Premium Oito protagonistas de oito anos de resgates

A Grécia regressa aos mercados internacionais nesta segunda-feira, dia 20 de agosto, depois de mais de oito anos sob programas de assistência financeira internacional da chamada troika.

Mais de oito anos depois de ter pedido o primeiro resgate financeiro internacional à troika, a Grécia regressa nesta segunda-feira, dia 20 de agosto, aos mercados.

Neste período, os partidos tradicionais afundaram-se, o Syriza de Alexis Tsipras chegou ao poder, onde ainda se mantém, embora numa coligação cada vez mais frágil com os Gregos Independentes de Panos Kammenos.

A esquerda radical, unida contra a troika, após os dois primeiros resgates, dividiu-se a seguir ao terceiro. Hoje, antigos aliados de Tsipras, como a ex-presidente do Parlamento Zoe Konstantopoulou, acusam-no de traição.

Apesar de ter sido considerada apta para regressar aos mercados, a Grécia tem hoje uma dívida de 185% do PIB, as pensões sofreram cortes 14 vezes, a economia caiu 25%, o desemprego permanece acima dos 20% e 35,5% da população vive em situação de exclusão social.

Ao longo destes oito anos, em cima da crise financeira, veio juntar-se a crise dos refugiados e migrantes e, em julho deste ano, a tragédia dos incêndios.

O balanço destes oito anos de resgates na Grécia contados através da história de oito figuras-chave do país.

Papandreou e o eclipse do Pasok

George Papandreou ficou para a história como primeiro-ministro grego que assinou o primeiro pedido de resgate à troika em abril de 2010. A assistência financeira do FMI, BCE e União Europeia começou com 110 mil milhões de euros. Um ano depois, em junho de 2011, começou a falar-se da necessidade de um segundo resgate para a Grécia no valor de 120 mil milhões de euros. Papandreou demitiu-se em novembro desse ano e o pedido do segundo pacote de ajuda foi assinado por Lucas Papademos, que se manteve no poder até maio de 2012. Altura em que houve eleições. Repetidas seis semanas mais tarde por falta de vencedor claro e de uma solução de governo. O Pasok de Papandreou passou de um dos principais partidos da Grécia, com 43,9% dos votos nas legislativas de 2009, para uma formação insignificante. Nas eleições de setembro de 2015, as últimas, teve 6,3%, estando agora integrado no Movimento para a Mudança. Em entrevista ao DN em novembro, na Web Summit, Papandreou, de 66 anos, disse sobre 2019: "Penso voltar ao Parlamento, mas não quero ser líder."

Varoufakis e a saída falhada do resgate

Yanis Varoufakis protagonizou alguns dos embates mais duros dos últimos anos com os restantes líderes da zona euro. Acreditava que a Grécia poderia sair da moeda única da UE se não obtivesse melhores condições de financiamento e, para prová-lo, estava disposto a levar tudo à frente. De mochila às costas, capacete na cabeça ou no braço, aquele que entre janeiro e julho de 2015 foi o rebelde ministro das Finanças da Grécia demitiu-se depois do referendo realizado naquele verão sobre as condições de um terceiro resgate financeiro. "Pouco depois do anúncio do resultado do referendo, fui confrontado com uma certa preferência de alguns membros do Eurogrupo, e demais parceiros, pela minha... 'ausência' das suas reuniões; uma ideia que o primeiro-ministro julgou ser potencialmente importante para que ele consiga chegar a um acordo. Por essa razão, deixo de ser ministro das Finanças, hoje mesmo", escreveu no Twitter, a 6 de julho de 2015. Hoje em dia, Varoufakis, de 57 anos, lidera o Movimento Democracia na Europa 2025. Nas Finanças deu lugar a Euclides Tsakalotos.

Tsipras e o terceiro resgate

Alexis Tsipras fez furor em todo o mundo com as suas promessas de rutura: expulsar a troika de Atenas e até mesmo sair da zona euro eram apenas algumas delas. Nos comícios do Syriza cantavam-se músicas revolucionárias, como a agora tão em voga Bella Ciao por causa d'A Casa de Papel. Mas não demorou muito a ceder. O Syriza venceu efetivamente as eleições de janeiro de 2015, tendo formado coligação com os Gregos Independentes. O verão desse ano foi quente. Começou a falar-se de um terceiro resgate da troika no valor de 86 mil milhões de euros. Tsipras fez um referendo. Houve controlo de capitais. Pressão. Novas eleições, em setembro desse ano, que o Syriza venceu, renovando a aliança com o mesmo parceiro. Tsipras acabou mesmo a pedir um terceiro resgate, sendo criticado por aliados que romperam com ele. A juntar à crise financeira, somou-se a dos refugiados e mais recentemente, no final de julho, a tragédia dos incêndios que mataram 95 pessoas. Choveram críticas, descontentamento e houve quem questionasse se Tsipras, de 44 anos, se aguentará até 2019.

