não é consentimento informado e não há mais nada na nossa vida que funcione assim.

Os dados pessoais são o "novo petróleo"?

São sem dúvida a classe de ativos mais valiosa do mundo neste momento. E é muito significativo que o ativo mais valioso do mundo não pertença às pessoas que o produzem. A crise da Cambridge Analytica fez com que voltássemos a colocar este problema nas manchetes pela segunda vez em poucos anos. A primeira foi quando Edward Snowden denunciou os planos dos Estados Unidos para as prisões. Aí as pessoas começaram a prestar atenção a quem recolhe os nossos dados e que uso lhes dá. Mas acho que desta vez é mais a sério, a oportunidade para mudarmos isto é maior porque as pessoas estão mesmo preocupadas. E começam a ter a certeza de que a legislação e regulação certas podem evitar que passemos por outra crise. O valor que produzimos todos os dias não deveria ser oferecido de bandeja só porque nos deixam usar uma plataforma. As empresas que armazenam a maior parte dos nossos dados, como o Facebook, a Microsoft, a Amazon ou a Google, deveriam olhar para um novo modelo de negócio que tenha os utilizadores em consideração. Elas já ganharam triliões de dólares com os nossos dados e isso já não vamos recuperar. Mas se partilharem o valor criado, vão incentivar as pessoas a partilhar ainda mais. E não vão perder dinheiro com isso. Não é justo, e em certos países já nem é legal, recolher dados da forma como tem sido feito até agora.

A Europa está a tomar as medidas certas para proteger os cidadãos dos abusos das empresas?

Acho que sim. Quando o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) entrou em vigor, a 25 de maio, provou que por mais tempo que seja dado às empresas para se prepararem, elas só o fazem quando é mesmo obrigatório. Nem as empresas nem os governos aplicam este tipo de medidas por iniciativa própria. Precisam de sofrer pressão pública. A multa gigante que foi aplicada à Google, por exemplo, por ser um monopólio e manipular dados, é um grande sucesso e uma conquista enorme no cumprimento da lei. Acho que vamos ver mais situações destas a acontecer.

Em que aspetos mudou a sua vida após denunciar a Cambridge Analytica?

Não mudou assim tanto. Há muitos anos que eu já era defensora da ideia de que as pessoas devem ser donas dos seus dados. Em 2013 ajudei a lançar uma plataforma que encripta os metadados de todas as fotografias que tiramos, como a hora ou a localização. Se partilhar essa imagem nas redes sociais, ela não pode ser reproduzida. Isso não só trava as fake news como evita que o conteúdo seja roubado. Há dois anos ajudei a criar um projeto que permite partilhar dados em troca de uma ligação de internet grátis. Há muitos projetos interessantes a serem lançados que têm como base a tecnologia blockchain e que resolvem muitos dos problemas atuais. Se os dados forem monetizados corretamente, as pessoas podem quase tirar um salário. É verdade que temos de trabalhar em troca de algo para ganhar dinheiro. Mas então e o valor que produzimos todos os dias e que nos é roubado? Se lhe for dado o devido valor, isso pode resolver muitos problemas sociais. Compensar as pessoas pelos dados que partilham pode ser uma forma de disponibilizar o rendimento básico universal tirando esse encargo dos governos. É um direito básico. Se as pessoas estão a criar valor para uma empresa, então merecem ser compensadas por isso. Não lhes é oferecido, elas têm esse direito. Acredito muito nesse princípio.

E que lições tirou?

Aprendi que temos de nos valorizar enquanto indivíduos, investigar sempre as pessoas para quem decidimos trabalhar. Esta crise dos dados fez com que eu agora possa dedicar-me a coisas que sempre achei importantes e usar a tecnologia para fazer o bem. Faço parte de uma campanha global para sensibilizar as pessoas a serem donas dos seus dados. O RGPD na Europa é um avanço muito importante e espero que nos EUA, onde as pessoas são mais vulneráveis e vêm os seus dados serem manipulados sem autorização, também possa haver mudanças em breve. Já está uma lei sobre consentimento a ser discutida no Congresso. Aos poucos estamos a conseguir algumas mudanças.

Que conselhos dá para quem queira proteger os seus dados de forma eficaz?

Não ter smartphone, nem computador. Boa sorte com isso.

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