Como Lage se tornou o arquiteto do título. O sistema, o discurso, o treino e os miúdos

No primeiro ano como treinador principal, pegou num Benfica a sete pontos do líder FC Porto e iniciou uma recuperação em que poucos acreditavam. 19 vitórias depois o sonho quase impossível tornou-se realidade. E com ele nasceu um treinador com uma marca que o distingue.

6 de janeiro de 2019. Bruno Lage entrou no relvado da Luz para orientar a equipa principal do Benfica no jogo com o Rio Ave, da 16.º jornada da I Liga. Os encarnados vinham de uma derrota em Portimão (0-2) que ditara a saída de Rui Vitória e deixara a equipa em quarto lugar no campeonato, a sete pontos do líder FC Porto.

A luz que levou o presidente Luís Filipe Vieira, cerca de um mês e meio antes, a manter Rui Vitória no cargo, após a goleada de 5-1 sofrida em Munique, tinha-se apagado de vez e a solução imediata era a promoção de Lage, que estava a desenvolver um bom trabalho na equipa B. Na altura começou por ser uma solução transitória.

O Benfica estava numa situação delicada, em que o objetivo de conquista do título parecia uma miragem quando ainda faltava uma volta inteira para disputar. Era preciso um milagre para reverter a situação. Aos 20 minutos do jogo com o Rio Ave, o destino das águias parecia traçado, pois os vilacondenses venciam por 2-0 e o caminho para a crise profunda parecia irreversível.

Só que, num ápice, o sistema de 4x4x2 recuperado por Lage começou a carburar e em apenas quatro minutos o Benfica chegou ao empate por Seferovic e pelo jovem João Félix, que encontrava finalmente o seu espaço no ataque da equipa. Na segunda parte, a mesma dupla consumou a reviravolta no marcador e os encarnados venceram por 4-2. Há 17 anos que o Benfica não virava um jogo em que esteve a perder por dois golos em casa. No final, Bruno Lage falava do seu feeling de jogar com dois pontas-de-lança, sendo um deles João Félix, que vinha jogando de forma intermitente com o anterior treinador.

Confirmado no cargo

Os nomes para orientar o Benfica sucediam-se na imprensa, desde Jorge Jesus a Paulo Fonseca, mas Lage continuou a sua missão. Era preciso fechar a primeira volta com uma vitória nos Açores com o Santa Clara. E assim foi. Seferovic e Jardel construíram o triunfo por 2-0, com o técnico a avisar que "os treinadores não são magos" e que o que se passa nos jogos tem que ver com o treino. Era todo um discurso diferente que cativou a administração da SAD. Nessa mesma jornada, o empate no clássico entre Sporting e FC Porto permitiu encurtar para cinco pontos o atraso para o líder.

Oito dias depois da estreia com o Rio Ave, Luís Filipe Vieira confirmou Bruno Lage como treinador da equipa principal, não revelando se ficaria apenas até final da época. O anúncio foi na véspera da primeira de duas deslocações consecutivas a Guimarães, para a I Liga e para a Taça de Portugal, que resultaram em triunfos por 1-0. O jovem técnico, que cumpria a primeira época a solo, tinha de desafiar a história do Benfica, afinal apenas por uma vez os encarnados tinham sido campeões depois de mudarem de treinador durante a época, em 1967-68.

Após quatro vitórias consecutivas, Bruno Lage teve a primeira prova de fogo com o FC Porto para a Taça da Liga em Braga. Os dragões venceram por 3-1 naquele que terá sido o jogo mais polémico da temporada. Apesar da derrota, a exibição do Benfica mereceu elogios.

A partir desse momento, os encarnados iniciaram um ciclo decisivo no campeonato, pelo qual Bruno Lage passou com distinção e com resultados que causaram sensação - escorregar era proibido. Depois de golear o Boavista (5-1), seguiu-se uma ida a Alvalade, onde o Benfica com uma grande exibição arrancou um triunfo por 4-2, que lhe permitiu aproveitar o empate do FC Porto em Guimarães. O primeiro lugar estava agora a três pontos e o sonho do título renascia.

