Premium Primeiro prémio

Há livros que saem melhores do que a "encomenda". Aquele que entra em cena nas próximas linhas permite manter uma tradição muito lá de casa: aproveitar as escolhas que o júri do Man Booker Prize, prémio britânico que corresponde a um cheque de 50 mil libras e a um crescimento exponencial das vendas, elabora e daí eleger (pelo menos) um. O processo de selecção não podia ser mais egoísta, uma vez que parte simplesmente de uma análise das sinopses, via rápida para, em função dos interesses, partir à descoberta. Não se olha a nomes nem a currículos, ou quase - em caso de "empate" no interesse pelos sumários, privilegia-se os autores que ainda não se conhecem. Como acontece, agora, com a canadiana Esi Edugyan e com o contagiante Washington Black (ed. Serpent's Tail). O que revela, de imediato, a primeira falha: há pouco mais de meia dúzia de anos, a Porto Editora lançou por cá Um Blues Mestiço (Half Blood Blues, no original), mas terá sido um dos que se escaparam na malha da rede, empírica e desregrada, que vai servindo de padrão, à falta de melhor. Até porque a recuperação do "tempo perdido" é possível, quase sempre.

Que não se veja neste hábito nenhuma subordinação aos prémios literários, tantas vezes depositados nas mãos de quem já devia conhecer-se antes das distinções ou, em casos mais radicais, tão baseados nas circunstâncias de ocasião que não justificam o remorso por um qualquer défice de conhecimento. Menos ainda nas vendas massivas dos livros - em relação a um dos maiores fenómenos do século, o norte-americano Dan Brown (autor de O Código DaVinci), quem leu um, leu todos. Da mesma forma, em relação a alguns dos "campeões de vendas" nacionais, sejam ou não rostos televisivos - e o seguidismo aos famosos ganha às vezes uma contrapartida igualmente tolhida pelo preconceito, que se traduz na menorização automática de quem escreve e também nos entra em casa -, não custa aplicar a velha sentença, arrogante mas previdente: não li e não gostei. Por total falta de motivação e, também, porque estas matérias da leitura implicam, a cada passo, abordar um e deixar para trás muitos outros.

Voltemos ao livro de Esi Edugyan, cujo título - Washington Black, insiste-se - deriva do nome do protagonista e narrador, George Washngton Black, negro (claro...) e escravo, nascido e criado em Barbados, no Caribe. Pela mão atenta da autora, quem ler haverá de segui-lo à volta do mundo (da Virginia, Estados Unidos, ao Ártico, da Nova Escócia, Canadá, a Londres, a Amesterdão e a Marrocos), num percurso que vale como cruzada pessoal, como peregrinação acidental, como uma deriva traçada pelo destino mas também, e muito, pela vontade. Lida, sem tépidas diatribes, com a questão da escravatura. Mas conquista-nos por múltiplos factores: é, pela sua própria natureza, um belo exemplo da literatura de viagens; aborda questões científicas fascinantes, da zoologia à astronomia, sem esquecer a física; envolve aventuras insólitas e crimes violentos, temperados (com elegância) com amor e sexo; retrata pormenorizadamente uma série de modos de vida na primeira metade do século XIX. Ou seja, abre horizontes, espaços, paisagens e personagens, sem jamais perder o fio à meada, sobretudo no que diz respeito às relações humanas.

Do que li este ano, junta-se ao lote das melhores memórias, em que já se inscreviam obras de Rodrigo Guedes de Carvalho (o soberbo Jogos de Raiva), de Isabel Rio Novo (A Febre das Almas Sensíveis), de Nuno Camarneiro (O Fogo Será a Tua Casa), de Ana Cristina Leonardo (O Centro do Mundo), do brasileiro Gustavo Pacheco (Alguns Humanos) e do francês Denis Demonpion (a biografia Salinger Intime, já folheada nestas páginas). Terá, porventura, alguma dificuldade em vencer o Man Booker Prize, por agora com mais 12 competidores, entre os quais há livros dos consagrados Richard Powers e Michael Ondaatje. Mas dou por mim a desejar que haja uma edição portuguesa em breve, para que este "prémio" de leitor possa tornar-se mais e mais acessível. Afinal, se adaptarmos uma expressão que, em tempos idos, Miguel Esteves Cardoso aplicava (aos discos), este é o melhor livro do mundo... esta semana.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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