Os Kim e o bolo de milho

Qualquer comparação entre a reunificação alemã de 1990 e um eventual fim da separação entre as duas Coreias, que dura até ao presente, é um absurdo. Os dois países foram divididos pelas potências ocupantes no final da Segunda Guerra Mundial, e essa divisão perpetuou-se por convir aos interesses opostos de americanos e soviéticos durante a Guerra Fria, mas nunca houve um conflito entre as duas Alemanhas, ao contrário da sangrenta guerra de três anos entre as duas Coreias, e, sobretudo no momento da reunificação concretizada, o fosso económico entre as partes da nação europeia dividida era muito menor do que aquele que separa ainda hoje as duas metades da nação asiática. Contudo, a principal diferença entre a Alemanha dividida e a Coreia dividida é que o regime comunista leste-alemão caiu juntamente com o Muro de Berlim, enquanto o regime comunista que criou a Coreia do Norte evoluiu para uma dinastia que tem a sua perpetuação no poder como principal objetivo.

É à luz, sobretudo, dos interesses da Dinastia Kim que deve ser lida a resposta ofensiva da Coreia do Norte à mais recente oferta da Coreia do Sul para baixar a tensão na península. Por ocasião do assinalar dos primeiros cem dias da sua tomada de posse, o presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol ofereceu ajuda económica ao regime de Kim Jong-un em troca de medidas no sentido da desnuclearização. Tendo em conta que a posse da arma nuclear, embora garanta um lugar entre o restrito clube nuclear do planeta, não alimenta uma população que a ONU teme que esteja de novo em risco de fome, a ideia mereceria, pelo menos, ser o ponto de partida para negociações, procurando recuperar o tempo perdido depois das cimeiras patrocinadas pelos Estados Unidos durante a presidência de Donald Trump. Mas Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano, descreveu a oferta como "o cúmulo do absurdo", sublinhando que "ninguém negoceia o seu destino em troca de um bolo de milho". A influente irmã de Kim Jong-un, que chegou a negociar com a Coreia do Sul noutras ocasiões, disse mesmo que o presidente Yoon "devia calar-se" e classificou a proposta de "simples e infantil".

Se algum destino poderia estar aqui a ser negociado seria, exatamente, o da Dinastia Kim, que através de Kim Il-sung fundou a Coreia do Norte em 1948 e depois de ser governada por um filho deste, Kim Jong-il, é agora liderada por um neto. O comunismo original, que lhes valeu o apoio histórico de Pequim e de Moscovo, foi substituído por uma espécie de monarquia ultranacionalista, que nem sempre agrada à China ou à Rússia, apesar de lhes ser útil. E a posse de armas nucleares é considerada a maior garantia de que não haverá intervenção externa para derrubar Kim, que sabe bem que o iraquiano Saddam Hussein e o líbio Muammar Kadhafi abandonaram um dia as ambições nucleares e acabaram depostos e executados, o primeiro depois de julgamento, o segundo por uma multidão irada.

O sucesso da Coreia do Sul - vibrante democracia, potência económica e colosso cultural - mostra até que ponto o povo norte-coreano sofre com uma liderança que, apesar da cosmética de ir acrescentando arranha-céus a Pyongyang para impressionar os raros visitantes estrangeiros, tem dificuldade em assegurar a alimentação da população, sobretudo quando fecha a fronteira com a China por causa da covid-19 (a com a Coreia do Sul está totalmente minada) e assim se fecha ao mundo, dificultando a economia informal que colmata como pode as incapacidades do governo. Só podemos imaginar o que seria a médio prazo, como país, uma Coreia única com 78 milhões de habitantes (dois terços no Sul) se a reunificação pudesse, em algum momento, iniciar-se com passos muito, muito graduais, mas seguros e sobretudo sem guerra.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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