Renovação e liderança conquistada no Dragão

Três dias depois, receção aos leões para a Taça de Portugal e nova vitória, agora por escassos 2-1, num jogo que antecedeu um dos momentos altos da época, quando o Benfica goleou o Nacional, na Luz, por impensáveis 10-0, aproveitando assim nova escorregadela do FC Porto em Moreira de Cónegos, que deixava a distância num ponto apenas.

Na Luz já ninguém duvidava das qualidades do treinador e, a 19 de fevereiro, Luís Filipe Vieira anunciava a renovação de contrato com Bruno Lage. Era o voto de confiança que faltava. O jogo no Estádio do Dragão aproximava-se a toda a velocidade com os dois rivais separados por apenas um ponto. O Benfica jogava o tudo ou nada no campeonato no dia 2 de março e o FC Porto até se colocou em vantagem com um golo de Adrián López. Mas a equipa de Bruno Lage arrancou depois para uma exibição de classe que lhe valeu a reviravolta no resultado, com golos de João Félix e Rafa Silva.

A dez jornadas do final, os encarnados lideravam o campeonato e nem a escorregadela em casa com o Belenenses SAD retirou capacidade psicológica à equipa para se manter na frente até ao momento de fazer a festa de campeão. Um título que a determinada altura da época poucos imaginaram ser possível e com um treinador improvável. Mas a verdade é que na era Bruno Lage o Benfica apenas cedeu um empate em 19 jogos disputados no campeonato, nos quais marcou 72 golos e sofreu apenas 16. Uma performance que permitiu aos encarnados terminarem o campeonato com 103 golos, igualando o recorde do clube estabelecido na época 1963-64, no tempo de Eusébio.

Mais intensidade nos treinos

"Tenho pena de não abrir mais os treinos para verem a intensidade." A frase é de Bruno Lage e tem sido recorrentemente utilizada pelo treinador nas conferências de imprensa. Este foi um dos grandes segredos deste Benfica e que foi inclusivamente revelado pelo médio brasileiro Gabriel, poucos dias depois da mudança de treinador: "Acho que o fator diferencial é a intensidade dos treinos."

E a verdade é que a maior intensidade implementada nos treinos de Bruno Lage refletiu-se nos jogos, com a equipa a conseguir manter um ritmo alto ao longo dos 90 minutos, que lhe valeu inclusive muitos golos nos últimos minutos das partidas, quando o desgaste dos adversários era maior.

Com Bruno Lage, o Benfica conseguiu ser uma equipa mais pressionante junto à área adversária, com inúmeras recuperações de bola e a consequente criação de oportunidades para marcar. E isso é tudo reflexo da forma como a equipa treina as várias situações de jogo, com movimentos e posicionamentos bem definidos. Na prática, cada um dos jogadores sabe o que tem de fazer nos vários momentos do jogo.

Bruno Lage tem frisado sempre que o rendimento da equipa é reflexo daquilo que é treinado durante a semana e a maior prova disso é que nos primeiros jogos a equipa não conseguia, por exemplo, controlar as partidas em situação de vantagem no marcador, algo que com o passar do tempo se tornou uma das imagens de marca deste Benfica, sempre com os olhos virados para a baliza.

A aposta no 4x4x2

A primeira alteração visível implementada por Bruno Lage foi a mudança de sistema tático. O Benfica vinha com rotinas de cerca de um ano em que Rui Vitória tinha implementado o 4x3x3, sem grande sucesso, e eis que logo no primeiro jogo, com o Rio Ave, Lage apostou no regresso ao 4x4x2. Disse que tinha sido um feeling depois de ter visto a forma como a equipa tinha reagido a jogar dessa forma após estar a perder por 2-0 em Portimão, no último jogo de Rui Vitória.

O técnico encarnado assumiu que tinha muitos avançados para jogar nesse sistema e, dessa forma, manteve Seferovic no onze e abriu espaço para um talento puro como é João Félix. O novo sistema obrigou a reajustes na forma como os jogadores se posicionavam em campo no momento defensivo e, como tal, derivou Pizzi para a ala direita e apostou em Samaris e Gabriel no centro do meio-campo. O grego dava-lhe capacidade de recuperação de bola e aproveitava para explorar a capacidade de passe e de variação do centro do jogo do brasileiro.

