Premium Nove filmes de Mizoguchi no cinema lá de casa

Desde o mais conhecido Contos da Lua Vaga ao raro A Mulher de Quem se Fala, a caixa com filmes restaurados de Kenji Mizoguchi é um dos grandes lançamentos deste ano no mercado do DVD.

Muito generoso tem sido este verão cinematográfico no que toca a reposições de clássicos, ciclos e edições DVD. Até ver, essa é uma tendência que veio para ficar, e que equilibra a balança no contraste com a oferta - em geral, bastante menos aliciante - das estreias de cinema desta época nas salas comerciais. Afirma-se então como um dos frutos de tal tendência a caixa com nove títulos do mestre japonês Kenji Mizoguchi (1898-1956), que está agora disponível, abrindo janelas para assombrosas e sedutoras paisagens humanas, entre o Japão feudal e o do pós-guerra.

Falamos de uma notável edição DVD (cópias restauradas) com chancela da Leopardo Filmes, que resultou de um ciclo e pode ser vista como um "curso intensivo" sobre a estética e as temáticas deste enorme cineasta. Isto porque a brochura que vem com o pack contém textos apaixonados e apaixonantes de João Bénard da Costa sobre cada um dos filmes, mas também olhares de Jacques Rivette, Paulo Rocha e Sabrina D. Marques, que garantem ao espectador a devida contextualização da obra em causa.

Temos sido relembrados disto nos últimos tempos: Mizoguchi é um dos gigantes da cinematografia japonesa (e mundial) e, a par de Yasujiro Ozu e Akira Kurosawa, dos mais celebrados. São dele os movimentos de câmara que, inspirados por uma certa voluptuosidade trágica e transcendente, arrebatam o espectador mais ímpio. Movimentos tais que deixam indefinida a linha que separa a fantasmagoria da realidade em Contos da Lua Vaga (1953), e que transformam o drama intenso (de uma família separada) em melodia visual, num dos mais impactantes títulos da última fase da sua obra, O Intendente Sansho (1954). Estes são dois dos filmes que integram a presente coleção em DVD, e que correspondem ao Mizoguchi de olhar histórico, às narrativas de época que lhe permitiram auscultar o Japão antigo, entre o feitiço da beleza formal e a aspereza da descrição dessa sociedade tomada pela tradição e vincada pelo poder.

Veja aqui o trailer de O Intendente Sansho:

O mesmo selo histórico se aplica a Os Amantes Crucificados (1954), centrado na fuga de um homem e de uma mulher acusados injustamente de adultério, que se entregam ao amor nesse doloroso percurso, ritmado pela sonoridade do teatro kabuki. E temos ainda A Imperatriz Yang Kwei-Fei (1955), filme de cores deslumbrantes e única incursão de Mizoguchi na história chinesa, que se apropria da estética dessa cultura para subtilmente revelar a tragédia de uma jovem humilde que se fez princesa e acabou enforcada - como esquecer a cena em que a câmara se fixa no chão para mostrar os sapatos de luxo e as joias de que ela, digníssima, se desfaz enquanto caminha para a morte?

Eis o gesto de um cineasta profundamente respeitador das mulheres e da sua causa, como fica patente noutros filmes da caixa: Festa em Gion (1953), o inédito A Mulher de Quem se Fala (1954), e Rua da Vergonha (1956), derradeiro título da sua filmografia. Aqui se concentram verdadeiras crónicas femininas (e feministas), dentro do universo das casas de gueixas, que, através de uma minuciosa encenação e modernidade, captam o desencanto do pós-guerra, a desobediência à tradição e a mundanidade urbana como reflexo de uma sociedade agitada pelo desejo de mudança.

Desejo é também aquilo que define, em plenitude, A Senhora Oyu (1951), outro dos sublimes retratos femininos assinados por Kenji Mizoguchi, sobre um triângulo amoroso. Estamos nos antípodas da intriga novelesca, e no centro de um clandestino ménage à trois, contemplado com a delicadeza e o requinte dos deuses. Finalmente, O Conto dos Crisântemos Tardios (1939) - o título mais distanciado no tempo em relação a todos os outros - surge como uma exceção, simplesmente por não se tratar nem de um drama histórico nem de uma narrativa ambientada no pós-guerra. De resto, a riqueza da mise-en-scène mizoguchiana é igualmente palpável neste melodrama, representado entre a vida e o palco, sobre um ator aristocrata, sem talento, e uma mulher honesta da plebe, que, por amor, de tudo será capaz para que ele alcance a celebridade. Mais uma vez, imensa é a dignidade deste ser feminino destacado pela lente do mestre.

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João Gobern

País com poetas

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