Queer Lisboa: há um arco-íris na cidade

O Festival Internacional de Cinema Queer arranca nesta sexta-feira e estende-se até 28 de setembro, com sessões no Cinema São Jorge e na Cinemateca. O ativismo LGBTI+ é um dos destaques temáticos.

Conquistas e recuos. Celebração e ação. É de olhos postos nos marcos dos movimentos de luta pelos direitos das comunidades LGBTI+ que se apresenta o programa da 23.ª edição do Queer Lisboa (o mais antigo festival de cinema da cidade). Que marcos? Os 50 anos da revolta de Stonewall, onde "tudo começou" no que respeita ao debate público desses movimentos, mas também as duas décadas da Marcha de Orgulho LGBTI+ de Lisboa, momentos da história que convidam a refletir sobre os avanços políticos e sociais - incluindo as recentes ameaças a essas vitórias - e igualmente sobre o ativismo de hoje na paisagem global. Neste espírito de comemoração e debate, o festival volta a mergulhar na cultura queer para mostrar e pensar as suas questões.

Dividido entre as salas do Cinema São Jorge e da Cinemateca, o programa contém, no total, 101 filmes de 36 países, entre os quais sete títulos portugueses, com preponderância das produções francesas e norte-americanas. Nesta sexta-feira o arranque do Queer Lisboa faz-se com o documentário brasileiro Indianara, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa, no rasto das ações de resistência e solidariedade da ativista transgénero Indianare Siqueira, e o encerramento, no dia 28, traz Skate Kitchen, de Crystal Moselle, ficção com a câmara voltada para um grupo de raparigas skaters de Nova Iorque que ganha um novo elemento, em descoberta íntima.

Também skater, para além de realizador, argumentista e artista, Harmony Korine é um dos nomes centrais deste ano, com a exposição Sem Receio de Criar o Caos (curadoria de Thomas Mendonça), na galeria Foco, dedicada ao universo da sua cinematografia - ele que é uma das figuras mais provocadoras do cinema independente norte-americano, escritor do argumento do célebre Kids (1995), de Larry Clark. A par da exposição, haverá ainda uma sessão especial de Mister Lonely (2007), com Diego Luna e Samantha Morton nos papéis de dois imitadores, respetivamente, de Michael Jackson e Marilyn Monroe (com participações de Werner Herzog, Leos Carax e Denis Lavant).

Na competição de longas-metragens há a história de um bailarino a deparar-se com a sua homossexualidade num meio hostil (And Then We Danced, de Levan Akin), outra de uma mulher transgénero que ajuda um extraterrestre a regressar às origens (Breve Historia del Planeta Verde, de Santiago Loza), uma revolta identitária dentro de uma comunidade cigana em Madrid (Carmen y Lola, de Arantxa Echevarría), o drama de um enfermeiro gay solitário (Greta, de Armando Praça), um road movie sobre o poliamor (Las Hijas del Fuego, de Albertina Carri), a autodescoberta de um jovem num ambiente rural da Indonésia (Memories of My Body, de Garin Nugroho), um adolescente órfão a tentar sobreviver em São Paulo (Sócrates, de Alexandre Moratto) e um retrato amoroso na cena trans nova-iorquina, com produção executiva de Martin Scorsese (Port Authority, de Danielle Lessovitz).

Destaque ainda para as competições de documentário, queer art e curtas-metragens, bem como para a secção panorama. Aqui, oportunidade para ver no grande ecrã Can You Ever Forgive Me, o filme de Marielle Heller inédito nos cinemas portugueses, que faz a insólita crónica (verídica) da falsificadora literária Lee Israel, interpretada por uma brilhante Melissa McCarthy; também a ficção lésbica queniana Rafiki, de Wanuri Kahiu; ou os documentários The Spark: The Origins of Pride, de Benoît Masocco, centrado nos motins de Stonewall, e Making Montgomery Clift, assinado pelo sobrinho do mítico ator, Robert Clift, a vasculhar os arquivos de família. Outra surpresa é a performance conjunta de Kristen Stewart e Laura Dern em JT LeRoy, de Justin Kelly, mais uma história, particularmente garrida, de uma falsária no universo das letras.

No âmbito musical (queer pop), as atenções voltam-se para os filmes documentais Conan, o Rapaz do Futuro, de Daniel Mota, e Lena d'Água - Nunca Me Fui Embora, de Hugo Manso e Nuno Galopim, a celebrarem o sangue novo (Conan Osíris) e a veterana (Lena d'Água) da música portuguesa. Também no registo nacional, tem lugar nesta 23.ª edição do Queer a antestreia do novo filme de Vicente Alves do Ó, Golpe de Sol.

Finalmente, na Cinemateca, decorre um programa de homenagem aos 40 anos da secção Panorama do Festival de Berlim. São sessões que reúnem títulos arrojados de Tsai Ming-Liang, Isaac Julien ou Hussein Erkenov, entre outros, na memória da abertura estética e política dessa secção da Berlinale. Haverá, de resto, debates, festas e muitos convidados para celebrar a cultura queer.

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