55 capas entre as 55 000 que fizeram a história do 'Diário de Notícias'

A edição de hoje, 20 de novembro de 2019, atinge um número que os fundadores do Diário Notícias decerto pensariam atingir mas dificilmente poderiam imaginar como seria o seu jornal: 55 000 edições ao longo de 155 anos.

A primeira página de todas as que o Diário de Notícias imprimiu espantaria os atuais leitores digitais por ser composta apenas de textos de alto a baixo e em quatro colunas. Ou a que publicou 44 anos depois, ainda mais densa nas suas oito colunas e apenas com uma ilustração mínima, porque a fotografia ainda estava em embrião. Mas quando se confronta com uma primeira página que continua pela última, como aconteceu com a edição de 11 de setembro de 2001, o leitor pode pensar que estava tudo inventado. Não é bem assim, como pode observar nas 55 primeiras páginas selecionadas entre 55 000 edições - e primeiras páginas - que o DN perfaz hoje.

A primeira edição do Diário de Notícias foi publicada na quinta-feira, 29 de dezembro de 1864. A capa não continha qualquer imagem, pois ainda não existiam meios técnicos para fazer ilustrações ou fotografias - ainda não tinham sido inventados -, mas já pretendia que os leitores se relacionassem com o jornal como no tempo das redes sociais: "Aceitam-se e agradecem-se informações verbaes ou escriptas sobre quaesquer interessantes da vida publica." O editorial era explícito, desejava que os leitores fossem de "todas as classes" e ser "acessivel a todas as bolsas, e comprehensível a todas as intelligencias".

A primeira gravura impressa no DN foi no dia 14 de junho de 1877 e intitulava-se o Mapa do Teatro da Guerra Russo-Turca. A legenda explicava os movimentos do "exército do czar" e os avanços militares do sultão.

A primeira infografia impressa no DN foi na edição 12 621, ia o jornal no seu ano 37, a 23 de janeiro de 1901. Era uma ilustração de Roque Gameiro sobre a rainha Vitória em diferentes épocas da sua vida que assinalava à sua morte.

O regicídio a 1 de fevereiro de 1908 fazia o título principal da edição do dia seguinte ao assassínio no Terreiro do Paço do rei D. Carlos e do filho e herdeiro, o príncipe real D. Luís Filipe de Bragança.

Com muito mais destaque do que a notícia do regicídio estava a proclamação da República, que no próprio dia 5 de outubro de 1910 teve direito a quatro edições do DN de modo a relatar todos os acontecimentos minuto a minuto. Uma cronologia explica na primeira página o que estava a acontecer em Lisboa e pelo país e a composição do primeiro governo provisório, liderado por Teófilo Braga.

"Por comunicação recebida da torre Eiffel pelo posto radio-telegrafico da Serra de Monsanto sabe-se que foi assinado hoje o Armisticio ás 5 horas." Era o título da edição do DN de 11 de novembro de 1918, que noticiava aos portugueses o fim da Grande Guerra, dava pormenores sobre as negociações de paz e incluía uma subscrição do jornal para se repatriarem os prisioneiros portugueses na Alemanha.

A morte do presidente Sidónio Pais foi a notícia principal de domingo, 15 de dezembro de 1918, e escrita "com emoção" e descrita com os pormenores possíveis, como o da bala que "o varou" no momento em que ia seguir viagem para o porto e que "mais uma vez, por desvairados motivos, correu em Lisbboa o sangue de inocentes".

"Como eu vi Sua Santidade Bento XV" é o título da primeira página do dia 1 de janeiro de 1922, na qual um artigo que continua nas páginas seguintes descreve a audiência particular do papa ao diretor do DN, que deseja a Portugal "a tranquilidade e as prosperidades do seu país".

A chegada ao Brasil dos aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho após uma atribulada viagem aérea domina o noticiário daqueles dias e toda a primeira página da 20 de outubro de 1922, com direito a uma ilustração a todo o tamanho da capa pouco habitual nesses tempos, de modo a convidar a população a ir homenagear os dois heróis no seu regresso a Lisboa.

