Premium Os rabejadores

Ir à tourada é uma das memórias de infância que guardo. Não porque gostava de ir, mas porque o meu pai - um aficionado - reservava, todos os verões, um dia para levar a família até à Nazaré - a praça mais próxima da minha casa.

Com a idade, fui desenvolvendo uma espécie de aversão a este "espetáculo" que, ao longo dos anos, se foi tornando cada vez mais incompreensível para mim. Nada na tourada me diz grande coisa. Nem o tipo que anda com um capote, todo gingão, a gozar com o touro. Nem os cavaleiros em fato de gala que se pavoneiam em cima de um cavalo. E muito menos os forcados que, quais recrutas acabados de receber a convocatória para a guerra, se apresentam "ao serviço", à frente do touro, como se estivessem a preparar para dar a vida pelo país.

Confesso, aliás, que o único momento de prazer que partilhava com o meu pai, durante a tourada, era quando o animal - o irracional - levava a melhor sobre o outro animal - o racional: quando o touro trocava as voltas ao homem do capote e lhe dava um chega para lá, assim como quem não quer a coisa; ou quando, um dia, o animal saltou as tábuas para o lado de lá e foi vê-los a todos a saltar as mesmas tábuas para o lado de cá da arena, para gargalhada geral da plateia. Nesse dia, sim, ri de cumplicidade com o meu pai e, já agora, com o touro.

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