Rui Pires de Carvalho: "Não fiz o Serviço Militar Obrigatório, mergulhei de cabeça" como médico

Rui Pires de Carvalho é neurocirurgião e, durante duas décadas e meia, foi médico militar no Exército. Oriundo de uma família ligada à fundação do Rio de Janeiro, nascido em Massarelos (Porto), seguiu as pisadas do oficial de Marinha que foi médico pessoal do rei D. Luís. Contador de histórias, trabalha agora em unidades clínicas de Lisboa, Mafra e Torres Vedras - mas, ao contrário do tempo nas fileiras, consegue ter tempo para se dedicar a um hobby: a história.

Manuel Carlos Freire
Rui de Carvalho esteve na Bósnia como capitão médico, em 2001. | foto D.R.
Rui de Carvalho é neurocirurgião e foi médico militar durante duas décadas e meia. | foto D.R.
Rui de Carvalho esteve destacado como médico militar na Bósnia em 2001. | foto D.R.
Rui de Carvalho na clínica privada onde trabalha em Lisboa.  | foto D.R.

Pertence a uma família de médicos e militares, um dos quais foi médico naval e depois do rei D. Luís. Foi a tradição familiar que o levou a ser médico e militar?

Sempre gostei muito de história, talvez por influência do meu pai, e sobretudo de história militar. Tenho uma coleção de soldadinhos... Prende-se com o gosto que sempre tive, no meu imaginário, sobre a vida militar e história militar. Calculo que tenha mais de 10 000 figurinos e acessórios (só tenho um terço exposto). Há uma marca inglesa dos anos 1960-80, a Timpo, que calculo que seja uma das maiores coleções em Portugal.

O pai era militar?

Não. O meu pai era engenheiro técnico civil de minas e, na altura em que foi à inspeção (estamos a falar do início dos anos 1940) para o serviço militar obrigatório [SMO], ficou muito triste porque era muito magro e chumbaram-no [risos]. Ele ia eventualmente enveredar pela carreira militar, mas foi chumbado por ser muito magro. A parte dos médicos militares é do lado materno. Mas gostava muito de história, as minhas professoras da primária ofereciam-me livros porque sabiam que eu gostava. E muitos colegas meus do colégio, da escola primária e do ciclo achavam que eu ia para história. Por outro lado, havia o chamamento do meu avô, pai da minha mãe, tinha sido médico e era inventor, era escultor...

Foi esse o médico militar e do rei D. Luís?

Esse avô, Álvaro Moreira de Carvalho, foi médico militar no Regimento de Infantaria 13 de Vila Real. A mulher, mãe da minha mãe, é que pertence à família luso-brasileira dos Correia de Sá, muito ligada ao Rio de Janeiro desde o século XVI. E o pai, sobrinho desse médico naval, fez a escola militar e entrou na escola de engenharia que pertence à Academia Militar brasileira, na praia Vermelha. O pai dele, meu trisavô, era capitão da Guarda Nacional entre Maranhão e Amazonas e era irmão deste médico naval, Herculano de Sá Correia, que nasceu no Maranhão mas fez o curso da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Acabou em 1843 e concorreu logo à Marinha, onde chegou a médico inspetor naval. Foi médico de D.Luís e navegou com ele, sobretudo na primeira corveta a vapor, a Bartolomeu Dias, e ficaram sempre amigos. E escapou da explosão da fragata D. Maria II em Macau, em 1850, porque estava adoentado e foi a terra...

Com sífilis?

Por aí, era malandreco e morreu solteirão [risos]. Quando voltou do último embarque, em 1863, foi convidado para médico do Paço e a partir daí praticamente a maior atividade foi como médico do rei D. Luís, até 1889. Foram quarenta e tal anos de Marinha, 33 embarques. Depois, atrás desta família há uma série de familiares que eram mestres de campo [oficiais superiores], sargentos-mores, governadores do Rio de Janeiro... Um dos membros da minha família, de que presumivelmente descendo, morreu em combate no Rio de Janeiro em 1711 contra uma invasão de corsários.

Então tem ascendentes militares em Portugal e no Brasil?

Exatamente.

Hesitou na escolha da carreira profissional?

Fiquei um pouco dividido entre a história e a medicina, mas acabei por ir para Medicina e, como gostava de história militar, achei que podia juntar as duas componentes, a médica e militar. Então houve um grupo de colegas de curso que resolveram concorrer quando acabámos o curso em 1990.

Onde?

Na Faculdade de Medicina do Porto e era o primeiro classificado do concurso. Na altura pensei em ortopedia, cheguei a fazer urgências de ortopedia voluntariamente durante dois anos. Findo o internato geral, concorremos. Não fiz o SMO, mergulhei de cabeça e comecei a perceber que a organização não era tão organizada.