A lesão de Gabriel criou-lhe um problema, que acabou por resolver adiantando Samaris e fazendo entrar o jovem Florentino Luís, que oferece à equipa uma boa capacidade de antecipação e de recuperação de bola. Tudo isto com a ajuda dos alas Pizzi e Rafa Silva, que jogando em zonas mais interiores aumentavam a capacidade de circulação de bola, dando ambos mais apoio no momento defensivo e permitindo aos laterais André Almeida e Grimaldo surgirem no ataque, onde começaram a destacar-se com muitas assistências para golo.

No ataque, João Félix passou a permitir um trabalho mais eficaz entre as linhas defensiva e de meio-campo dos adversários, enquanto Seferovic dava à equipa a capacidade de ter mais profundidade ofensiva graças à sua capacidade de luta e velocidade. Com estes avançados a fazerem movimentos diferentes, o Benfica passou a ter mais espaços para poder criar oportunidades de golo.

O Benfica passou então a jogar com as suas linhas mais juntas, o que contribuiu decisivamente para uma melhor transição defensiva, que com Rui Vitória era bastante débil e expunha em demasia a equipa aos ataques adversários.

Um plantel onde todos contam

"Neste plantel, todos contam. Os mais novos, os menos novos, os mais experientes, os menos experientes, portugueses e não portugueses, formados no Seixal ou em qualquer outro ponto do mundo." A mensagem de Bruno Lage foi clara desde o início e automaticamente implementada. Nos primeiros jogos, os reforços Facundo Ferreyra e Nicolás Castillo, que já não eram utilizados por Rui Vitória, voltaram a ter oportunidades. O mesmo acontecendo a Gabriel e Samaris, que passaram a ter um papel importante na equipa.

O maior exemplo da máxima de que todos contam é Adel Taarabt, jogador proscrito por Rui Vitória e que Bruno Lage começou a recuperar na equipa B, acabando por chamá-lo à equipa principal.

A forma como sempre realçou a atitude de Jonas, apesar de o brasileiro jogar com pouca regularidade, é outro exemplo de que todos contam. Ao goleador referiu-se sempre como "um jovem". "Vejo um jovem a recuperar bolas, a marcar golos e a divertir-se. E o mais importante é ir feliz para casa", disse a determinada altura Lage, garantido que Jonas mantinha "o mesmo estatuto de imprescindível". Também Fejsa, que perdeu a titularidade após uma lesão em Guimarães, tem merecido a atenção especial de Lage. Nos instantes finais do jogo com o Portimonense, quando deu ordem ao sérvio para entrar em campo, pediu aos adeptos um aplauso para um jogador que já tinha dito ser "o melhor médio" da equipa.

Aliás, a defesa de Fejsa e Jardel foi feita após o jogo de Frankfurt, que marcou a despedida do Benfica da Liga Europa, também com recurso a exemplos práticos. "Imaginem vocês [jornalistas] com 20 anos de uma carreira brilhante, com enormes sacrifícios, e depois chega um indivíduo mais novo, assina dois ou três textos bons e, de um momento para o outro, vocês já não contam mais e aquele indivíduo só por ser mais jovem passa a ser o especial. Não contem comigo para isso. Olho é para o rendimento de cada um, mas também para o homem e o ser humano. Nunca abandonaria estes dois homens", atirou o treinador. Com isto, contribuiu definitivamente para uma união do grupo.

Aposta na formação

O final do mercado de janeiro fez que Bruno Varela, Lema, Alfa Semedo, Castillo e Ferreyra deixassem o clube da Luz, com Bruno Lage a optar por ir buscar reforços à equipa B, com a qual tinha trabalhado durante seis meses. Zlobin, Ferro, Florentino Luís e Jota foram promovidos à equipa principal.

A lesão de Jardel no dérbi da Taça de Portugal com o Sporting abriu as portas da equipa a Ferro, que conquistou um lugar no onze titular. Também Florentino, que se estreou na goleada de 10-0 com o Nacional, acabou por conquistar o seu espaço na equipa depois da lesão sofrida por Gabriel.

