Coreia do Norte. Os cogumelos

Mala de viagem (44). Um retrato muito pessoal da Coreia do Norte

De Pequim até Dandong, na China, fomos por via-férrea, a mesma que nos acompanhou até à fronteira com a Coreia do Norte, atravessando a ponte. A viagem estava marcada por uma empresa especializada e reconhecida pelas entidades norte-coreanas. É esta a maneira mais comum de viajar até ao país mais seguro do mundo. Seguro, a menos que se fotografem as forças armadas, se proteste contra o governo, se saia do hotel sem guia turístico, se não faça uma reverência às grandes estátuas dos líderes ou até se viaje acompanhado da "Bíblia" ou do "Alcorão" de um modo atentatório, o que trará grandes problemas ao visitante. A viagem por comboio até à capital, Pyongyang, não tem especial interesse. Os passaportes ficaram confiscados pelos guias, que nos acompanharam sempre e em todos os lugares, tendo sido recuperados à saída do país. Só fomos onde nos quiseram levar, mas num país com problemas económicos crescentes desde a pulverização da União Soviética (antes, o seu principal apoio económico), as disparidades passaram a ser muitas. Apenas se vê o que é mais ostentoso para turista ver. Nunca se conhece um país, no seu todo, muito menos a Coreia do Norte. Antes do regresso dos três dias, foi oferecida uma lata de cogumelos a cada um de nós. Pensei na sorte que estes têm face à quase impossibilidade de os norte-coreanos saírem do seu país. Já sabia que uma das produções em crescendo era a do cogumelo, mas não sabia, à data, que o mesmo passaria a ser um produto-marca. O cogumelo é comercializado inteiro e em bebida, neste caso para o fortalecimento da saúde e do desempenho atlético dos desportistas, mas cuja fórmula é desconhecida, por não ser divulgada. Coisas de um país que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, tomado pelos dois principais vencedores da guerra, Estados Unidos e União Soviética. Para a divisão da Península, com a delimitação da fronteira entre os dois novos países, foi usado o chamado paralelo 38, a linha imaginária localizada trinta e oito graus a norte da linha do Equador. Os americanos ficaram na parte sul, enquanto os soviéticos dominaram o norte. O regime passou a basear-se na passagem do poder de geração em geração de uma única família. Porém, recentemente, cresce o protagonismo de uma mulher que tem estado, fielmente, ao lado do seu irmão-presidente. Ambos estudaram em Berna, na Suíça, no mesmo período de tempo, mas Kim Yo-jong é uma figura elegante, interessante nos termos da beleza asiática, conseguindo uma melhor imagem externa, embora o seu dogma seja semelhante ao do irmão em relação aos destinos do país. Talvez um dia se veja a sua imagem em grande formato em tudo o que é espaço público e instituições. Isto, desde que os cogumelos comestíveis não sejam substituídos por outros, perigosos e, porventura, sempre nas mentes de quem lidera.


Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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