Premium A segunda vida do miúdo tímido do Casal da Mira

O central português Rúben Semedo assinou pelo Huesca, da I Liga espanhola, uma semana depois de sair em liberdade. Quem o viu crescer conta ao DN como o futebol o salvou e lhe pode dar uma nova oportunidade. Ginásio, dieta e rotina de treino ajudaram-no a manter a forma nos cinco meses em que esteve preso.

Rúben Semedo foi apresentado nesta sexta-feira como reforço do Huesca, equipa que esta época subiu à I Liga espanhola. Uma semana depois de sair da prisão, o defesa central português encontrou um clube disposto a dar-lhe uma oportunidade. "Vão ver uma versão melhor do Rúben Semedo", prometeu o jogador de 24 anos, agradecendo "a confiança" que o clube, que lutará pela permanência, depositou nele.

O diretor desportivo do Huesca desfez-se em elogios ao português, "um central contundente, bom no jogo aéreo e que sai bem com a bola". Emilio Vega agradeceu a Semedo por ter aceitado jogar no clube da província de Aragão: "Ao nível do trato pessoal, descobrimos um miúdo jovem, tímido, que chegou aqui com muita 'fome'. Aqui sabe que será feliz porque todos faremos o possível para que assim seja e para que tenha um rendimento excecional."

Semedo esteve detido desde 19 de fevereiro último, por suspeitas de ter, juntamente com outras duas pessoas, sequestrado um homem, a quem, sob ameaça com uma pistola, retiraram as chaves do apartamento, de onde alegadamente furtaram dinheiro e objetos.

Veja aqui o discurso de apresentação.

E se depender do defesa ex-Sporting, o rendimento estará garantido, visto que o jogador tratou de manter a forma nos cinco meses em que esteve preso. A partir de uma certa altura e depois de ver a liberdade condicional negada pelo juiz, o advogado português Bebiano Gomes pediu para que Rúben Semedo mudasse para uma ala mais calma da penitenciária de Picassent, alegando que o jogador precisava de ter condições para continuar a recuperar da lesão e treinar.

A ideia que passa é que o central nunca baixou os braços e pensou desistir do futebol. Para não descurar a forma física, tendo em conta que pretendia voltar ao relvados, começou a ir ao ginásio da prisão duas ou mais vezes por dia, a ter acesso a comida mais nutritiva, seguindo uma dieta, e a cumprir horários como se estivesse a cumprir a pré-época. Além disso passou a ter acesso livre à biblioteca e aos domingos descansava e podia receber visitas.

Esta foi a rotina do internacional português durante quase cinco meses, até o juiz aceitar fixar uma caução para sair em liberdade condicional (30 mil euros) e o jogador pagar. O que aconteceu no passado dia 13.

Assim que saiu em liberdade condicional, o central não escondeu o sorriso ao lado da filha. E sem perder o ritmo de treino. A primeira fotografia partilhada foi no ginásio, a recuperar a forma física, na companhia da filha, que levou depois a um parque de diversões. Aos poucos, Rúben Semedo voltou à vida normal e, apesar de ter o vínculo contratual suspenso com o Villarreal, viu o clube reverter a suspensão e emprestá-lo ao Huesca.

Da infância no Casal da Mira ao Fofó

Rúben cresceu no bairro social do Casal da Mira (Amadora). Aos 5 anos viu o pai, um imigrante de Cabo Verde já separado da mãe, ser preso. A mãe saía de casa de madrugada para trabalhar e sustentar a família. E Rúben passava muito tempo na rua, a maior parte do tempo a jogar à bola. Aos 14 anos começou a levar o futebol mais a sério, quando passou a representar o Futebol Benfica (Fofó).

Quem o viu crescer no clube da zona de Benfica sabia dos perigos que corria em se desviar do caminho, mas sempre acreditou "no bom fundo" de Rúben. Caso de Domingos Estanislau: "Espero que isto [prisão] não dê em nada, que o futebol o volte a salvar e que não o transforme em mais um bandido, porque tinha e tem todas as condições para vingar no futebol."

O ainda presidente do Fofó foi surpreendido com as notícias da prisão do jogador. "Nunca me pareceu que fosse capaz de cometer os atos de que é acusado. Ele veio de um bairro complicado, e por isso é natural que por vezes tenha resolvido as coisas com um murro ou uma zaragata, mas não mais do que isso. Nem toda a gente que mora em bairros sociais são pessoas más, isso existe em todo o lado", defendeu.

Estanislau já tentou falar com o seu menino, mas não conseguiu: "Ele tem ordens para não falar com ninguém e eu entendo, ele precisa de paz e tranquilidade. Mandei-lhe uma mensagem a dar força e a lembrar que só tem de seguir os três conselhos base: trabalho, disciplina e respeitar tudo aquilo que o treinador transmitir."

Do Fofó para o Sporting

Foi em 2009 que Rúben Semedo se mudou para os juvenis do Sporting juntamente com Gelson Martins, o seu melhor amigo. "Foram dois excelentes miúdos que passaram pelo Fofó e que eram de facto grandes jogadores. Cada um rendeu mais de 30 mil euros. O Rúben era muito mais conversador e atrevido, no bom sentido. Contava piadas mas sempre o vi como um bom exemplo e, aliás, era frequente ele vir às nossas instalações para falar aos miúdos da formação. Nunca se mostrou superior nem recusou um autógrafo", revelou Estanislau.

A passagem pelo Sporting ficou marcada por alguns casos - foi apanhado a conduzir sem carta de condução e tentou agredir um colega de equipa -, ao ponto de a saída de Alvalade ser a solução. O destino acabou por ser o Villarreal, da I Liga espanhola, no início da época, num negócio que rendeu aos cofres do Sporting 14 milhões de euros.

Não se assumiu como titular, sofreu duas lesões com alguma gravidade e foi durante a recuperação que protagonizou dois incidentes em bares de Valência, no final de 2017, que fizeram o seu nome aparecer nos jornais pelos piores motivos. E como diz o povo, não há duas sem três e, à terceira, o português foi mesmo detido pela polícia espanhola e acusado de crimes graves como agressão, sequestro e roubo. Ouvido pelo juiz ficou em prisão preventiva, por perigo de fuga e continuidade de atividade criminosa. Saiu na semana passada depois de cinco meses detido, mediante o pagamento de uma fiança no valor de 30 mil euros.

Uma semana depois assinou pelo Huesca, um clube habituado a dar segundas oportunidades, segundo o diretor desportivo Emilio Vega.

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Henrique Burnay

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