Premium Centeno debaixo de fogo, PS dividido

O vídeo no qual Mário Centeno saudou, enquanto presidente do Eurogrupo, o fim do programa de assistência à Grécia foi criticado da esquerda à direita. Mas houve no PS quem o defendesse.

"Insultuoso", a fazer lembrar a "propaganda da Coreia do Norte". Foi Yanis Varoufakis, o antigo ministro das Finanças grego - cuja visão de combate ao establishment austeritário da UE fez que se aguentasse no cargo apenas seis meses -, o primeiro a criticar nas redes sociais o vídeo com que Mário Centeno saudou, enquanto presidente do Eurogrupo, o fim do programa de assistência à Grécia, programa que durou oito longos anos.

Nessa mensagem, o também ministro das Finanças de Portugal começou por sublinhar que "hoje é um dia especial para a Grécia", pois chega ao fim "um trajeto longo e sinuoso".

Depois acrescentou: "Mas isso agora é história. Hoje, o crescimento económico melhorou, estão a ser criados novos postos de trabalho, regista-se um excedente orçamental e comercial, e a economia foi reformada e modernizada" - embora não se tenha perdido a consciência de que "estes benefícios ainda não são sentidos em todos os quadrantes da população".

E, no fim, um aviso:"A Grécia reconquistou o controlo pelo qual lutou. Com controlo, vem a responsabilidade. Os gregos pagaram caro as más políticas do passado, pelo que voltar atrás seria um erro prejudicial."

À critica de Varoufakis somar-se-ia pouco depois uma outra, originária do partido que sustenta o governo que Centeno integra como ministro das Finanças. João Galamba, deputado do PS, dificilmente poderia ter sido mais duro: "Um vídeo lamentável que apaga o desastre que foi o programa de ajustamento grego e branqueia todo o comportamento das instituições europeias."

Mais tarde, Galamba reforçaria os seus argumentos partilhando um artigo do alemão Wolfgang Münchau, colunista de referência no Financial Times, intitulado "Nada para celebrar no fim do programa de assistência".

Houve no PS porém quem não tivesse gostado do que Galamba escreveu, saindo em defesa de Centeno. No Facebook, Ascenso Simões, deputado socialista como Galamba, escreveu que a comunicação do presidente do Eurogrupo sobre a Grécia fez "todo o sentido".

O parlamentar socialista não se ficou no entanto por aqui, chamando "doido" a Varoufakis: "Está claro que o doido do Varoufakis (que quase acabava com o que restava do seu país) não lhe acha piada nenhuma [à comunicação de Centeno]." Mas, quanto a João Galamba, pensava que "já tinha esgotado as suas doses de radicalismo barato". "Enganei-me!", acrescentou: "Um cheiro a Syriza pré-histórico fica bem no bronzeado burguês de Galamba."

Quem também se juntou às críticas de Varoufakis e de Galamba foi o Bloco de Esquerda. José Gusmão escreveu que Centeno protagonizou "um vídeo ridículo para quem tem alguma noção do que aconteceu na Grécia, insultuoso para os gregos e esclarecedor para os portugueses". E depois, ironizando, concluiu que, ao aceitar presidir ao Eurogrupo, Centeno tornou-se seu representante no governo português em vez de ter sido ao contrário (levar para o Eurogrupo as críticas às suas políticas que o PS e o seu governo têm feito). "Ainda alguém tem dúvidas sobre se o governo ganhou um representante no Eurogrupo ou vice-versa?"

No PSD também se ouviram vozes a criticar Centeno. A do deputado Miguel Morgado foi uma delas, mas também a de um outro deputado do partido, António Leitão Amaro.

O primeiro-ministro, esse, manteve-se à margem da polémica. No Twitter, escrevendo em inglês, António Costa deu "parabéns ao povo grego e ao primeiro-ministro Alexis Tsipras pela conclusão do programa de apoio à estabilidade".

Ao contrário do seu ministro das Finanças, o chefe do governo não se esqueceu de dizer que a Europa deve "continuar a trabalhar para a reforma da zona euro enquanto única via sustentável para promover a convergência real e prevenir futuras crises económicas e financeiras na União Europeia".

Ler mais

Exclusivos