Trump vs. Erdogan: dois aliados da NATO de costas voltadas

A madrugada de segunda-feira ficou marcada pelo disparo de vários tiros contra a embaixada dos EUA em Ancara. O que começou com a história de um pastor detido, ganhou proporções de crise diplomática e financeira e ameaça pôr em causa a coesão da NATO.

A não libertação de um pastor evangélico norte-americano, detido desde outubro de 2016 sob acusações de terrorismo, desencadeou uma crise que levou Washington a impor sanções económicas a Ancara, causando a queda da lira e pondo em causa o crescimento que tem marcado os anos no poder de Recep Tayyip Erdogan. A Turquia respondeu na mesma moeda, acusando o presidente dos EUA, Donald Trump, de "terrorismo económico". Os países com os dois maiores exércitos da NATO estão de costas voltadas e nem Trump nem Erdogan parecem dispostos a ceder.

"Não há nenhuma diferença entre os ataques contra a nossa economia e aqueles que visam a nossa bandeira ou o nosso apelo à oração", disse o presidente turco, num comunicado divulgado nesta segunda-feira. "Aqueles que pensam que nos farão ceder com a cotação da moeda, depressa vão ver o seu erro", acrescentou Erdogan.

"A Turquia aproveitou-se dos EUA durante muitos anos. Mantém o nosso maravilhoso pastor cristão, a quem agora devo pedir que represente o nosso país como um grande refém patriota. Não vamos pagar nada pela libertação de um homem inocente, mas estamos a cortar com a Turquia", indicou Trump no Twitter.

O que começou com a história do pastor Andrew Brunson, ganhou proporções de crise diplomática e financeira e ameaça pôr em causa a coesão da NATO. A madrugada de segunda-feira ficou marcada pelo disparo de vários tiros contra a embaixada norte-americana em Ancara, sem causar feridos.

Quem é Andrew Brunson?

O pastor evangélico da Carolina do Norte, que vive em Izmir desde 1993, foi convocado no verão de 2016 para ir à esquadra da polícia. Andrew Brunson, de 50 anos, pensava que poderia haver problemas com os seus papéis e que seria convidado a sair do país, regressando quando tudo estivesse em ordem. Mas a 7 de outubro de 2016 foi detido e acusado de espionagem e envolvimento na tentativa de golpe de Estado de julho desse ano (Brunson não estava na Turquia na altura dos acontecimentos, mas regressou pouco depois).

Foi acusado de crimes cometidos em nome do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado um grupo terrorista por Ancara, pelos EUA e a União Europeia, e em nome da organização de Fethullah Gülen. Este é um clérigo muçulmano turco, de 77 anos, que vive num autoexílio nos EUA e que Erdogan acusa de estar por detrás da tentativa de golpe - pelo qual milhares de pessoas foram detidas. O seu antigo aliado é hoje visto como o seu principal inimigo e a sua extradição é exigência constante nas relações entre Ancara e Washington.

Na primeira audiência em tribunal, só em abril deste ano, Brunson negou todas as acusações de ligações aos grupos terroristas e disse num turco perfeito que estava a "criar discípulos para Jesus". Questionado sobre as viagens constante às zonas onde o PKK está ativo, o pastor alegou que foi ajudar refugiados que escaparam à guerra na Síria e convertê-los.

Na cimeira da NATO, em Bruxelas, Trump e Erdogan terão discutido a situação de Brunson, com o presidente norte-americano a ficar convencido de que o seu homólogo tinha concordado em libertar o pastor - em troca de persuadir as autoridades israelitas a libertar uma mulher turca acusada de ligações ao Hamas. Israel libertou Ebru Ozkan a 15 de julho e confirmou que o fez a pedido de Trump.

Mas Ancara nega que tenha sido acordada a libertação de Brunson. Em julho, o pastor foi colocado em prisão domiciliária por questões de saúde (algo considerado pouco para os EUA). Erdogan e Trump falaram ao telefone a 26 de julho, mas a conversa "não correu bem". Na última sexta-feira um tribunal turco rejeitou o apelo para libertar Brunson, dizendo que ainda estavam a ser recolhidas provas contra si e que havia risco de fuga, segundo a Reuters.

