Retrato de Mónica em tempo de Páscoa

Um dos contos da minha vida, a que regresso todas as Páscoas, é o Retrato de Mónica, um dos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Porque há nesta época, para quem acredita e a experimenta, uma vocação exemplar, uma provocação, a de Cristo ressuscitado, que nos obriga a uma reflexão que vai muito para além da alegria. Alegria, sim, claro, mas muito mais do que isso: um desafio interior, um convite ao recomeço, à reconciliação: um percurso duro, longo, interior, onde o exemplo - esse grandioso exemplo da deslumbrante ressurreição, sem vingança ou condenação e apenas amor - é a luz essencial, a chama, sem a qual não conseguiremos caminhar.

E há nos Contos Exemplares uma predisposição luminosa, como um auxiliar na reflexão desafiada por esta época singular. Não admira, por isso, que o bispo Dom António Ferreira Gomes, o exilado bispo do Porto, também ele exemplar num tempo tão carecido de exemplos, tenha escrito, no prefácio aos Contos, que há neles mais conteúdo cristão do que nos escritos de Cervantes ou de Camões.

E é no Retrato de Mónica que me encontro, talvez porque haja nele uma provocação política, o desnudamento de uma blandícia calculada, coagida, capaz de pasmar os grandes deste mundo, a imagem da perfeição sem distrações, mas sem qualquer desejo ou fome de santidade, apenas a determinação de fazer o que se espera de.

Não é de hipocrisia que nos fala o Conto. Corrijo, com vigor: não é de hipocrisia que o Conto me fala. Porque há na hipocrisia uma escolha, uma deliberação, e isso facilita a desqualificação de Mónica, uma desqualificação que mereceria o acordo das Mónicas deste mundo.

O Conto fala-me antes de algo ainda mais humano, e tantas vezes menos racional, deliberado: a mobilização feroz de todos os nossos recursos para caber num molde, numa forma; uma mobilização tão devota, até altruísta, que consome o amor e a santidade.

Será fácil ver Mónica como hipócrita, abandonando-a numa caricatura; mas Mónica é muito mais do que isso, e disso há cada vez mais: a funcionalização do amor ao molde, que se antecede e agiganta perante ele, codificando o que é humano, unificando o que é maravilhosamente diverso.

A Mónica que eu leio não é fingida, mentirosa. É uma devota da forma e da lei, e é por elas que tenta chegar ao bem, impondo-o exemplarmente, como se o amor devesse ser resultado de moldes ou coação e não de liberdade.

Daí que essa devoção constitua, como provoca Sophia, uma renúncia à poesia, ao amor e à santidade. "A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."

E é a esta noção de diário recomeço que regresso a cada Páscoa.

Advogado

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