Samaras e a crise do presidente

Antonis Samaras liderou um governo de coligação entre a sua Nova Democracia, o Pasok e o Dimar entre junho de 2012 e janeiro de 2015. Ao tomar posse prometeu honrar os compromissos que tinham sido assumidos com os credores internacionais no âmbito dos dois resgates que a Grécia pedira até então à troika. Um mês após chegar à chefia do governo grego, o presidente do BCE, o italiano Mario Draghi, prometeu tudo fazer para salvar o euro. E assim foi. Samaras, hoje com 67 anos, acabaria por se demitir de primeiro-ministro depois de ver rejeitada, em três votações, a sua proposta para presidente da Grécia. Samaras apresentou o ex-comissário europeu Stavros Dimas, saído do seu partido Nova Democracia, mas falhou a aprovação da maioria dos deputados. Realizaram-se eleições a 25 de janeiro de 2015, conforme manda a Constituição grega. Hoje em dia, o líder da Nova Democracia chama-se Kyriakos Mitsotakis e o partido oscila nas sondagens entre o primeiro e o segundo lugar, rivalizando com o Syriza, do atual primeiro-ministro Alexis Tsipras.

Tsochatzopoulos e o caso dos submarinos

Akis Tsochatzopoulos foi ministro da Defesa de vários governos do Pasok entre 1996 e 2001. Preso em 2012, foi condenado, em 2013, a 20 anos de prisão por branqueamento de seis milhões de euros de subornos obtidos durante a compra de veículos blindados, quatro submarinos e mísseis antiaéreos. Mesmo em frente à Acrópole de Atenas, no n.º 33 da Aeropagitou ficava a vivenda de um milhão de euros do ex-governante. Os media classificaram-na na altura como "Parthénon da corrupção". Tsochatzopoulos viu o tribunal reduzir-lhe a pena no ano passado, mas só num ano, passando para 19. Em novembro de 2017 a justiça mandou confiscar todas as suas propriedades e contas bancárias. Apesar de tudo, por razões de saúde, no início de julho deste ano o ex-ministro foi posto em liberdade. O mesmo sucedeu com a sua mulher, Viki Stamati, outrora uma das principais socialites gregas. Akis Tsochatzopoulos, hoje com 79 anos, ficou para a história como o rosto da corrupção que durante anos minou a Grécia e, em grande parte, contribuiu para o estado a que as coisas chegaram.

Konstantopoulou e o sabor da traição

Zoe Konstantopoulou foi eleita presidente do Parlamento Europeu em 2015 depois de o Syriza vencer as eleições de janeiro desse ano. Era das maiores aliadas de Alexis Tsipras. Até ao dia em que ele decidiu ignorar o resultado do referendo sobre as condições de um terceiro resgate da troika, realizado a 5 de julho de 2015, quando 61,31% dos eleitores disseram "não" e 38,69% responderam "sim". Hoje líder do partido Caminho para a Liberdade, que fundou em 2016, a advogada, de 41 anos, disse em entrevista ao DN, a 26 de julho, que "Alexis Tsipras é um traidor do povo grego". A propósito dos incêndios, indicou que o seu partido iria processar o governo grego pelo desinvestimento, pela ausência de plano de evacuação das zonas dos fogos. Só na Proteção Civil grega a austeridade obrigou a cortes de 34 mil milhões de euros. Neste dia 20 de agosto, frisou, "não há nada para celebrar". A dívida do país situa-se nos 185% do PIB, as pensões sofreram cortes 14 vezes, a economia caiu 25%, o desemprego permanece acima dos 20% e 35,5% da população vive em situação de exclusão social.

Kammenos e a questão macedónia

Panos Kammenos é ministro da Defesa da Grécia desde o início de 2015. Líder do partido nacionalista de direita Gregos Independentes, tem governado os destinos do país numa coligação improvável com os radicais de esquerda do Syriza de Tsipras. A uni-los, aparentemente, inicialmente, estava a atitude crítica face à UE. Ao longo do tempo não tem levantado grandes ondas. Nem sequer sobre os resgates. Até agora. Desde inícios de julho, ainda antes de acontecerem os incêndios, Panos Kammenos, de 52 anos, vem ameaçando retirar o apoio do governo se o acordo de atribuição do nome Macedónia à Antiga República Jugoslava for levado a votação no Parlamento. O líder nacionalista só aceita que seja avaliado através de referendo ou mesmo de eleições na Grécia. "Não permitirei que o acordo vá para a frente", disse, numa altura em que se prevê a votação em setembro. Atenas e Skopje acordaram, após 25 anos de discórdia, porque a Grécia tem uma província chamada Macedónia, que a Antiga República Jugoslava se passe a chamar República da Macedónia do Norte.

Georgiou e as estatísticas honestas

Andreas Georgiou liderou o organismo de estatísticas Elstat, uma espécie de INE da Grécia, entre agosto de 2010 e agosto de 2015, quando se demitiu de forma surpreendente e imediata. Antes de regressar à Grécia trabalhara 21 anos para o FMI. Hoje está acusado de ter servido os interesses do FMI, numa série de decisões judiciais acompanhadas de perto pela Comissão Europeia, economistas e estatísticos de todo o mundo. Em agosto do ano passado, já depois de ilibado, Georgiou, de 58 anos, foi condenado por um tribunal de recurso grego a dois anos de prisão com pena suspensa. Um procurador decidiu reabrir o caso acusando-o de ter inflacionado o défice de 2009 da Grécia na revisão que fez e de ter comunicado essa revisão diretamente ao Eurostat sem informar previamente o board do Elstat. Dos 12,5% do PIB o défice de 2009 passou a 15,4%, segundo as regras comunitárias. A condenação tem gerado uma vaga de críticas: "Ao condenar um estatístico honesto, a Grécia condena-se a si mesma," escreveu Megan Greene, economista-chefe no Manulife Asset Management, no Politico.

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