Um desafio para as companhias aéreas: continuar a voar

O impacto ambiental dos transportes aéreos leva companhias e cientistas a terem de encontrar sistemas mais sustentáveis, capazes de competir com soluções mais "verdes", como o caminho-de-ferro. E as vozes dos ativistas, como a sueca Greta Thunberg, são cada vez mais ouvidas.

A recusa da ativista sueca Greta Thunberg em voar para os Estados Unidos é o mais recente exemplo de uma preocupação pelo ambiente que tem vindo a ganhar tração: voar tem custos climáticos que não podem ser esquecidos.

Apesar de nem todos os viajantes poderem usufruir de um barco à vela especial para atravessar o Atlântico, como irá fazer a jovem de 16 anos para participar, em setembro, em duas conferências das Nações Unidas sobre o clima, uma verdadeira consciência ambiental pode, de facto, fazer que cada um de nós pense duas vezes antes de embarcar num avião.

Um sentimento de culpa para o qual os suecos até já inventaram um nome: flygskam, ou vergonha de voar. O que será tudo o que as companhias aéreas não querem. Em resposta, as empresas têm tentado demonstrar os seus esforços para se tornarem "mais verdes".

A low cost Ryanair - que no primeiro trimestre do ano entrou para o décimo lugar no ranking das companhias europeias com mais emissões de CO2 (um top 10 que era exclusivamente ocupado por centrais de queima de carvão) - passou a publicar mensalmente os valores da sua "pegada de carbono". E anuncia ser a primeira da União Europeia a fazê-lo.

Já a KLM, no final de junho, criou a campanha "Voe com responsabilidade", na qual sugere aos seus clientes que... deixem de voar. Num vídeo lançado nas redes sociais (que pode ver em cima), a companhia aérea nacional holandesa pergunta aos potenciais passageiros: "As suas reuniões têm mesmo de ser cara a cara? Não pode ir de comboio?" E conclui: "Todos temos de voar em algumas ocasiões mas, da próxima vez, pense em voar de uma forma responsável."

A companhia foi alvo de críticas no seu próprio país, com alguns políticos a falarem numa simples manobra de marketing, mas o facto de ter sido aprovada é revelador da preocupação dos seus altos responsáveis com o assunto. "Somos uma empresa que precisa de lucros para sobreviver e continuar a investir em soluções sustentáveis. Queremos ainda existir quando tivermos obtido êxito nos nossos esforços de fazer da aviação [uma indústria] sustentável", escreveu a KLM em comunicado após o lançamento da campanha.

Também a portuguesa TAP assume um "compromisso ambiental" com os seus clientes, que se encontra no site oficial da companhia. "Reduzir a pegada, ser mais eficiente, proteger o ambiente", são os três pilares deste plano de ação que passa, em grande parte, pela modernização da frota - seja com a compra de novos e mais eficientes aviões seja com a remodelação dos aparelhos já existentes, designadamente através da instalação de interiores feitos de materiais mais leves, que permitem a redução de consumo de combustível.

Eficiência é a palavra-chave

O facto é que tão cedo não será possível voar com "zero emissões", como hoje se arrogam os automóveis 100% elétricos - alegação que não tem em conta o CO2 libertado na produção do veículo ou da própria eletricidade que o carrega, mas isso é outra discussão.

As baterias são, simplesmente, demasiado pesadas para poderem ser a única fonte de energia de um avião de passageiros. "Seriam precisas muitas décadas de progresso para que [elas] oferecessem o mesmo nível de densidade energética - a relação potência-peso - que têm os combustíveis fósseis. E podemos mesmo nunca chegar a consegui-lo", diz o vice-presidente da consultora Teal Group, Richard Aboulafia, ao jornal online Politico.

"Atualmente, a utilização de combustíveis alternativos [pela aviação] está abaixo de 0,1% a nível global, ou seja, cem vezes menos do que se previa há alguns anos"

Mesmo os mais otimistas planos para a realização de curtos voos regulares elétricos (a Boeing tem protótipos para pequenos "táxis aéreos" deste género) apontam para o final da próxima década, no mínimo.

As companhias também não têm, hoje, qualquer alternativa realisticamente viável ao jet fuel (o querosene). "Atualmente, a utilização de combustíveis alternativos [pela aviação] está abaixo de 0,1% a nível global, ou seja, cem vezes menos do que se previa há alguns anos", afirmou ao Politico Dan Rutherford, líder do departamento de aviação do Conselho Internacional para Transportes Limpos, organização sediada em São Francisco.

À indústria resta, nesta fase, encontrar soluções tecnológicas que reduzam consumos. Um exemplo: os aviões comerciais novos têm quase todos a ponta das asas "dobradas" para cima, os winglets, cuja função é reduzir o rasto do aparelho na atmosfera. Segundo a NASA, o efeito aerodinâmico assim conseguido pode melhorar a prestação do aparelho até 15% e reduzir o consumo em 6%.

Os materiais utilizados também estão a evoluir, com os laboratórios a inventarem novas formas de combinar fibra de carbono ou a criarem partes recorrendo à tecnologia de impressão 3D, por exemplo. Neste último caso, a consultora Cision estima que o mercado de peças assim produzidas para a indústria aeroespacial deverá ter uma taxa de crescimento anual de 55,85% no próximo ano.

O desenho dos aparelhos também poderá mudar, nas próximas décadas. Os formatos de "asa voadora" - em que o corpo do aparelho se desenvolve de forma fluida para as asas, formando um V - revelam-se muito eficientes (segundo os testes da NASA, conseguem reduzir o consumo de combustível em 27%). A KLM revelou em junho o projeto Flying-V em que os passageiros são transportados, literalmente, dentro das asas.

Políticos à mistura

Ao mesmo tempo, governos, reguladores e órgãos supranacionais testam as águas relativamente a medidas possíveis para reduzir a quantidade de voos. Em março, uma proposta holandesa para criação de uma taxa sobre a aviação no âmbito da União Europeia obteve o apoio da Bélgica, com o governo francês a dar sinais de que está recetivo à ideia.

A eficácia deste tipo de medidas é, no entanto, discutível. E todos os indicadores disponíveis no momento não mostram sinais de abrandamento do negócio. Na União Europeia, o tráfego aéreo cresceu 3% em 2018, e neste ano (nos primeiros sete meses) aumentou 2%.

Fazer que estes números sejam conciliáveis com uma atividade ambientalmente sustentável é sem dúvida o maior desafio que a aviação comercial hoje enfrenta.

Artigo publicado originalmente no suplemento 1864 do DN de 17 agosto.

Exclusivos

Premium

Legionela

Maioria das vítimas quer "alguma justiça" e indemnização do Estado

Cinco anos depois do surto de legionela que matou 12 pessoas e infetou mais de 400, em Vila Franca de Xira, a maioria das vítimas reclama por indemnização. "Queremos que se faça alguma justiça, porque nunca será completa", defende a associação das vítimas, no dia em que começa a fase de instrução do processo, no tribunal de Loures, que contempla apenas 73 casos.