A mensagem de Francisco de Assis ao século XXI

A partir desta quinta-feira e até sábado, o evento (online, por força da pandemia) "A economia de Francisco" reunirá cerca de 2500 jovens de todo mundo em torno de questões como a família, o ambiente, a gestão do tempo ou a humanização da economia.

"Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Vai, pois, e restaura-a para mim." Assim, dizem os textos fundadores da Ordem de São Francisco, terá Deus falado ao seu servo, encaminhando-o para uma vida de despojamento e de atenção a todas as criaturas. Mas se estávamos então em plena Idade Média, quando o tempo dos homens se dividia em laudes e vésperas, o que pretende o Papa Francisco ao exortar os jovens do século XXI a pensar a economia (e, com ela, toda a sociedade) à luz da mensagem de Francisco de Assis?

É o que vamos saber a partir desta quinta-feira, 19, até sábado, no evento (online, por força da pandemia) "A economia de Francisco", que reunirá cerca de 2500 jovens de todo mundo em torno de questões tão importantes como a família, o ambiente, a gestão do tempo ou a humanização da Economia. Numa carta dirigida às novas gerações em maio de 2019, o Papa lançava o repto: "Por favor, não deixeis para outros o ser protagonista da mudança! Vós sois aqueles que detêm o futuro! Através de vós, entra o futuro no mundo. Também a vós eu peço para serdes protagonistas desta mudança. [...] Peço-vos para serdes construtores do futuro, trabalhai por um mundo melhor." Ao longo destes três dias, os jovens participantes terão ocasião de escutar e de interpelar grandes nomes da Economia, do ativismo cívico e social, da Filosofia e da Teologia, do mundo empresarial, à cabeça dos quais avulta naturalmente o de Susi Syder, Prémio Nobel 2017, e naturalmente o do Papa Francisco (para conhecer o programa clique AQUI).

Entre os participantes portugueses estão Rita Sacramento Monteiro e Francisco Maia. Ambos com 34 anos, ela de Lisboa, coordenadora de voluntariados na área da responsabilidade social da EDP; ele de Braga, engenheiro informático (trabalha na empresa que desenvolveu a aplicação StayAway Covid), motiva-os a necessidade de ir mais longe na reflexão sobre o mundo em que vivemos. "Senti que, no panorama atual, é extremamente importante debater a humanização da economia", diz-nos Rita. Para Francisco foi decisiva "a vontade de fazer a minha parte. Já há vários anos que estou envolvido com organizações não governamentais porque, na verdade, sempre quis dar o meu contributo à cidade, ao país, à sociedade de uma forma geral". Não podia, pois, perder a oportunidade de pensar estas inquietações em conjunto com um grupo tão amplo como o reunido neste evento: "Provavelmente não existem caminhos únicos, até porque as sociedades e a culturas são diferentes, mas importa criar caminhos novos. Essa foi a minha grande motivação."

A pandemia se veio impedir a reunião de todos os participantes na cidade italiana de Assis, nos lugares há muito calcorreados por São Francisco, trouxe, no entanto, uma acuidade reforçada aos temas em debate. Para Rita, "esta situação veio agudizar problemas antigos e mostrar a verdadeira dimensão de outros. O tema do envelhecimento e dos lares tem estado submerso há décadas, como, aliás, todo um conjunto de questões para as quais preferíamos não olhar. Não queremos ver tudo o que seja doloroso, feio ou frágil." Francisco considera, por sua vez, que "esta situação vem-nos mostrar outras realidades, as de algumas regiões do mundo em que a covid-19 é um pormenor porque lidam todos os dias com outras doenças igualmente graves ou com a fome. Acontece nos países do Terceiro Mundo, mas também em gigantes económicos, cheios de problemas por resolver, como a Índia ou o Brasil." Decidida a não baixar os braços, Rita pensa que o confinamento pode ser uma oportunidade de mudança: "Vivemos uma experiência global de fragilidade e de busca de respostas. Isto tem um potencial incrível. Sei de pessoas que já desenvolveram projetos comunitários, em que ativam aquilo que são e o que sabem em prol do todo."

Ambos católicos, com experiências de voluntariado em Portugal e no estrangeiro, encontram, sem esforço, atualidade na mensagem franciscana: "Para mim, ele representa o cristianismo na sua forma mais pura", diz Francisco Maia. "A pobreza ou a riqueza em si nada valem comparadas com a nossa relação com o outro. Isto, em si, é um pensamento muito simples e revolucionário. Costumo dizer que não existe problemática da velhice se existirem relações pessoais, mas isto só é possível se nos despojarmos do que não interessa." E conclui: "Ora isto é tão revolucionário hoje como o foi no século XIII."

Para Rita também não é difícil encontrar a atualidade desta mensagem: "Francisco de Assis mudou radicalmente a Igreja, mas não foi um fundamentalista, antes pelo contrário. No auge das Cruzadas e da ideia de guerra santa, tomou a iniciativa de falar com o Sultão para estabelecer pontes. Acreditava na fraternidade como valor absoluto, porque chamava irmãos e irmãs não apenas a homens e mulheres, mas a todas as criaturas da natureza. Olhava-as com cuidado." E isso não passa de moda nem perde atualidade.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG