Mindfulness e camionismo

Temos todos de agradecer aos motoristas de coisas perigosas terem-nos recentrado em coisas importantes. Dados adquiridos, cartas contadas, pássaros na mão. Uma delas é terem-nos feito ver a dependência do petróleo, a carbonização das nossas vidas. Claro que sabemos, lemos e por isso não ignoramos que uma laranja tem 70% ou assim de petróleo, no transporte, nos pesticidas, na energia que tornou aquela terra fértil, nas luzes da loja, no plástico da embalagem. Mas não vemos da melhor forma de ver que é a que magoa os olhos. E isso é muito positivo, pelos dois lados, quer porque demonstra aos que acreditam que é já hoje possível uma vida descarbonizada que não sabem do que falam, como a todos os que realmente querem fazer algo, o muito que falta por fazer, e o importante que é andar mais rapidamente na mobilidade elétrica e micromobilidade, na logística urbana não dependente de petróleo e nas formas alternativas de produção.

Mas a greve dos senhores das cisternas foi também boa num plano mais espiritual. Enquanto nos vazavam os depósitos encheram-nos a alma obrigando-nos a pensar em coisas em que não pensávamos. Como vou de A para B e de B para C e depois regresso a A, quantos quilómetros tens, que bombas há. E nisto sentir na pele o ardor da carência, perceber por algumas horas os que têm todos os dias de pensar no pouco que têm. Refletir sobre a presença, sobre a abundância. E reintroduzir em vidas previsíveis o incerto e o perigo. Como por exemplo saber se quando este comboio que tive de tomar chegar à estação em Coimbra vai haver táxis para me levar para o ponto B, ou se ficarei, literalmente, apeado.

Mas tudo se vai resolver, porque o motorista do uber disse que o Marcelo já tinha dito como é que era. Como é que é, então, perguntei. É simples, as pessoas têm de ter gasolina para ir à terra na Páscoa, ele já disse, e portanto isto vai estar tudo resolvido a tempo. Se ele não manda, quem é que manda?

Mas como ainda não está resolvido, o texto fica mais curto, poupa-se também em caracteres.

(Artigo escrito antes do acordo entre sindicato e patrões)

Advogado

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