Não foi para isto que fomos à Lua

Proposta teórica. Analisarmos factos presentes à luz do filtro de uma pergunta: foi para isto que fomos à Lua? Consoante a resposta perceberemos a justeza do que pretendemos analisar. E não vai ser fácil passar pela ótica de um dos maiores feitos da humanidade.

A ida à Lua não foi só excitante para os que a viveram - como mostram as páginas do DN da época que republicamos nesta edição e que estão também disponíveis, na íntegra, online . Foi um grande avanço - do conhecimento e da ciência, é certo. Mas sobretudo da sabedoria dos homens, essa que, na sua essência mais profunda, constitui a humanidade. E talvez fosse mesmo essa a verdadeira aceção da expressão que Neil Armstrong utilizou, de forma atabalhoada, quando pousou o pé no solo lunar. "Um pequeno passo para homem, um grande salto para a humanidade", disse ele, motivando várias teorias sobre por que se terá esquecido do "um" antes de "homem".

Independentemente do que disse "aquele" homem, o que esta empreitada prova é que nenhum consegue fazer nada sozinho. Ou pouco consegue fazer sozinho. Nunca teria sido possível ir à Lua se vários homens (e mulheres) não tivessem sonhado juntos, pensado juntos, planeado juntos. Imaginado juntos - no verdadeiro sentido do termo, "e se?..."

Como dizia o sociólogo William Sims Bainbridge no seu livro A Revolução Espacial, na qual analisa a motivação que levou à missão Apollo 11, esta foi uma "tentativa de alcançar além do mundo da vida mundana e transcender os limites normais da existência humana através da realização de um milagre - a história de engenheiros que tentaram atingir o céu". Há tanto de metafórico como de real nesta frase. Assim como havia tanto de sonho como de realismo na viagem à Lua - que é a forma mais perfeita que os sonhos atingem.

Nunca teria sido possível chegar à Lua se estes homens não tivessem posto em prática conhecimento acumulado, saber - concreto e abstrato - de muitos outros antes deles. Nem se vários políticos, ao contrário do que é habitual, não tivessem agarrado em projetos deixados pelos seus antecessores, dando forma ideológica a um desígnio científico. É preciso não esquecer que a ida à Lua da Apollo 11 foi uma empreitada que custou uns 25 mil milhões - abençoados - de dólares (150 mil milhões a preços de hoje).

Além de ter mudado o rumo da Guerra Fria para sempre, ganhámos com a Lua: o GPS, sistemas de preservação e congelação de comida, comunicações, computadores mais pequenos, satélites de tempo, satélites de TV, sistemas de imagens médicas, termómetros digitais, materiais resistentes ao fogo, óculos de sol, sistemas sem fios, joy sticks, bolas de golfe, os micro-ondas...

Mas o mais importante de tudo foi algo que tem muito mais que ver connosco do que com a Lua. Foi o que aprendemos sobre a Terra. É verdade que descobrimos muito sobre o sistema solar e a origem dos planetas. Mas as fotos que os astronautas tiraram do nosso planeta a partir da superfície lunar mudaram a imagem que tínhamos dele - e levantaram pela primeira vez uma onda de carinho por ele. Como se perto da vista fosse também do coração (independentemente da distância real).

Agora, como remate, eu podia passar pelo filtro de toda esta história, que na base é uma história americana, do presidente atual e das suas invetivas contra um grupo de mulheres que, por serem diferentes, ele acha que não são tão americanas como ele. Podia, mas não o vou fazer. Para não estragar este momento de celebração.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.