O pronunciamento militar de 28 de maio de 1928 surge retratado ao pormenor na primeira página da edição 21 677, do dia 30 de maio. Com fotografias das movimentações em Mafra, Seixal e Lisboa, compreende-se o que estava a acontecer a nível político e militar, apesar da censura efetiva que o DN critica fortemente e de dois jornalistas serem presos. É o início do Estado Novo.

A II Guerra Mundial está à espreita e o jornalista do DN António Ferro consegue uma das poucas entrevistas mundiais a Hitler, publicada a 23 de novembro de 1930. "Agitada e sensacional entrevista com Adolfo Hitler chefe dos nacionais-socialistas" é o título e conta com a reportagem da intrincada conversa e grande reportagem sobre como obter declarações de um dos líderes que mais mortes provocou na Europa.

A Guerra Civil Espanhola é observada de perto por mais de uma centena de jornalistas portugueses. Na edição de 3 de novembro de 1936, a reportagem fotográfica está ao lado dos textos que contam as novidades sobre o "movimento libertador de Espanha" das tropas nacionalistas contra os "vermelhos". O sensacional discurso Mussolini é também destaque na capa.

A 3 de maio de 1945, a primeira página é dominada pela capitulação da Alemanha e o fim da II Guerra Mundial. O editorial destaca a posição de Portugal perante a vitória dos Aliados e noticia-se que Lisboa está em festa e a celebrar entusiasticamente a grande novidade.

A visita oficial da rainha Isabel II a Portugal é uma das notícias mais bem desenvolvidas ao longo de várias edições do DN, mas na de 19 de fevereiro de 1957 o destaque vai para a aclamação popular à soberana britânica.

A 5 de fevereiro de 1961 o grande destaque vai para o fim do sequestro ao paquete Santa Mariaapós o primeiro desvio a nível mundial. Na primeira página está também a notícia da tentativa de assalto de instituições militares em Angola por parte de movimentos independentistas. É o início de um dos piores anos da governação de Salazar, que após o ato de pirataria inédito será confrontado com a Guerra Colonial.

As primeiras tropas portuguesas que embarcam para Angola para reconquistar as povoações ocupadas pelos independentistas, como Nambuangongo, de modo a refazer o "clima de paz" naquelas províncias ultramarinas, estão na fotografia principal da edição 34 413, de 22 de abril de 1961.

A morte inesperada de John Fitzgerald Kennedy num atentado em Dallas ocupa toda a primeira página de 23 de novembro de 1963, com o rosto do presidente norte-americano rodeado de reações de espanto e pesar vindas de todo o mundo.

Um incêndio de grandes proporções consome praticamente todo o Teatro Dona Maria II. "Maldição de Macbeth" é o título na primeira página da edição de 3 de dezembro de 1964, sendo o acontecimento descrito ao pormenor por um grupo de jornalistas destacado para a cobertura.

A maior parte dos portugueses não imagina o que era atravessar o rio Tejo nos cacilheiros, daí a importância dada na primeira página do dia 7 de agosto de 1966 à inauguração da Ponte Salazar - renomeada 25 de Abril após 1974 -, que ligava Almada e Alcântara em poucos minutos.

A primeira visita de um papa a Portugal é um dos grandes acontecimentos e a edição de 14 de maio de 1967 faz a história exaustiva da estada de Paulo VI em Fátima, que conversou com a vidente Lúcia e mostrou ao povo a única sobrevivente dos pastorinhos que "viram" a Virgem. Foi uma das maiores concentrações de fiéis no santuário da Cova da Iria.

A substituição de Salazar pelo novo presidente do Conselho, Marcelo Caetano, está impressa na edição de 27 de setembro de 1968. Caetano é elogiado pelo presidente da República, Américo Tomás, e antes de tomar posse visitou o anterior governante, que continua internado no hospital e com o prognóstico reservado.

A chegada dos primeiros homens à Lua é objeto de uma elaborada edição do DN a 21 de julho de 1969. Sobre o título "O século XXI começou hoje" está uma ilustração que reproduz Neil Armstrong e Buzz Aldrin a descer do módulo lunar, e no interior estão 26 páginas dedicadas a registar o acontecimento.