O jogo que mais simboliza esta aposta nos jovens é a partida de Istambul, com o Galatasaray, para a Liga Europa, na qual Bruno Lage deu a titularidade a seis jogadores formados no Seixal: Rúben Dias, Ferro, Yuri Ribeiro, Florentino, Gedson Fernandes e João Félix. O Benfica venceu por 2-1. Uma aposta que mereceu elogios, tendo inclusive o jornal espanhol Marca apelidado os encarnados de "Baby Benfica".

A primeira grande aposta de Bruno Lage foi João Félix, que se tornou indiscutível no onze desde o primeiro jogo com o Rio Ave. As exibições do jovem avançado até já o tornaram um dos jogadores mais cobiçados pelos clubes mais ricos da Europa.

Discurso sobre futebol e recurso ao Panda

Bruno Lage implementou também uma forma diferente de comunicar, rompendo com o discurso mais padronizado e defensivo de Rui Vitória. As conferências de imprensa passaram a ser autênticas sessões explicativas do processo de jogo que pretendia para o Benfica e também as razões pelas quais fazia determinadas substituições ou opções por um ou outro jogador. Internamente havia até quem dissesse que o técnico dava explicações a mais. Mas Lage manteve-se fiel aos seus princípios.

Sem falar no trabalho dos árbitros, e sempre de forma calma e ponderada, o treinador utilizou algumas frases fortes. A primeira visou a necessidade de a equipa reconquistar os adeptos com boas exibições e resultados. E a forma como explicou a sua aceitação por parte dos jogadores depois de ser confirmado como treinador definitivo do Benfica é um bom exemplo da forma genuína como comunica. "Os jogadores não têm dito nada, mas eu senti logo no olhar deles. São os tais feelings. Olhei para eles e senti que ia ser o líder deles e as coisas têm seguido de uma forma muito natural", disse.

A juntar a isso utilizou várias vezes situações do dia-a-dia para responder a algumas perguntas mais sensíveis. O caso mais emblemático teve que ver com a valorização de João Félix e até sobre um eventual deslumbramento. "Hoje de manhã lembrei-me de um episódio com o meu filho Jaime, de 3 anos e meio. Quando cheguei a casa ele estava a ver no Canal Panda uns desenhos animados que são os Super Wings. Perguntei-lhe 'o que estás a fazer? Estás a ver os Super Wings?' Ele respondeu-me 'não, agora são os Super Wings Equipa, eles agora têm de trabalhar em equipa'. Com o Félix é a mesma coisa, tem o valor que tem se trabalhar em equipa. E o Bruno Lage também tem de trabalhar em equipa. Respondo-lhe a essa pergunta desta maneira", disse.

O feitio terra a terra ficou bem expresso também na fase final da luta pelo título, quando não era permitida qualquer escorregadela. Após a vitória de 6-0 frente ao Marítimo, Bruno Lage falou da mensagem que passou aos jogadores que vinham da eliminação da Liga Europa, na qual disse ter perdido o aniversário do filho pelo segundo ano consecutivo. "Passamos tanto tempo fora da família mas em família, esse tempo não se compra. Nós temos de aproveitar ao máximo o tempo, na vida desportiva como na vida familiar. O meu filho fez 4 anos e este é o segundo aniversário que perco, isso é que não recupero mais. O nosso sentimento é esse: o tempo não volta atrás, não compramos tempo e o que temos de fazer é aproveitar ao máximo o tempo que está a acontecer. Precisamos ter entradas fortes para um dia, quando tivermos de explicar à nossa família, sobretudo aos mais novos, porque não passámos tanto tempo com eles, dizermos que estávamos a fazer outra coisa em família que valeu a pena. Foi esta a nossa conversa, e os jogadores aproveitaram", disse.

O melhor exemplo de como o discurso de Bruno Lage é diferente de tudo o que rodeia o futebol foi o discurso do treinador na festa de consagração, no Marquês de Pombal, quando apelou a uma mudança de mentalidades no futebol português. "Não basta chamar nomes aos árbitros, aos treinadores, aos jogadores quando eles perdem e não correm. Se vocês tiverem a exigência que têm no futebol como nos outros aspetos do nosso Portugal, economia, educação, saúde, vamos ser um país melhor", disse.

