Premium Um ator enraivecido numa prisão de Banguecoque

O DN entrevistou Joe Cole, um dos atores do momento em Hollywood, que aqui dá corpo e alma a este campeão que sobreviveu contra tudo e contra todos. Prece ao Nascer do Dia estreia-se hoje

Foi um dos "socos no estômago" do Festival de Cannes. Prece ao Nascer do Dia estreia-se finalmente nos cinemas. Jean-Stéfane Sauvaire conta-nos a história verdadeira de Billy Moore, um inglês que se tornou campeão de thai box, o boxe tailandês praticado nas prisões masculinas. O DN entrevistou Joe Cole, um dos atores do momento em Hollywood, que aqui dá corpo e alma a este campeão que sobreviveu contra tudo e contra todos.

O que se sente naquele momento em que está quase a ficar uma celebridade? Há aquela sensação de se estar a despedir dos últimos dias em que pode ainda andar incógnito nas ruas?

Creio que o truque é ir vendo como vou conseguindo gerir tudo isso, passo a passo. O que para mim é o foco é sempre o trabalho, tentar sempre encontrar projetos interessantes. Quero ser desafiado pelos meus próximos papéis. Sobre isso de ser celebridade, depois vejo como é...

Fisicamente sentimos o contacto entre os atores nas cenas de thai box. Muito do que ali vemos no ecrã nas sequências de combate é sem duplo, certo?

Sim, até ia desmaiando de tanta pancada que levei! Todos os murros que levei são reais! Esse processo de realismo é da responsabilidade do realizador, que preferiu sempre tomadas muito longas. Tudo tem de parecer real, por isso tive de contracenar com campeões de thai box prisional. Quando isso acontece, claro que eles nos atingem... Basicamente, tive de me defender. Aliás, tive de ter uma aprendizagem muito rápida dos elementos defensivos deste desporto. Foi uma aprendizagem à bruta! A primeira vez que fui para o ringue fui literalmente esmagado. Depois disso pensei: tenho mesmo de saber defender-me!

O que vai levar para si, para a sua vida, destas técnicas de boxe que aprendeu?

O lado espiritual do thai box está muito ligado ao budismo. Aprendi que é importante deixar o nosso coração arrefecer, todos os grandes campeões dizem isso mesmo. Treinei muito para este filme. A equipa que estava comigo trabalhava desde as primeiras horas da manhã. Foi um grande desafio e tornámo-nos todos uma família. Foi uma experiência de vida diferente de tudo. Descobri que os grandes campeões desta modalidade têm uma mentalidade diferente. Aprendi também que o espírito humano é colossalmente superior, sobretudo depois de ter convivido com estes atores não profissionais, alguns deles habituados a passar muitos anos na cadeia. Mesmo os campeões tinham histórias particularmente complexas e difíceis. E a lição que tiro de toda esta experiência é que uma pessoa só sobrevive no boxe tailandês se estiver bem com a sua própria pele. Isso aprendi com o próprio Billy, a personagem que interpreto. Ele contou-me que o seu maior inimigo chegou a ser ele próprio. Disse-me que houve alturas em que nem sequer era capaz de se olhar ao espelho. O Billy só se tornou livre quando conseguiu encontrar paz interior.

E, na prática, o que se passa quando realmente se contracena com pessoas que não são atores, que nunca o foram?

Foi simplesmente a melhor experiência que já alguma vez tive na vida. Foi mesmo uma experiência humana para todos nós. Cada um de nós recorria a um processo diferente na construção das personagens. Cada um daqueles lutadores tinha muito para contar, muitas histórias do seu passado. Pessoalmente, foi uma grande alegria poder interagir com estes tipos.

Durante o auge de um combate, o que passa pela cabeça de um lutador?

É algo completamente animal e que passa pela agressão. Tem tudo que ver com conseguires ficar vivo, sobrevivência pura. Foi esse instinto que salvou o Billy. E em todos os combates foi obrigado a combater contra a sua própria pessoa, dentro e fora do ringue.

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