Israel. A árdua tarefa de encontrar um governo

Oposição centrista elege mais um deputado do que o partido de Netanyahu. A chave para a formação de um executivo pode estar em Avigdor Lieberman, um nacionalista que quer um país sem a influência dos rabinos.

Se durante a campanha para as eleições legislativas de terça-feira Benjamin Netanyahu encheu as ruas de cartazes com fotografias suas e de Donald Trump, Avigdor Lieberman inspirou-se na frase de campanha do norte-americano para os seus: "Tornar Israel normal outra vez." O conceito de normalidade é a questão. Para este homem nascido na União Soviética a ida às urnas revestia-se de grande importância para rechaçar a crescente influência religiosa no Estado.

Lieberman ganhou a aposta. Israel Beiteinou, o seu partido, nacionalista e secularista, passa de cinco deputados para nove nos 120 assentos do Knesset, o Parlamento israelita. A sua mensagem terá caído bem junto do eleitorado laico, em especial de judeus provenientes da Cortina de Ferro.

E agora tem a chave na mão para abrir - ou fechar - a porta a um governo de coligação. As suas condições são claras: deixar de fora os partidos religiosos e árabes do governo, e legislar no sentido de tornar o Estado mais laico. "Um governo de unidade nacional, um amplo governo liberal. Nós não nos juntaremos a outra opção", disse na quarta-feira, ao saber dos resultados que dão 32 lugares para a coligação Azul e Branca (centrista e liberal), liderada por Benny Gantz e por Yair Lapid, e 31 lugares para o Likud de Benjamin Netanyahu.

O sistema proporcional em Israel e a disseminação de partidos tornou até hoje impossível a obtenção de uma maioria por parte de um só partido. No Knesset vão sentar-se nove partidos e coligações (e mais não entram porque há um mínimo de 3,25% de votos). Para formar governos, Netanyahu não teve qualquer problema em recorrer quer a partidos centristas e liberais quer a partidos religiosos, tanto no seu primeiro governo, entre 1996 e 1999, como nos últimos dez anos.

Influência religiosa

Uma das consequências desses pactos é a influência dos ultraortodoxos. No ano passado, o Parlamento aprovou uma lei que consagra Israel como nação judaica, quando cerca de 20% da população não é judaica. Também no ano passado foi aprovada a chamada lei dos minimercados, a qual limita a abertura de lojas ao sábado à aprovação por parte do ministro do Interior. Os proprietários dos estabelecimentos que abrem ao sábado pagam multas por parte das autoridades municipais.

Essa lei, aprovada com 58 votos favoráveis e 57 contra, é uma que terá de ser revertida caso se concretize o cenário do governo de unidade nacional. "É claro que não cederemos na revogação da lei dos minimercados, não cederemos nos transportes públicos no sábado, nem no casamento civil", disse. Lieberman, referindo-se à ausência de transportes públicos no dia em que os judeus não trabalham e também à ausência de matrimónio civil - é a única democracia que não o permite.

"Uma pré-condição para a nossa entrada no governo também são os estudos curriculares básicos no sistema educacional ultraortodoxo", concluiu. Esta proposta, bem como a de obrigar os estudantes ultraortodoxos a prestar serviço militar obrigatório, são o pomo de discórdia entre laicos e religiosos.

Numa ação de campanha do partido Shas, que fez parte da coligação com o Likud, o rabino Shalom Cohen afirmou: "Querem tornar esta terra secular. Isto é uma afronta a Deus. Deus abandonará este país e partirá. Esta não será a terra de Israel. Será a terra de Ismael" e, em lágrimas, prometeu que quem votasse no Shas iria para o céu, conta o Jerusalem Post.

É Lieberman quem tem a chave para a formação do futuro executivo, mas disse que é o presidente Reuven Rivlin o homem do momento. "Ele tem de desempenhar um papel muito mais ativo do que nas últimas eleições", afirmou. Nas eleições de abril, Likud e coligação Azul e Branca empataram no número de deputados eleitos, 35, e Netanyahu não conseguiu reunir apoios para formar um governo.

Lieberman aponta para um executivo formado pelo partido que criou quando saiu do Likud, além deste, e da Azul e Branca. O líder do Israel Beiteinou saiu do governo no ano passado, em protesto pela "fraca" resposta israelita ao ataque de rockets oriundos de Gaza. No entanto, e apesar de já ter chamado a Netanyahu "mentiroso, vigarista e canalha", não exclui a hipótese de voltar a trabalhar com ele.

Netanyahu agita o fantasma árabe

O primeiro-ministro em funções não parece estar em condições de fazer exigências. Ficou em segundo lugar e não consegue obter uma maioria com os partidos religiosos. No entanto, o discurso do "rei Bibi" parece ser o de quem tem o poder de se manter no poder. "Só há duas opções: um governo chefiado por mim ou um governo perigoso com partidos árabes antissionistas. Mais do que nunca, com os desafios diplomáticos e de segurança que enfrentamos, devemos fazer tudo o que é possível para evitar que tal governo possa formar-se."

Essa hipótese, porém, parece afastada por parte da coligação vencedora. O ex-primeiro-ministro Ehud Olmert anunciou na TV que "Netanyahu não vai voltar a ser primeiro-ministro", "nem num pacto de rotatividade nem noutra forma". Para Olmert, o povo de Israel disse "chega". "O Estado de Israel está a começar a caminhar noutra direção."

Olmert também não afastou a possibilidade de haver novas eleições em breve.

Por sua vez, o líder da Azul e Branca, o antigo general do exército Benny Gantz, ​​​​​disse que está aberto a formar uma aliança com o Likud, mas não se for liderado por Netanyahu. Durante a campanha, Gantz criticou Netanyahu devido às suspeitas de corrupção. Netanyahu, que nega ter cometido irregularidades, foi convocado para uma audiência preliminar no próximo mês. Espera-se que defenda o arquivamento das acusações alegando o interesse nacional.

A aprovação de uma lei que lhe confira imunidade se se mantiver em funções é outro motivo pelo qual os seus críticos acreditam que esse é o motivo fundamental para o seu interesse em permanecer no poder.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG