A moção que quebrou as pontes entre o PS e a direita

Esquerda chumbou moção de censura do CDS. Governo do PS exclui direita do "caminho" que quer seguir até às legislativas.

Parece ter-se enganado quem previa uma aproximação entre o PS e o PSD, com a ascensão de Rui ao poder no PSD. O debate da moção de censura do CDS ao governo mostrou um PS a encostar-se à esquerda - e, por isso, a afastar-se do centro-direita.

Pelo governo, foi a nova ministra da Presidência e da Modernização Administrativa quem encerrou o debate. Uma frase sua improvisada face ao discurso escrito que tinha sido distribuído aos jornalistas sinalizou até que ponto o governo do PS já não conta com o centro-direita parlamentar para contornar eventuais resistências à esquerda a propostas de lei (por exemplo, a que revê o Código do Trabalho ou a que revê a Lei de Bases da Saúde).

Primeiro, Mariana Vieira da Silva disse que, "com esta rejeição, o governo sai com a confiança reforçada no rumo seguido ao longo destes três anos e com a certeza do caminho que quer continuar a seguir".

Mas logo a seguir acrescentou - na tal tirada que não vinha na versão do discurso distribuída na bancada de imprensa - que este é "um caminho para o qual a direita não pode contribuir". Dito de outra forma: os diálogos parlamentares do PS doravante só se concentrarão nos partidos da geringonça.

Sinal de que o governo está outra vez a investir no diálogo à esquerda foram os fortes apelos que António Costa fez ao PCP para que viabilize a proposta de lei do governo que revê o Código do Trabalho.

A votação acabou como se esperava desde o início: chumbo da moção de censura (a segunda do CDS nesta legislatura) pela conjugação dos votos contra de PS, BE, PCP, PEV e PAN. A favor só votaram os proponentes e o PSD - momento que encerrou uma sessão parlamentar que durou cerca de três horas e meia.

Assunção Cristas lançou-se ao debate desafiando o BE e o PCP a votarem a favor da moção, desafio que sustentou nas críticas que os dois partidos têm feito ao executivo de António Costa. A líder centrista comprometeu-se com uma ideia radical: o CDS votaria a favor de moções de censura que os dois partidos apresentassem ao governo, independentemente dos seus fundamentos. E isto porque o que quer é "eleições já".

Ao mesmo tempo, tentou afirmar o papel do seu partido como líder da oposição, face ao PSD: "Ainda bem que há o CDS para fazer oposição."

"Idiotas" e "idiotas úteis"

Boa parte das três horas e meia de debate centraram-se na discussão dos objetivos da moção apresentada pelo CDS, com as bancadas da esquerda a afirmarem a uma voz que a iniciativa dos centristas se destinou mais a marcar espaço à direita - nomeadamente face ao PSD - do que a censurar um governo. Uma discussão feita, por vezes, em termos... pouco parlamentares. Primeiro foi António Filipe a dizer que, se o país "reagiu com indiferença devida a uma iniciativa inconsequente", o PSD lançou-se "num fascinante debate interno entre David Justino e o comentador Marques Mendes sobre a questão de saber quem é que no PSD anda a fazer papel de idiota". E, nesta contenda, foi o CDS, que "não deixa os seus créditos por mãos alheias", a chegar-se à frente.

A resposta chegaria pela voz do deputado centrista Telmo Correia, que tomou a palavra de um "camarada comunista que ouvisse João Oliveira", o líder parlamentar dos comunistas - "se eles governam com a direita, por que raio somos nós que aprovamos Orçamentos? Porque é que somos nós que temos de segurar o malvado do António Costa?" "Se aos idiotas acrescentarmos a palavra úteis, toda a gente sabe a quem nos referimos", atirou Telmo Correia.

O PSD, pelo seu lado, enfrentou o debate desvalorizando-o - o partido já tinha falado na "ineficácia" da iniciativa, salientando também que não é um "partido de protesto". Fernando Negrão, líder da bancada, esteve todo o debate em silêncio - as intervenções sociais-democratas ficaram por conta de Emídio Guerreiro e Joana Barata Lopes. O PSD nem se deu ao trabalho de usar todo o tempo que tinha - sobraram sete minutos.

À esquerda, todos combaterem a iniciativa centrista dizendo que ela não visava o governo mas apenas, como sintetizou António Costa, "uma medição de forças dentro da oposição". E, dentro da esquerda, PS e Bloco alinharam num outro argumento contra Assunção Cristas: esta iniciativa visou apenas criar uma "cortina de fumo" (expressão de Catarina Martins, do BE) para ocultar a notícia do final da semana passada segundo a qual está sob investigação criminal o negócio da venda do Pavilhão Atlântico ao empresário Luís Montez (genro de Cavaco Silva), um negócio feito quando Assunção Cristas, ministra da Agricultura do governo de Passos Coelho, tutelava aquela infraestrutura (e todas as outras públicas do Parque das Nações).

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