A tragédia anunciada da estrada que abateu em Borba

Dois mortos e pelo menos quatro desaparecidos, na sequência de um aluimento de terras que levou ao abatimento da Estrada Nacional 255 entre Vila Viçosa e Borba, foi o balanço ao fim do dia. Operações de busca e resgate são extremamente delicadas e morosas "podem levar semanas" a concluir.

Uma tragédia anunciada. Esta segunda-feira, por volta das 15:45 um troço de cerca de 100 metros da estrada que liga Borba a Vila Viçosa, em Évora, abateu arrastando três viaturas (um carro, uma carrinha caixa aberta e uma retroescavadora) para dentro de uma pedreira", fazendo "duas vítimas mortais e pelo menos quatro desaparecidos". Segundo o comandante da Proteção Civil, José Artur Neves, as operações de busca e resgate são extremamente delicadas e morosas "podem levar semanas" a concluir.

Uma ideia corroborada pelo presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (AsproCivil), Ricardo Ribeiro."É, de facto, uma operação de grande complexidade, por várias razões", e "pode demorar horas ou vários dias", dependendo da "maior ou menor dificuldade" no acesso às vítimas. Segundo o também comandante dos Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos, a parte da pedreira onde ocorreu o deslizamento de terras "não tem acesso direto, ou seja, o acesso é feito verticalmente, através de meios mecânicos". Portanto, "há a necessidade de fazer o socorro através daquilo a que chamamos o grande ângulo, ou seja, através de corda e com uma maca de evacuação vertical", explicou.

Para já há duas vítimas mortais contabilizadas, mas no fundo da pedreira, com cerca de 90 metros de profundidade, podem estar mais "quatro ou cinco vítimas". "Dois operários da empresa que explora aquela pedreira foram arrastados e são as duas vítimas mortais que neste momento é possível fazer a confirmação. Esta noite, iremos desencadear conjunto de operações para resgatar as duas vítimas que é possível observar. Tentaremos o resgate tendo presente o princípio da segurança", disse o comandante José Ribeiro ao fim do dia, sem arriscar data para o fim da operação: "Não temos um timig para o término da operação porque serão muito morosas e delicadas. Cada decisão e ação terá de ser bem calculada e validada, sob pena de pormos em riscos os próprios operacionais."

O​ aluimento de terras para dentro de uma pedreira aconteceu esta tarde, cerca das 15.30 (alerta foi dado às 15:45, segundo o INEM) na Estrada Nacional 255 entre Vila Viçosa e Borba. A que via abateu passa entre duas pedreiras, uma delas desativada, mesmo às portas de Borba, no lugar da Portela em Vila Viçosa "arrastando dois veículos" e provocando o "deslocamento de uma retroescavadora com o maquinista e auxiliar", segundo as autoridades. Para o local foram acionados 84 operacionais das corporações da região, nomeadamente bombeiros de Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Elvas, a GNR, VMER, e 39 viaturas e um helicópteros do INEM.

Na terça-feira de manhã, será feita uma "avaliação técnica muito apurada em conjunto com o Laboratório Nacional de Proteção Civil (LNEC), com o Departamento de Geologia e Minas, a Engenharia Militar e o responsável técnico da pedreira".

Tragédia anunciada e evitável?

A "tragédia" estava para acontecer a qualquer momento. Esta foi a frase mais repetida por moradores e familiares das vítimas no local. O mau estado da estrada que passava entre duas pedreiras, uma delas desativada, já tinha motivado alertas de várias pessoas e entidades. De acordo com Vera Calado, uma habitante de Borba, que ia a passar no local e foi uma das pessoas que publicou fotos do local, "há mais de seis meses" que era conhecido o mau estado da via. "Esta situação não é de agora. Havia notícias de que a estrada ia ser encerrada por haver já indícios de que podia ruir a qualquer momento. Isso já se sabia há algum tempo, há mais de seis meses. Desde então que deixei de passar nessa estrada", disse à SIC Notícias.

Ora, também Luís Sotomaior, administrador de uma das pedreiras garantiu à Rádio Renascença que já tinha alertado para o estado daquela via há dois anos. "Era uma situação não digo previsível, mas para a qual eu já tinha chamado à atenção há algum tempo. Eu e os meus colegas tínhamos feito uma reunião na câmara nesse sentido e apresentado alternativas. Foi um trabalho conjunto que fizemos no sentido de minimizar o problema."

O aluimento ocorreu na zona que está sob administração da Câmara Municipal de Borba, município responsável pela via. Segundo disse ao DN fonte do ministério do Planeamento e Infraestruturas, o troço entre Borba e Vila Viçosa da Estrada Nacional 255 foi desclassificada em 2005, após a construção de uma variante na zona. Ora, há quatro anos, a Rádio Campanário noticiou mesmo que a estrada corria o risco de ser extinta, por motivos de segurança, "passando a ligação entre as duas localidades a ser feita de forma condicionada". Ou seja, sem pesados. No artigo da rádio alentejana, o presidente da Câmara Municipal de Borba, António Anselmo, reconhecia que o problema se colocara já "há 4 ou 5 meses" e que a Direção Regional de Economia estaria na posse de vários estudos alertando para o risco.

Esta segunda-feira, quando confrontado com isso, defendeu-se: "Isto é uma estrada municipal, de qualquer das maneiras as pedreiras estão licenciadas. As questões de segurança estariam normais. Como caiu é um acidente, é uma calamidade."

Quanto a responsabilidades, há que as assumir ou não..."Naturalmente que tudo será avaliado pelas entidades competentes, como é a câmara, e avaliará o que foi bem ou mal feito. Cá estaremos para assumir as responsabilidades, ou não. Mas isso não está em causa neste momento. Agora há que tratar dos vivos, e que os mortos sejam respeitados. Espero que sejam poucos. As desculpas nunca se pedem evitam-se. Vamos ver o que aconteceu corretamente ou incorretamente aqui que permitiu esta tragédia muito grande aqui", disse o edil de Borba, que foi perdendo a paciência com as perguntas sobre as responsabilidades.

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