Porquê a opção pelo Exército e não pela Marinha ou a Força Aérea, que também tinham médicos?

Quando fui fazer a inspeção para o SMO, em 1989-90, ofereci-me para a Marinha e era para ser chamado. Mas concorrer ao Exército... talvez a psicologia de grupo. Iam todos concorrer para o Exército. Por outro lado, tenho ideia de que a minha mulher não achava muita piada andar embarcado [risos]. Casámo-nos muito cedo...

A sua mulher concorreu?

Não, não. Ela ficou um pouco zangada comigo porque achou que esta coisa de concorrer foi muito unilateral [risos]. Quando fomos admitidos (em agosto de 1992), pedi no Exército para comunicarem a quem de direito a nossa admissão... Claro está que caiu em saco roto. Nos primeiros meses de 1993 recebi uma convocatória do Centro de Recrutamento da Armada para me apresentar em Alcântara para incorporação. Telefonei e atendeu-me um simpático sargento que me disse: 'Sr. Dr., já se devia ter apresentado, está em risco de ser dado como refratário!' Respondi, brincando, que era absolutamente impossível, que mesmo que quisesse não podia... 'Não pode?' Perante a perplexidade do interlocutor, expliquei que já era oficial no Exército (alferes médico). O senhor achou piada à história e pediu para mandar uma carta a explicar a situação...

Deixou de fazer o concurso civil para a especialidade?

Houve em tempos a possibilidade de haver idoneidade dos hospitais militares nalgumas especialidades e conseguia-se fazer parte do internato dentro das estruturas militares. Outras faziam fora e então a instituição militar pedia, depois do concurso, ao Ministério da Saúde para cativar vagas supranumerárias que não entravam no rol do mapa nacional daquele ano. De qualquer maneira tínhamos de fazer, ao contrário do que inicialmente o chefe da repartição de saúde me disse, sem maldade, que não tínhamos de nos preocupar: 'São vagas supranumerárias, não têm de fazer exame civil.'

Como é que correu o concurso para o quadro militar?

Na altura era mais complexo. Enquanto o exame nacional se baseava em cinco capítulos de um livro de referência (gastro, cardiologia, nefrologia, pneumologia e hematologia), o militar podia ter reumatologia, podia ter cirurgia, tinha teórico, tinha prático, tinha uma entrevista com diversos elementos, era mais complexo...

Conseguiu fazer o civil no mesmo ano?

Isso é outra história. Entro, vamos fazer recruta para Tavira em outubro e coincidia com o exame civil. Por isso é que perguntámos 'então como é o exame?'; 'Não se preocupem, ficam supranumerários'. Efetivamente, só em maio do ano seguinte é que eu e o outro colega paralelamente descobrimos 'oh pá, temos de fazer o exame, senão saímos da carreira'. E no ano seguinte estava a estudar para o exame e sou transferido, porque o Centro de Seleção de Coimbra é extinto (estamos a falar de setembro, outubro de 1993).

O que é que aconteceu?

O meu comandante do Centro de Seleção de Lisboa diz-me 'Coimbra vai fechar. Conhece bem o centro de seleção, há material médico que vai ser distribuído pelos de Lisboa e do Porto, gostava que fosse lá fazer um levantamento e trouxesse...'; 'Oh, senhor coronel, mas eu tenho exame naqueles dias'; 'Não faz mal, doutor, vai na camioneta, deixe estar...'. E eu lá fui, cansado, a estudar [risos]. Curiosamente, onde tive melhor nota foi no único capítulo de que gostava, cardiologia. Não tive tempo para estudar e quando fui ver era a melhor nota global, 77%.

Já tinha escolhido neurocirurgia?

Já tinha um ano de carreira militar. A instituição pedia à Direção de Saúde para cativar vagas mas empurrava os candidatos para irem falar com os diretores de serviço para onde queriam ir. Fui falar com o meu antigo monitor, professor Rui Vaz, e ele foi clarividente: 'Rui, se vai para Lisboa faz mais sentido conhecer as pessoas de lá. Vamos falar com o professor Lobo Antunes.' Fui e acho que me aceitou por vários motivos. Por um lado, achou piada ao miúdo que é militar e lhe vai pedir uma vaga (se calhar também achou engraçado ter alguma ligação ao hospital militar). Outra coisa é o facto de ter muito respeito pelo avô, que era um capitão que tinha estado envolvido na intentona da monarquia de Monsanto [Lisboa, 1919] e depois foi desligado...

Como é que correu esse estágio?

Lembro-me de ter havido uma discussão num caso qualquer da especialidade e ele ficou com um sorriso trocista. Encostou-se ao fundo da parede... E eu pensei tão alto, tão alto, que disse: 'O que é que vai sair daqui?'

Em Santa Maria?

