Heroísmo

Não é comum a heroicidade, aquele estilhaçamento da última fronteira do medo, o momento em que alguém se torna no que verdadeiramente é.

Não é aqui descabida a palavra "verdade", mais até do que a palavra "coragem", sempre tão associada aos gestos heroicos. Porque o heroísmo é a consequência natural de uma epifania, o derradeiro gesto que antecede uma revelação: é a justa sobreposição entre o ser e o dever ser. E isso é tão mais do que coragem que chega a ser herético resumir o heroísmo a um gesto corajoso, a um destemor.

Provavelmente não estou a ser rigoroso nesta ideia de que a heroicidade é incomum. Talvez ela exista por aí, a circular entre nós como um espírito, protegida dos cínicos e dos céticos. Mas não me cruzo frequentemente com ela, não a pressinto no meu quotidiano.

E por isso me impressiono tanto quando a reconheço, como se me fosse permitido assistir ao começo do mundo, a um milagre, a uma aparição. E não consigo deixar de sentir gratidão, porque os heróis recuperam quase sempre, oferecendo-nos um certo sentido, uma ordem, como se o caos se organizasse e as coisas reocupassem o seu lugar. Há algo de dádiva nisso, de proteção.

Mas é mais do que isso. Poucas coisas me emocionarão tanto quanto esse gesto de superação, e não tenho qualquer vergonha em dizer que me deixo deslumbrar, perder. Há muita literatura sobre isto, sobre a atração pelos heróis, e não penso que valha a pena repetir-me com isso.

Mas talvez valha a pena esclarecer que a heroicidade é um frémito, um fulgor - não uma condição que aproxima os heróis de Deus.

Não me interesso por aqueles heróis que o não percebem, perdidos numa tentação de eternidade, cobrando, fazendo-se passar por. Porque o heroísmo, que neles foi real, esfumou-se sem que se tivesse convertido em coisa alguma.

Mas já me interesso pelo heroísmo saturnino, consciente da sua transitoriedade, quase desapercebido, porque há nele uma capacidade transformadora, que perdura e desconcerta. Não se fica herói para sempre, repito, mas há quem, pelo heroísmo, nos devolva muito do que fomos perdendo pelo caminho. E é por isso que me deslumbro.

Não estaria nestas linhas se não regressasse de um desses deslumbramentos, ainda impressionado, e se não precisasse, reservando a intimidade, de marcar esse momento, de o registar de alguma forma. Ter sabido deste heroísmo por causa de um texto meu, ou à conta de um texto meu, agiganta tudo isto, mas penso que em nada diminui o gesto.

Porque não é comum, começava eu, saber de quem estilhaça a última fronteira do medo e se permite ser, não como uma afirmação ou sequer como um desabafo, mas como testemunho de verdade e amor. Sei que não se usa muito a palavra "amor", mas não encontro outra para descrever quem se revela pela verdade ao outro, superando todos os julgamentos, sem saber ao certo da força - entregando-se.

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