"Brasil está a postos" para intervenção na Venezuela, diz Bolsonaro ao lado de Trump

Ao lado do presidente norte-americano, para quem todas as opções no país "estão em aberto", o líder brasileiro falou ainda em "ações sigilosas" porque "questões estratégicas, quando são divulgadas, deixam de ser estratégicas".

Na cimeira entre os presidentes das duas maiores economias do continente americano, foi a situação no país que detém a sétima, a Venezuela, que os ocupou por mais tempo. Para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que recebeu o seu homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, ontem à tarde em Washington, "todas as opções estão em aberto", incluindo, portanto, uma intervenção militar. E, de acordo com Bolsonaro, "o Brasil está a postos".

O primeiro, entretanto, não deu prazos para que a crise se resolva e o segundo despistou ao afirmar que uma eventual intervenção se trata de "uma questão estratégica, com ações sigilosas, e as questões estratégicas deixam de o ser se forem divulgadas". "Pedimos aos militares da Venezuela que parem de apoiar [o presidente Nicolás] Maduro, que não é mais do que uma marioneta de Cuba. O ocaso do socialismo chegou ao mundo ocidental e ao nosso país também", reiterou Trump. Bolsonaro, que como o homólogo reconhece como presidente do país vizinho o autoproclamado Juan Guaidó, destacou o esforço do Brasil no envio de alimentos e de outros produtos de primeira necessidade aos venezuelanos por meio da fronteira com o estado do Roraima.

Ao não descartar o apoio ou até a participação numa intervenção militar na Venezuela, Bolsonaro abre o flanco, no entanto, para um eventual conflito de opiniões com o seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que já se declarou frontalmente contrário a essa solução. Mesmo o porta-voz do presidente, general Rêgo Barros, foi obrigado a dizer na segunda-feira que "a situação deve ser resolvida pela diplomacia, sem trabalhar com a hipótese de intervenção, até porque afronta a nossa constituição", depois de o presidente, minutos antes, dizer a empresários que conta com "o poder bélico dos EUA" para destituir Maduro.

O próprio Bolsonaro, horas depois da sua declaração no Rose Grande da Casa Branca, pôs água na fervura enquanto estava a caminho do seu compromisso seguinte. "A solução é diplomática até às últimas consequências mas não queremos que a situação se perpetue."

Mas nem só da Venezuela se falou no primeiro encontro entre Trump e Bolsonaro - e estreia em cimeiras bilaterais do recém-eleito líder brasileiro. Trump disse contar com o Brasil como aliado especial da NATO e prometeu apoiar eventual entrada do país na OCDE. O presidente americano tentava retribuir as ofertas brasileiras, tornadas públicas na véspera, do uso da base de Alcântara no Maranhão, considerada ótima para o envio de satélites ao espaço, e da possibilidade de cidadãos norte-americanos (e japoneses, australianos e canadianos) poderem visitar o país sem necessidade de visto.

Pró-americano

Trump e Bolsonaro trocaram camisas das seleções de futebol dos dois países, comentaram sobre o facto de terem ambos cinco filhos, entre outros afagos. "Se nas eleições americanas de 2020 vencer alguém do partido democrata com relação com o socialismo trataremos da situação como um assunto interno nos EUA mas eu acredito que Trump vai vencer novamente", disse Bolsonaro. "Concordo!", acrescentou Trump, suscitando risos. O norte-americano, por sua vez, considerou "fantástica" a eleição do homólogo em outubro e classificou de "exemplo de bravura" a sua recuperação da facada sofrida em setembro.

Bolsonaro aproveitou ainda a ocasião para atacar os seus adversários internos. "É uma satisfação, depois de décadas de presidentes brasileiros anti-EUA, estar aqui, temos muito a oferecer um ao outro, temos muito em comum, eu e Trump, e se ele quer fazer a América grande, eu quero fazer o Brasil grande."

Para Guga Chacra, especialista em política internacional da Globo News sediado nos EUA, a afirmação é exagerada. "Fernando Henrique Cardoso não foi anti-EUA, Lula não foi, talvez Dilma tenha sido um pouco por causa da questão da espionagem, revelada noWikiLeaks, mas todos tiveram excelentes relações com os seus homólogos de uma maneira geral, países como o Irão, a Síria, chefes de Estado como Maduro, esses sim podem ser caracterizados como antiamericanistas."

Sobre a relação privilegiada de Trump com Bolsonaro, o comentador fala do perigo de confundir o lado pessoal com o lado institucional. "O que Bolsonaro parece confundir é relações pessoais com relações entre estados, a questão de ter elogiado o muro na fronteira com o México irritou os democratas, assim como os chapéus usados pelo seu filho [Eduardo Bolsonaro] a dizer Trump 2020."

Emigrantes

Ainda a respeito do muro, uma gafe de Bolsonaro em entrevista à conservadora FOX News na véspera do encontro sobre emigração desiludiu os seus compatriotas radicados nos EUA - afirmou que os ilegais, na sua maioria, "não têm boas intenções". "Dececionante é uma palavra amena para caracterizar o que os brasileiros que vivem nos EUA sentiram, até porque a maioria deles votou Bolsonaro, é conservadora e cristã fervorosa, razão pela qual até [o líder religioso evangélico] Silas Malafaia criticou a frase", disse Chacra.

"Todos os chefes de Estado costumam defender com ardor as suas populações emigrantes aqui nos EUA, o governo de Israel é um exemplo claro disso, por isso soou estranho o mandatário brasileiro não o fazer, estranho e perigoso eleitoralmente, uma vez que eles podem ser irregulares nos EUA mas não são no Brasil, onde foram eleitores de Bolsonaro."

Mais tarde, Bolsonaro reconheceu ter-se equivocado na declaração sobre os emigrantes.

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