A guerra pela alma da Europa

O incêndio em Notre-Dame pareceu a muitos um presságio, um aviso. Faz sentido: há quem, alegadamente para a defender, queira pôr a Europa a arder. Bannon, o ex ideólogo de Trump, já alugou um mosteiro em Itália para treinar os novos cruzados. Mas a maior vitória dos nacionalistas, o Brexit, pode resultar como melhor antídoto.

Uma catedral quase milenar, carregada de simbologia histórica e literária, a arder no centro de Paris é uma imagem poderosa, lancinante. Com leituras muito distintas consoante o lugar onde se está. Há a leitura identitária nacionalista, fundamentalista cristã/católica e tremendista, que vê ali o sinal da decadência de uma nação e de uma "cristandade" assaltada pelos bárbaros imigrantes, e a leitura identitária europeísta e universalista, que projeta nas chamas o martírio dos valores humanistas, sob assalto de outros bárbaros - os da extrema-direita fascista, nostálgica dos cânticos nazis de "sangue e terra", dos progroms e das limpezas étnicas.

Adensa o sentimento de presságio que o incêndio ocorra a poucas semanas de umas eleições europeias encaradas como decisivas para definir o rumo do continente e quando são notícia, quer a carta do ex papa Bento XVI a imputar todos os males à luta civilizacional contra o preconceito e a discriminação e aos "progressistas" do Concílio Vaticano II quer o anúncio de que Steve Bannon, o ex-ideólogo de Trump, quer criar um campo de treino para "cruzados" num mosteiro italiano.

Para quem como eu viu naquelas chamas um simbólico toque a rebate para a união na luta contra as forças nacionalistas e fascistas, o quadro que na quinta-feira foi partilhado no Twitter, mostrando que em dez dos 14 estados europeus incluídos num inquérito a maioria considera o "radicalismo islâmico" como a maior ameaça à Europa, à frente da crise económica, da ascensão dos nacionalismos e das alterações climáticas, veio sublinhar a urgência.

Ao ler o estudo em que se integra, porém, percebi que a leitura negra que aquele quadro propicia não é assim tão evidente. Com o título "O que os europeus realmente querem: cinco mitos desconstruídos", e publicado neste mês pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, um think tank fundado em 2007 com o objetivo de conduzir investigação sobre matérias relacionadas com relações entre Estados e segurança, permite, de acordo com os autores, contradizer a ideia mediaticamente imposta de que as europeias vão ser "um referendo à imigração". Há mesmo uma descoberta espantosa: em vários países, a principal preocupação com a migração é com os que saem, não com os que entram. A ponto de haver em alguns Estados apoio muito expressivo à ideia de proibir a emigração.

É verdade, escrevem os autores, que na última década se assistiu a um estilhaçar dos sistemas partidários na União Europeia, com partidos ditos "antissistema" a ganhar terreno; que há neste momento nove países com governos que incluem partidos anti-Europa. E que se estima que após as europeias pelo menos um terço dos eurodeputados sejam desses partidos; em formando um bloco único, poderão ser o maior do PE. Nada disto é risonho para quem está, como eu, do lado oposto.

Quanto mais os eleitores desconfiam dos governos nacionais mais veem a UE como uma salvaguarda, conclui-se do inquérito. O nacionalismo populista, autoritário e anti-europeu de Orban transformou os húngaros em pró-europeístas convictos, com 60% a considerar ser europeu tão importante como ser húngaro.

Mas um dos quadros do estudo (que infelizmente não inclui Portugal) faz uma pergunta cuja resposta modera o pessimismo: "Ser europeu é tão importante para si como a sua nacionalidade?" Só em quatro dos países - França (por pouco), Suécia, Holanda e Dinamarca - a resposta é negativa. Nos outros dez, espantosamente (ou não) com a Hungria à cabeça, a maioria diz sim. A conclusão dos investigadores é de que quanto mais os eleitores desconfiam dos governos nacionais mais veem a UE como uma salvaguarda. O nacionalismo populista, autoritário e antieuropeu de Orbán transformou os húngaros em pró-europeístas convictos, com 60% a considerar ser europeu tão importante como ser húngaro.

E se o radicalismo islâmico aflige tantos europeus, não está necessariamente - como poderíamos pensar -- ligado à migração. Até porque, diz o estudo, "mesmo entre aqueles que têm a migração como principal preocupação há motivos totalmente diferentes". Em alguns países, como já referi, estão a pensar em emigração e não em imigração: "As maiorias na Grécia, Itália, Espanha, Hungria, Polónia e Roménia estão muito mais preocupadas com a saída de nacionais"; há inclusive apoio para restrições à emigração (algo que definitivamente contraria a noção de uma Europa sem fronteiras e traz de volta a sombra do muro de Berlim).

Não, não é tudo bom, pelo contrário. Estas informações são agridoces. Mas confundem as análises prévias e dão-nos pistas importantes. Uma delas é de que o espetáculo caótico do Brexit e a demonstração de que quem o defendeu não tinha qualquer ideia do que ele significava, quanto mais um plano, só ódio, demagogia e oportunismo, pode ter tido um efeito de vacina na generalidade dos Estados da UE. "Os eleitores", diz o estudo, "já não tomam a UE por garantida."

Outra é que se as preocupações radicalismo islâmico e migração estão no topo das dos inquiridos, entre os que estão inclinados a votar nas europeias a ameaça do nacionalismo surge como especialmente importante. A explicação para isto pode ser a mobilização que resulta, acreditam os investigadores, por reação ao esforço de agregação da extrema-direita populista. "Orbán e Salvini estão a tentar construir uma aliança pan-europeia populista que casa a posição antiausteridade com a anti-imigração, tentando criar uma alternativa poderosa às forças moderadas 'do sistema'. Querem capturar as instituições europeias para reverter a integração europeia de dentro. O seu sonho é refundar a Europa com base em valores antiliberais."

Estas podem ser as primeiras eleições verdadeiramente europeias, consideram os analistas. E entre os inquiridos "parar a extrema-direita" é a segunda escolha no que consideram ser "bons resultados" da votação, logo após a opção nhonhó de "um debate vivo".

Conclusão? Estas podem ser as primeiras eleições verdadeiramente europeias, consideram os analistas. E entre os inquiridos "parar a extrema-direita" é a segunda escolha no que consideram ser "bons resultados" da votação, logo após a opção nhonhó de "um debate vivo".

Se vai correr bem (bem no sentido de parar as forças do mal - como eu e quem faz a análise as vemos, naturalmente) depende, claro, da capacidade dos partidos "do sistema" de serem capazes de interpretar os anseios de uma massa de eleitores que pensa e se move para lá das velhas lealdades partidárias e quer respostas e práticas que não repitam velhos chavões. Enquanto há luta há esperança, enquanto há esperança há luta. Não passarão.

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