Ar livre. Cinco ideias para as noites de verão

Em todo o país, há concertos, espetáculos de teatro e cinema para ver ao livre. Estas são apenas algumas propostas.

1. O Luto possível após o fogo em Tábua

No início era tudo verdejante. O vale de Gaios e o rio Cavalos eram lugares idílicos e era a partir deles que a Circolando deveria criar o seu trabalho em residência, a convite da Rede Artéria, programação cultural, liderada pel'O Teatrão em oito concelhos da região centro.

Mas depois, a 15 de outubro de 2017, aconteceu o brutal incêndio. O balanço na região no final desse mês era catastrófico: 49 pessoas morreram e cerca de 70 ficaram feridas, 1500 casas e mais de 500 empresas ficaram total ou parcialmente destruídas. Quando André Braga visitou o local, em agosto de 2018, só viu um vale negro. "A paisagem era irreconhecível, viam-se casas e árvores queimadas, como se fossem mortos em pé", recorda o encenador. "O tema do espetáculo deixou de ser o paraíso e passou a ser o inferno." Foi a partir daí que começou o verdadeiro trabalho no terreno: "Fizemos várias visitas, ouvimos histórias, vimos lugares. Falámos com cidadãos comuns, psicólogos, responsáveis de instituições, bombeiros. Também lemos muito." O processo foi muito violento, admite. "Vimos muita gente a chorar. Este acontecimento marcou estas pessoas."

A criação - que envolve dança, vídeo e música - junta os cinco elementos da Circolando e três intérpretes locais: dois jovens de 17 anos, alunos de artes performativas, e uma mulher de 85 anos com uma ligação ao teatro amador.

O Luto de que aqui se fala tem um duplo sentido, avisa o diretor artístico: "Por um lado é a perda - de vidas humanas, de espaços físicos, de paisagem, de memórias. Por outro lado refere-se ao ato de lutar - é a resiliência e a capacidade transformadora que uma tragédia destas traz consigo." O espetáculo explora essa ideia de catástrofe que tudo transforma. Fala do que se perde. Do que fica. E de como, apesar do cheiro a queimado entranhado na pele, se recomeça.

Luto
Espetáculo da companhia Circolando
Hoje e amanhã, 21.30, Casa do Povo de Tábua
Dias 27 e 28 de julho, 21.30, Parque da Cidade, Ourém
Entrada livre (reserva obrigatória)

2. Verão no jardim do senhor Gulbenkian

Palhaços que nos interpelam com os seus narizes vermelhos, DJ que nos dão música para dançar ou para ficarmos simplesmente a relaxar deitados na relva, uma leitura encenada de excertos de algumas das cartas que Calouste Sarkis Gulbenkian (patrono da fundação) enviou ao seu filho, Mikael, enquanto este estudava em Inglaterra - estas são algumas das propostas do programa Jardim de Verão que neste e no próximo fim de semana vai acontecer na Fundação Calouste Gulbenkian.

Durante a tarde, os eventos são cá fora e de entrada livre mas para os concertos à noite, no anfiteatro ao ar livre ou no grande auditório, já é preciso comprar bilhete. É o caso, no próximo sábado, do concerto do fadista Camané, que será acompanhado pelos seus músicos habituais e ainda pela Orquestra Gulbenkian dirigida pelo maestro Rui Pinheiro. Ou, no último domingo, o espetáculo que vai juntar no mesmo palco Lura e Sara Tavares, duas cantoras que nos trazem os ritmos de África. Já nesta noite, oportunidade para descobrir o fado único de Miguel Xavier, músico de 23 anos que apresenta o espetáculo MX, Licença para Cantar.

Jardim de Verão
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Hoje e amanhã e dias 26 e 27
A partir das 14.30
Entrada livre em várias atividades

3. Filmes ao ar livre entre Portugal e Espanha

Será com o filme Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de João Salavisa, que abre a sétima edição do Festival Internacional de Cinema Periferias. Talvez esteja uma daquelas noites de calor, tão habituais no verão alentejano, e o público consiga imaginar-se a andar descalço pelos campos e a mergulhar no rio com a tribo dos krahô, indígenas do norte do Brasil.