Consequências económicas

Horas depois dessa conversa entre Erdogan e Trump, a administração norte-americana anunciava sanções contra dois ministros turcos, exigindo a libertação imediata do pastor. Washington aprovou também a duplicação das tarifas à importação de aço e alumínio, que ajudou a empurrar a lira para valores muito baixos (a moeda turca estava em queda desde o início do ano, mas perdeu mais de 40% do seu valor).

Ambas as medidas foram anunciadas por Trump através do Twitter. A segunda mensagem, a 10 de agosto, quando escreveu que "as nossas relações com a Turquia não estão boas neste momento", teve um efeito imediato na moeda turca.

A mensagem foi publicada numa altura em que o novo ministro das Finanças turco, Berat Albayrak, que é genro de Erdogan, fazia um discurso destinado a acalmar os mercados - um discurso que já tinha ficado, para muitos, aquém das expectativas, por falta de detalhes e aparente nervosismo daquele que, até julho, era o ministro da Energia.

O presidente turco respondeu entretanto às sanções norte-americanas, com as suas próprias sanções, e apelando ao boicote de produtos eletrónicos dos EUA (como iPhones) e ao uso de outras moedas que não o dólar nas trocas comerciais entre países terceiros.

Os analistas dizem que o líder turco quer acusar os EUA de um problema que ele próprio criou, com o seu controlo autoritário da política monetária da Turquia (é contra o aumento dos juros), tendo gasto milhões de dólares em grandes projetos de infraestruturas públicos e, desde 2009, autorizou as empresas turcas a pedir empréstimos em dólares e euros para fazer crescer a economia.

Muitos desses empréstimos foram feitos junto de bancos europeus, que se preocupam agora com o risco de as empresas não as pagarem.Os economistas temem por isso uma reação em cadeia que possa desencadear o colapso do sistema financeiro internacional, como a falência da Lehman Brothers causou em 2008.

"Erdogan pode não ter soluções para os problemas da sua nação, mas até agora conseguiu desviar a culpa, apoiando-se no nacionalismo, no ressentimento para com o Ocidente, no seu firme controlo nos media do país e na sua formidável popularidade e habilidades políticas", escreveu o jornal norte-americano The New York Times, alegando que, ao impor sanções, Trump está na realidade a ajudar Erdogan.

"É suficientemente mau que o castelo de cartas que [Erdogan] construiu esteja agora a colapsar, mas a crise foi ainda mais exacerbada pela tentativa irascível do autocrata de enfrentar Donald Trump, um homem feito do mesmo tecido, mas de um calibre muito maior", lê-se na revista alemã Spiegel .

Segundo o Wall Street Journal , Ancara tentou também negociar a libertação de Brunson a troco do fim de uma investigação do Departamento de Estado a um banco público. De acordo com o jornal, em troca da libertação de Brunson e de outros norte-americanos detidos, assim como três funcionários turcos das missões diplomáticas dos EUA no país, a Turquia queria que Washington abandonasse o inquérito ao Halkbank. Este banco público enfrenta uma enorme multa por suspeita de ter ajudado o Irão a contornar as sanções norte-americanas. Mas a Casa Branca terá rejeitado a oferta.

Um risco para a NATO?

A crise põe também em causa a coesão dentro da NATO, entre dois aliados que também têm tido algumas divergências no âmbito da guerra da Síria. Washington apoia as forças curdas sírias para ajudar a expulsar o Estado Islâmico, mas Ancara defende a erradicação de todos os movimentos curdos.

A Turquia tem sido um aliado-chave para os EUA desde 1946 e a base área de Incirlik, que ambos os países partilham e que acolhe armas nucleares controladas pelos EUA, é chave para a coligação liderada pelos norte-americanos na luta contra o Estado Islâmico.

Apesar de parecer comprometido com a NATO, apoiando até a visão de Trump de aumentar as despesas com a Defesa para 4% do PIB, Erdogan tem desafiado os aliados com os planos de comprar mísseis russos, no valor de dois mil milhões de dólares. Algo que a NATO diz ser incompatível com o seu sistema, podendo ajudar Moscovo a ultrapassar a tecnologia furtiva dos caças F-35, que os turcos compraram aos norte-americanos. Trump travou a entrega desses aviões até à libertação de Brunson.

"Procuramos novos amigos e novos aliados", disse entretanto Erdogan, com o russo Vladimir Putin a chegar-se à frente. Apesar de problemas entre Ancara e Moscovo no passado - incluindo o derrube de um caça russo pelos turcos - ambos os líderes têm procurado formar uma aliança informal.

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