O ovo na legalidade 

Quem nos indemnizará pelos ovos - fritos, cozidos, estrelados - que deixámos de comer nos últimos 40 anos?

É a mais completa reabilitação de um suposto criminoso na história da humanidade. O ovo - o querido ovo, o fruto da galinha (às vezes, com a participação do galo como astro convidado), objeto cujo design é uma obra-prima de projeto, forma e acabamento - volta ao círculo social depois de décadas sendo considerado o inimigo público número um.

Durante quase toda a segunda metade do século XX e começo do XXI, médicos e cientistas concentraram-se numa campanha de difamação contra o ovo, acusando-o de crimes contra o coração e responsabilizando-o pela elevação dos níveis de colesterol a números de básquete americano - sempre acima de cem. Quem fosse cardíaco, nem chegasse perto; quem não fosse, idem, para se prevenir. Um ovo era quase uma granada - quebrá-lo numa tigela equivalia a tirar o pino do artefacto e vê-lo explodir em nossas mãos. E tanto fazia fritá-lo em gordura quente como cozinhá-lo em água fervente - o seu veneno estava naquela combinação mortífera de clara, gema e, talvez, um terceiro componente secreto. À humilde galinha, só restava submeter-se ao holocausto reservado à sua espécie e, a seu produto, o opróbrio.

Pois, de algum tempo para cá, depois de investigações mais profundas, esses mesmos médicos e cientistas começaram a emitir sinais de que talvez tivessem sido injustos. Aparentemente, novas análises das propriedades do ovo em contraste com as reações provocadas por eles em organismos saudáveis geraram resultados surpreendentes. E saiu o relatório, espero que definitivo, da Universidade de Surrey, na Inglaterra, segundo o qual o ovo não faz nenhum mal à saúde e que, ao contrário, é riquíssimo em nutrientes, fonte insuperável de energia e poder alimentício. Só faltam dar-lhe a medalha de alimento do ano.

Ao ler isto - grande admirador do ovo que sempre fui -, tive ímpetos de trepar em um poleiro e cacarejar em triunfo. Afinal, não é todo o dia que se assiste à correção de uma injustiça. Mas, então, pensei melhor e tentei contabilizar as perdas provocadas pelos anos de perseguição e infâmia contra o pobre ovo. Lembrei-me de como fritei muitas omeletes às escondidas, na calada da noite, rezando para que a minha primeira mulher, ao escutar os ruídos estranhos na cozinha, não telefonasse para meu médico, denunciando-me. Lembrei-me também de quantas vezes, na clandestinidade, me servi pela manhã de uma receita que aprendera com o escritor P.G. Wodehouse: uma chávena contendo vinho do Porto, molho Worcestershire, uma pitada de sal e... uma gema de ovo crua. Era a beberagem que o mordomo Jeeves costumava servir a seu amo, Bertie Wooster, para que, depois de Bertie acordado, os seus neurónios também voltassem a funcionar.

Pensei melhor ainda e, colocando-me na pele de todos nós, os loucos por ovos e que obedecemos a lei, como recuperar os ovos fritos, pochés, cozidos, estrelados, na manteiga, em omelete, com ou sem bacon, de que nos privámos durante o longo período de obscurantismo antiovo? E quantos steak-tartares não dispensámos por causa da supostamente mortífera gema crua sobre o bolo de carne? E as gemadas? Os pastéis de nata? Os fios-d"ovos? Os ninhos d"ovos? Os ovos-moles de Aveiro, os toucinhos do céu, as barriguinhas de freira? Em que pé ficamos? Eu, por exemplo, a uma média de três por semana, quantos ovos não deixei de comer nos últimos 40 anos? Se medido em graus de deleite, prazer ou orgasmo do paladar, a quanto não montará esse prejuízo?



Somos vítimas de certo tipo de ditadura da saúde. Por um lado, milhões de jovens se empanzinam impunemente de hambúrgueres e batatas fritas nos McDonald"s e formam a maior população obesa na história da humanidade. Por outro, os cidadãos responsáveis e com impostos em dia têm as suas dietas controladas por vigilantes intrometidos, para quem substâncias como os ovos - e, muitas vezes, a manteiga com que são preparados - são postas decididamente fora da lei. E apenas para que, um belo dia, os doutores pensem melhor e descubram que estiveram errados o tempo todo.

Assim como certos países e regimes pedem perdão póstumo às populações a que fizeram mal, a comunidade científica deve um pedido de perdão a todos nós, os ovíparos - perdão que, se pedido, não sei se concederei. E só não lhes atiro ovos à cara porque esse é o único uso que não recomendo do produto.

Principalmente por respeito às galinhas, que sabem muito bem o quanto lhes custou botá-los para fora.

Jornalista e escritor brasileiro, autor do romance "Bilac vê estrelas" (Tinta-da-China).

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