Este festival é uma coprodução entre Portugal e Espanha e só apresenta filmes destes dois países e que abordem temas relacionados com o ambiente, os direitos humanos e cultura. Mas o que distingue verdadeiramente este evento é o facto de as sessões decorrerem ao ar livre em vários locais da zona raiana, quer no Alentejo quer na Extremadura. Assim, ao longo de uma semana, haverá sessões de cinema em locais tão inusitados e bonitos como, por exemplo, o Castelo de Marvão, a antiga estação de comboios da Beirã (última paragem em Portugal antes de se entrar em Espanha), uma praça em Castelo de Vide ou uma rua da povoação da Portagem (banhada pelo rio Sever).

No ano passado, o festival mostrou 40 filmes, entre longas e curtas-metragens, e teve 4370 espectadores, além daqueles que acompanharam os debates, concertos e outras atividades paralelas.

A programação deste ano ainda não foi divulgada mas já podemos adiantar que além do filme de João Salavisa também serão exibidos Diamantino, de Gabriel Abrantes, e Debaixo do Céu, de Nicholas Oulman.

Festival Internacional de Cinema Periferias
Vários locais na zona raiana (Alentejo - Castelo de Vide e Marvão e Extremadura - Valencia de Alcántara)
De 10 a 18 de agosto
Bilhetes: 5 euros

4. Jazz entre as casas de pedras nas Aldeias do Xisto

Ouvem-se mugidos de vacas, cães a ladrar, badalos, o vento nas árvores, a água do rio, vozes. Entre 2009 e 2013, o paisagista sonoro Luís Antero andou pelas Aldeias do Xisto a recolher os sons mais característicos de cada lugar, que ficaram registados no trabalho Xisto Sonoro . Agora, com a ajuda de mais músicos e juntando outros instrumentos, vai criar uma performance a partir desses sons, que será o último espetáculo do Xjazz, o festival de jazz que a partir de hoje e durante todo o verão se vai espalhar por estas aldeias no centro do país.

O festival, que vai já na oitava edição, tem trazido às aldeias músicos de jazz, nacionais e estrangeiros, procurando sempre que possível criar encontros e interação com a comunidade, como explica Rui Simão, coordenador da Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto. Este ano, a portuguesa Vânia Couto e a espanhola Maria Villanueva (ambas cantoras e guitarristas) têm estado a fazer recolhas de repertório tradicional e vão agora juntar-se a outros músicos na Barroca (Fundão) a criar o espetáculo que será apresentado a 4 de agosto.

A música, a interação com a comunidade e a ligação à paisagem são os três eixos do programa, como explica Rui Simão: "Os concertos são todos ao ar livre e de entrada gratuita, em locais inusitados, como praias fluviais ou alguns lugares muito ermos."

Xjazz - Festival de Jazz nas Aldeias do Xisto
De hoje a 15 de setembro
Concertos em Fajão (Pampilhosa da Serra), Barroca (Fundão), Gondramaz (Miranda do Corvo) e Cerdeira (Lousã)
Entrada livre

5. Joana Gama e as Sopa de Pedra viajam pela nossa terra

O palco vai estar cheio de mulheres: Joana Gama traz o seu piano, as Sopa de Pedra trazem as vozes e a percussão. O "padrinho deste casamento" foi Luís Ferreira, programador do festival Bons Sons, que as desafiou a interpretarem juntas alguns dos temas de Viagens na Minha Terra, de Fernando Lopes Graça.

Nos anos 1953-54, Lopes Graça decidiu pegar em 19 melodias tradicionais portuguesas e fazer uma adaptação para piano. Essas Viagens na Minha Terra foram o objeto de estudo de Joana Gama quando fez o doutoramento. "Ele não deu informação sobre quais as melodias em que se tinha inspirado mas deu pequenas pistas, por exemplo nos títulos das peças", conta a música. Parte do seu trabalho consistiu em identificar esses temas tradicionais. Nos últimos anos, Joana Gama interpretou ao vivo as Viagens na Minha Terra, mas só com o piano. "O engraçado é que agora, com as Sopa de Pedra, estes temas vão voltar a ter as vozes e a percussão, como por exemplo os adufes, que tinham originalmente. É um regresso à sua origem", conta a pianista, que já conhecia e admirava o trabalho deste grupo de dez mulheres que criam e interpretam a cappella arranjos originais da música popular portuguesa.

O concerto (para já único) acontece a 11 de agosto no Palco Zeca Afonso e é um dos muitos motivos para ir ao Bons Sons.

Festival Bons Sons
8 a 11 de agosto
Aldeia de Cem Soldos
Bilhetes: 22 euros (50 euros - passe para os 4 dias)