Sim. 'Ó Rui, se você dissesse isso lá na sua instituição, o que é que acontecia?' 'Ah, se calhar dois ou três dias de detenção.' 'Então pronto, dois ou três dias de urgência' [risos].

E foram cumpridos?

[Risos] Foram.

Conseguiu conciliar a carreira militar com a civil ou dedicou-se só à militar?

A carreira militar implicava a acumulação do internato na tal fase de aprendizagem com algumas atividades da instituição. Por exemplo, médico de uma unidade ou várias unidades para dar apoio de clínica geral ou, no meu caso, manter a minha atividade de inspeções militares. Era ingrato. Sinto que no internato tive de prejudicar um pouco a formação porque não tinha a disponibilidade inteira. Por outro lado, não posso dizer que não me tivesse dado tarimba. Aprendi muito e, embora fosse uma missão fastidiosa, acabava por ver um vasto leque de patologias que se calhar como neurocirurgião não via.

Estive na Bósnia e o meu grande problema foi medicina dentária. Para os médicos alemães foi um treino do caraças. porque diziam que há muito tempo não viam determinadas patologias

Viu muitas falsas histórias, como médico das inspeções?

Está-me a falar de tentativas de relatórios para fugir ao SMO... Em 2003 e 2004, quando perceberam que eram os últimos a ser incorporados, levavam relatórios desde o dia em que partiram a unha do pé até ao dia em que perderam o primeiro cabelo. Era uma coisa... Na Madeira houve uma história que foi precisamente o contrário do habitual. Há um rapaz que traz um cartão de pensionista e relatórios a dizer que era surdo. Tínhamos uma cabine para testes de audição e aparece-me com um exame de audiometria dentro do normal. Achei que havia ali uma tentativa de fraude e deixei o processo na secretária. Passados uns dois dias, telefona-me a diretora da Segurança Social a dizer 'desculpe estar a incomodá-lo mas estou muito indignada porque temos um jovem que é pensionista, que tem limitações, vai aí e fica apto. Como é que é possível, é muito esquisito...'. Contei-lhe o que se passara, que estava a ponderar fazer uma queixa à Ordem dos Médicos e a senhora garantiu que o rapaz era mesmo deficiente auditivo, que não era mentira.

Ficou sem palavras...

Voltámos a inspecioná-lo. Até me meti na cabine de audiometria para ver se estava a funcionar. Sabe o que era? O rapaz era efetivamente surdo. O pai era militar e ele queria fazer o serviço militar. Pôs-se a observar na fila para a cabine de audiometria, a ver como é que o cabo operador funcionava. Depois, lá dentro punha o dedo no ar logo que ele mexia porque percebeu que o cabo mexia sempre da mesma maneira [risos]: esquerda direita, esquerda direita, esquerda direita. Portanto, o tipo ia levantando o braço mesmo não sabendo o que estava a ouvir... Acabei com a fila à porta para deixarem de ver o processo.

Qual era a importância da inspeção militar, nessa altura, do ponto de vista clínico?

Penso que a instituição cometeu um grave erro e contra mim falo. Era cansativo, tinha pivetes, víamos muita desgraça humana, mas quando acabou o SMO acabaram com as inspeções. Apesar de ser um serviço fastidioso, prestávamos um serviço à comunidade. Quando víamos problemas como varicocelos, quando víamos que não iam ao médico de família, escrevíamos uma carta a dizer o que se passava e dizíamos [aos mancebos] para irem falar com o médico de família. Fazíamos ali uma triagem - varicocelos então era um exemplo muito frequente. Lembro-me de um rapaz com um hidrocelo, que é uma acumulação de líquido no escroto, em que as cuecas amparavam o testículo pelo meio da coxa. Para ele era normal. Acabámos por perder um serviço que prestávamos à sociedade e agora o que é que acontece? Se houver alguma bernarda, estão à nora. Vão ao Dia da Defesa Nacional mas, se for preciso chamar malta, está tudo por fazer.

Ainda há muitos jovens sem ir ao médico, que têm vergonha de falar?

Há meios muitos carenciados. Então na dentição... O Estado nunca apostou na medicina dentária a sério, na prevenção. Estive na Bósnia e o meu grande problema foi medicina dentária. Coisas que eu até ficava envergonhado quando os levava aos médicos alemães. Os médicos dentistas trataram bem dos meus homens e para eles foi um treino do caraças, porque diziam que há muito tempo não viam determinadas patologias. Aqui não havia o hábito da medicina dentária e de irem ao dentista, só iam quando era preciso tirar um dente, diziam que tinham medo da broca. Mesmo quando os mandava para rastreio dentário, tinham uma desculpa com um treino ou uma formação, fugiam.

Conseguiam passar mesmo na triagem militar?

Mesmo na instituição militar às vezes escondiam. Isso é uma coisa em que definitivamente se tem apostado, está melhor, mas tem que ver com a falta de investimento. Não é na parte militar, nós tentávamos e eles fugiam. Mas eles já vinham formatados da vida civil e da sua infância a não estarem habituados a ir ao dentista e a terem medo do dentista.

Integrou quantas missões de paz?

Em 2001 estive na Bósnia, seis meses, e na Líbia, na altura em que morreu o Kadhafi. Fui no avião que foi buscar os feridos com a atual diretora do Hospital das Forças Armadas [HFAR], que era mais moderna do que eu um ano e três meses e agora já é coronel tirocinada e eu ainda seria tenente-coronel.

É isso que o leva a deixar a instituição militar?

Sim, mas não tem nada que ver com as pessoas. Juntaram-nos todos [com a fusão dos hospitais militares] e não acautelaram a questão das carreiras. O HFAR foi construído do teto para a base. Era um projeto interessante, a malta nova como eu defendia isso como uma maneira de ter um hospital de referência. Mas, nos anos de crise, foi à pressa, a contingência da redução de pessoal...

Mas foi a única forma de avançar.

É verdade, é verdade. Os militares têm culpa. Esta junção foi levada mais a sério depois do Conselho da Revolução. Já estava previsto nessa altura um estudo com vista à possível junção dos três ramos num hospital único. E vou dizer outra coisa: como gosto de história, tenho-me divertido imenso em ver que todas estas questões de que estamos a falar são repetitivas desde o século XIX e as queixas são sempre as mesmas, tal como Eça de Queirós fazia comentários em relação à situação do país e que se mantêm atuais. Curiosamente, em 1966 há um projeto de um hospital conjunto do Exército e da Força Aérea, porque o Hospital Militar [da Estrela] estava a rebentar pelas costuras por causa da Guerra Colonial. Com 800 camas, um bloco central com 12 salas de bloco, uma cirurgia plástica com internamento próprio e uma unidade de queimados com uma sala de bloco operatório própria, neurocirurgia já com internamento próprio de 20 camas, com bloco próprio, com uma zona na urgência para admissão de multivítimas.

Não era excessivo?

Estava espetacular. Era um hospital estruturado com pés e cabeça. O que aconteceu recentemente foi meter o Rossio na Betesga. O Lumiar tem capacidade para crescer, não tinha era capacidade instalada. Depois não uniformizaram as carreiras civil e militar. A certa altura, mesmo na parte civil e durante dois anos, tínhamos auxiliares e enfermeiros civis a receberem horas extraordinárias de maneira diferente e em alturas diferentes consoante tivessem vindo da Força Aérea, da Marinha e do Exército. Claro que isto em termos de moral é complicado. Instalaram o hospital de repente, com graves falhas na formação do pessoal no atendimento, uma informática péssima, uma logística que não estava habituada a ter o movimento da Estrela.... Crashes nos computadores todos os dias, uma incapacidade em ter máquinas de fazer check-in.... havia falhas logísticas e de pessoal que limitavam a ação médica. Isso, associado a uma desigualdade na solução das carreiras... Integrei a chefia de dois departamentos e fui sendo ultrapassado por colegas de quem fui chefe e comecei a ver 'estou no Exército, a fazer dez anos de tenente-coronel e só vou ser promovido daqui a dois anos'.

Quando é que decidiu sair?

Saí em 2016, com dez anos de tenente-coronel. Disseram-me: 'És maluco, vai ser para o ano.' Infelizmente, tudo aquilo que disse tem acontecido. Neste momento, ainda seria tenente-coronel e já fui ultrapassado por mais um colega da Marinha... E eu tenho de me dar à dignidade. Damo-nos todos bem, não tem que ver com questões pessoais mas com uma questão organizacional que não foi precavida.

Mas era possível fazer de outra maneira, face à resistência em juntar?

Temos de reconhecer que houve muitos tiros nos pés... Mas será que nesta criação do HFAR deram os meios para aquilo funcionar ou não tiveram a coragem de dizer que não queriam? O bloco operatório novo era para ter arrancado em 2016 e ainda está lá o buraco. Um tipo quer trabalhar mas não tem como e claro que os números reduzem. Depois dizem 'está a ver, só fazem isto e vamos acabar'. Isto é perverso e é uma realidade, tem acontecido. Na parte civil acabaram com o hospital de ortopedia de São Lázaro, foi tudo para o Curry Cabral mas não aumentaram o número de salas. A produtividade aumentou por colega? Não. Os colegas têm culpa? Não. Isto é perverso e é uma realidade.

Fora das fileiras, como é que as coisas agora correm?

Tenho qualidade de vida. Estou a fazer neurocirurgia. Faço a atividade que quero, de vez em quando tenho tempo para ir ao Arquivo Histórico, mantenho a ligação à instituição militar.