A morte de Salazar domina toda a primeira página do dia 27 de julho de 1970 e é publicada uma edição especial às 12.00, três horas após o óbito.

A Revolução do 25 de Abril de 1974 vai ter uma segunda tiragem bastante diferente da primeira na primeira página no próprio dia, noticiando que "eclodiu um movimento militar" que derrubava o Estado Novo. As notícias são de múltiplas origens, fazendo eco de protagonistas desconhecidos e de um movimento de militares há muito esperado pelos portugueses.

A 3 de junho de 1975, o DN dá notícia do início dos trabalhos de elaboração da nova Constituição portuguesa. A legenda da fotografia é esclarecedora dos tempos da direção de Luís de Barros e de José Saramago: "Meio século depois de se ver escarnecida e escorraçada pelo fascismo, a democracia, personificada por 250 deputados eleitos livremente pelo povo, voltou a sentar-se no hemiciclo de S. Bento."

O acidente aéreo que vitima Sá Carneiro e Amaro da Costa, e mais cinco acompanhantes, no voo que os levaria de Lisboa para o Porto, domina a primeira página do dia 5 de dezembro de 1980. As causas do acidente ou a tese de atentado nunca serão confirmadas pelas autoridades e pelas múltiplas comissões de inquérito da Assembleia da República.

A vitória do atleta Carlos Lopes inaugura nas primeiras páginas do DN a futura grande presença do atletismo ao obter a primeira medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, como se pode observar na edição de 13 de agosto de 1984.

A assinatura do tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia após oito anos de negociações ocupa quase toda a primeira página da edição de 13 de junho de 1985, com uma fotografia de grupo de chefes de governo dos estados comunitários.

O incêndio do Chiado foi objeto de uma das mais completas reportagens do DN na segunda edição, a 43 621, no dia 25 de agosto de 1988, mostrando as reportagens fotográficas dos profissionais que acorreram ainda de madrugada ao local.

A queda do Muro de Berlim dominava a edição do dia 11 de novembro de 1989, com uma série de crónicas de vários correspondentes internacionais do DN e várias páginas de cobertura noticiosa.

A libertação de Nelson Mandela foi notícia mundial e a primeira página de 12 de fevereiro de 1990 reflete numa fotografia o momento em que o dirigente sai da prisão acompanhado da mulher.

A invasão norte-americana do Iraque foi dos acontecimentos que mais edições teve no DN. Na madrugada de 17 de janeiro de 1991 foram elaboradas três edições, com as atualizações da primeira guerra dada em direto pela televisão, como foi o caso da CNN.

O pior momento da governação de Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro surgiu num buzinão incipiente junto às portagens da Ponte 25 de Abril e que foi engrossando ao longo da manhã e nos dias seguintes com imagens de violência e de amplo protesto público, como se pode ver na primeira página de 25 de junho de 1994.

Um dos momentos do novo Portugal foi a abertura e os meses seguintes da Expo'98. A 22 de maio de 1998 a primeira página era ocupada com as primeiras imagens do evento, designadamente as crianças a brincarem com a mascote Gil.

Ainda em 1998, no dia 9 de outubro, a primeira página reflete a glória de José Saramago ao trazer para a língua portuguesa o primeiro Prémio Nobel da Literatura. A cobertura desse momento do escritor teve direito a dez páginas de noticiário.

A morte de Amália ensombra o fado e a homenagem do DN é feita na primeira página de 7 de outubro de 1999, simples e apenas com uma legenda: "Amália, quis Deus que fosse o meu nome."

A 6 de março de 2001, a primeira página do DN retrata uma das tragédias que mais impressionaram os portugueses: a queda da ponte de Entre-os-Rios. Dezenas de mortos, muitos dos quais levados pela água do rio, desviaram o olhar de tudo o resto durante vários dias no país.

A manhã de 11 de setembro de 2001 revelou o impensável ao nível dos atentados, como foi a sucessão de imagens de Nova Iorque ferida de morte através da derrocada das Torres Gémeas provocada pelo embate de dois aviões comerciais guiados por vários comandos árabes, além de outros alvos. O mundo nunca mais foi o mesmo, como se viu pela primeira página do dia 12 de setembro de 2001 do DN.

