A Europa, da gasolina lusa ao palhaço ucraniano

Estamos assim, perdidos algures entre as urnas eleitorais e o comando da televisão. As urnas estão mortas e o nosso comando não é nenhum. Mas, ao menos, em advogado de Maserati que conduz sindicalistas podíamos não ver matéria de gente rija como cornos. Matéria perigosa, sim. Em Portugal como mais a leste. Segue o relato longínquo para vermos perto.

Ontem, defrontaram-se os dois candidatos a presidir a Ucrânia. Não é assunto irrelevante apesar de vivermos no outro extremo da Europa. Afinal, num canto ainda mais a leste daquele país há uma guerra civil meio instigada pelos russos - e hoje sabemos, como não sabíamos ainda há pouco, que as guerras de anteontem podem voltar.

Ora, o debate dos dois candidatos foi convocado como um combate de boxe, para o estádio olímpico de Kiev, perante milhares de espectadores e transmitido para todo o país. Amanhã, domingo, será dia de eleições.

Repito, é assunto importante. Ontem, no estádio olímpico, podia apresentar-se o debate assim, como um combate de boxe: "Algures, o presidente da Ucrânia Petro Porochenko, que acaba o atual mandato e, algures, o presidente da Ucrânia Vladimir Zelenski, que leva já três temporadas"...

Como devem ter reparado, eu não disse "à minha esquerda..." e "à minha direita..." - como os árbitros apresentavam antigamente os combates no Madison Square Garden - mas coloquei ambos em "algures", que é o mais exato a dizer do lugar que ocupa um político moderno. Em qualquer lado, quanto mais na Ucrânia.

Também repararam que falei do presidente da Ucrânia Porochenko e do presidente da Ucrânia Zelenski. Pois. Ambos são "presidente da Ucrânia". Candidatos a próximo presidente da Ucrânia são o atual presidente, eleito em 2014, o milionário da indústria de chocolate Petro Porochenko, de 44 anos; e o atual presidente Vladimir Zelenski, de 41, que desde 2015, na série de televisão Servo do Povo, faz o papel de... já adivinharam, de presidente da Ucrânia.

Numa crónica curta não vou poder continuar a distribuir tempos de antena iguais pelos dois candidatos, vou restringir-me a um. E entre o que foi ministro dos Negócios Estrangeiros e do Comércio e já foi algumas vezes eleito, entre esse e o cómico, escolho o mais adequado aos atuais costumes políticos. O palhaço, pois. Aliás, Zelenski é quem deve ganhar amanhã, segundo as sondagens; e, ontem, foi ele que escolheu o debate num estádio olímpico.

Como, há dias, fez que ambos fizessem uma pública e filmada análise de sangue, para saber se estavam limpos de droga e de álcool. Estavam limpos, o que era de esperar, já que ambos aceitaram. Mas o importante foi sublinhar que as regras da campanha eram determinadas pelo palhaço: de programa político, nada; de efeitos especiais, o mais possível...

Zelenski era um comediante e já popular quando foi aliciado para a série Servo do Povo . Enredo: um professor do liceu, na aula, fala contra a corrupção, um aluno filma-o, posta na internet, torna-se viral. O professor salta para a política e é eleito presidente da Ucrânia. Isso na vida real da ficção.

Grande sucesso, chega à Netflix, grava-se a terceira temporada e ficciona-se a vida real: Vladimir Zelenski é aliciado para fundar um partido - a que se chama, claro, Servo do Povo - e concorre a presidente, como se contou nas linhas precedentes.

A campanha foi feita sem comícios e sem programa: "Se não há promessas, não há desilusão", diz o comediante com a velha piada de político, "com a verdade me enganas". Um milionário exilado por corrupção, Igor Kolomoisky, dono da estação televisiva 1+1, começou a exibir a terceira temporada da série Servo do Povo durante a campanha eleitoral. Estamos assim.

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