O primeiro dia de independência de Timor é testemunhado pela jornalista Graça Henriques desde Díli. Uma causa que mobilizou todos os portugueses na sua defesa e que a primeira página de 20 de maio de 2002 reflete.

As reportagens do escritor Mario Vargas Llosa sobre a invasão norte-americana de Bagdad foram impressas ao longo de sete edições do DN. A 28 de julho de 2003 os leitores puderam ler a primeira.

A 5 de julho de 2004, o DN tem uma das primeiras páginas mais tristes para os amantes de futebol: Numa única palavra - "Fugiu" - diz-se tudo: Portugal não venceu o Euro 2004 que organizou e a que todos os portugueses aderiram.

A vitória de Barack Obama, o primeiro afro-americano a ser presidente nos Estados Unidos, fez o mundo olhar para a América e prever que tudo poderia acontecer no país. Foram as eleições mais participadas de sempre e que o DN reportou na edição de 5 de novembro de 2008.

A sucessão de prémios internacionais de Cristiano Ronaldo é mostrada na primeira página a 13 de janeiro de 2009 quando o jogador recebe o título de melhor do mundo pela FIFA. Até Pelé o cumprimentou.

A visita do papa Bento XVI a Portugal superou as expectativas do Vaticano e seduziu muitos dos católicos portugueses que o olhavam como um religioso menos fácil do que o seu antecessor, João Paulo II. O terceiro segredo de Fátima esteve na berlinda, tal como a pedofilia e a homossexualidade.

O governo PSD-CDS viu sair à rua uma grande manifestação com portugueses de todas as ideologias que foi mostrada na primeira página do dia 16 de setembro de 2012. A troika , que o governo pretendeu ultrapassar, foi um dos grandes objetos de indignação popular.

A primeira página de 6 de outubro de 2016 mostra numa ilustração de André Carrilho a eleição de António Guterres para secretário geral das Nações Unidas.

Depois da derrota mesmo no último jogo do Euro 2004, Portugal sagra-se campeão europeu com um golo mágico de Éder, escolhido na parte final do desafio pelo treinador Fernando Santos. A primeira página do dia 11 de julho de 2016 regista um momento que os portugueses esperavam desde o início do Euro.

A morte de Mário Soares, um dos principais pais da democracia portuguesa, surge espelhada na primeira página do DN na edição 53 954, do dia 8 de janeiro de 2017. Um suplemento com 24 páginas evoca o ex-secretário geral do PS, o ex-primeiro-ministro e o ex-Presidente da República.

A primeira página de 17 de outubro de 2017 faz o balanço de uma das maiores tragédias jamais vistas pelos portugueses após as mortes de Pedrógão, um novo foco de incêndios trágicos com mais vítimas inimagináveis.

A primeira página de 9 de janeiro de 2019 é uma entre muitas sobre o Brexit, um debate que enerva a União Europeia e os próprios ingleses e que ainda aguarda por novos episódios nas próximas semanas ou meses.

A morte da escritora Agustina Bessa-Luís surge inesperadamente, mesmo estando retirada há vários anos. Um novo fôlego para uma obra gigante que nesses dias é muito comentada, é a primeira página de 4 de junho de 2019.

Marcelo Rebelo de Sousa participa na Cimeira de Ação Climática e cumprimenta António Guterres, como mostra a grande foto da primeira página de 24 de setembro de 2019.

A morte de Freitas do Amaral surpreende o país, que vê assim desaparecer o último dos fundadores da democracia em Portugal. "Vivi e agi à minha maneira" é uma das suas últimas frases, que fica regista na primeira página de 4 de outubro de 2019.

30 anos sobre a queda do Muro de Berlim fazem a primeira página da edição de 9 de novembro de 2019. Uma edição em que é evocado também o fim anunciado da carreira por Carlos do Carmo, que se assinala com um último espetáculo no Coliseu.

150 anos após a inauguração do canal de Suez, o DN recorda na edição de 16 de novembro de 2019 os textos escritos por Eça de Queiroz, publicados no jornal.

A morte do músico José Mário Branco é o principal tema da primeira página do número 55 000 do Diário de Nootícias.

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