Em honra do mentor Jaime Graça

Mas quem é Bruno Miguel Silva do Nascimento, que no seu primeiro ano como treinador principal, aos 43 anos, conquistou o 37.º título de campeão nacional do Benfica? Nasceu em Setúbal a 12 de maio de 1976 e herdou o apelido Lage do seu pai Fernando, também ele com um passado ligado ao futebol como jogador e treinador no futebol distrital de Setúbal.

Bruno cresceu no bairro da Fonte do Lavra, bem perto das margens do rio Sado, e desde bem cedo que o futebol fez parte da sua vida. Foi um extremo-direito rápido, que tinha como principal qualidade os cruzamentos para a área, mas não passou de clubes modestos como o Praiense ou o Quintajense.

Contudo, por essa altura já germinara na sua cabeça o sonho de ser treinador, que o levou a tirar o curso de Educação Física. Em 1997, Fernando Lage pediu ao amigo José Rocha que o filho pudesse estagiar na sua equipa técnica nos juvenis do Vitória de Setúbal. Assim foi. Bruno Lage tinha 21 anos e acabou por ficar como adjunto.

Foi no clube do Bonfim que conheceu Jaime Graça, antigo internacional português com uma grande carreira nos sadinos e no Benfica, com quem trabalhou também na formação do projeto da escola de futebol de Quinito. A ligação entre ambos foi-se tornando cada vez mais forte, ao ponto de o antigo magriço se tornar seu mentor. Neste sábado, na hora da celebração do título, antes de subir ao palanque, vestiu uma camisola com o número 37 (os títulos do Benfica) e com o nome de Jaime Graça nas costas. Foi a forma que encontrou de homenagear o ex-jogador e treinador já falecido.

Em 2000 foi convidado por Jaime Graça para ser seu adjunto no Fazendense, de Almeirim, no ano seguinte foi adjunto do pai no Comércio e Indústria, até que, em 2002-03, José Rocha foi convidado para treinar o Estrelas de Vendas Novas, que tinha um projeto de dois anos para subir à II Divisão. Foi ali que começou a implementar as suas ideias, que culminaram com a subida de divisão do clube logo no primeiro ano.

Em 2004, Rui Esteves, antigo jogador do V. Setúbal e do Benfica, foi convidado para treinar o Sintrense na III Divisão e convidou Lage para seu adjunto, na sequência das muitas conversas que mantinham sobre táticas e exercícios de treino à mesa do café. O agora técnico do Benfica ganhava 450 euros mensais, mas ao final de três jogos Rui Esteves decidiu deixar o clube de Sintra por achar que não tinha condições para subir de divisão com o plantel que tinha. O presidente Adriano Filipe convidou então Lage a assumir a equipa, mas este recusou por uma questão de lealdade com o treinador principal.

Não demorou muito até que Jaime Graça o chamasse para o Benfica, onde iniciou um percurso pelas camadas jovens como treinador dos iniciados, juvenis e juniores, tendo sido campeão nacional de sub-15 e sub-17. Era o início do projeto de formação dos encarnados e pelas mãos de Lage passaram jogadores como Bernardo Silva, João Cancelo, Gonçalo Guedes, Ivan Cavaleiro, Hélder Costa, entre outros.

Só que a morte de Jaime Graça em fevereiro de 2012 e a necessidade de um novo desafio levaram o técnico a querer deixar o clube da Luz. Rumou então ao Dubai para treinar a equipa B e os juniores do Al Ahly. Foi ali que conheceu Carlos Carvalhal, com quem acabou por escrever um dos dois livros com a sua assinatura, tendo como temas o treino e a formação de jogadores.

A empatia entre ambos foi desde logo bastante forte, ao ponto de ter sido convidado por Carvalhal para integrar a sua equipa técnica em Inglaterra, onde esteve dois anos no Sheffield Wednesday, no Championship, e depois no Swansea, na Premier League.

No início desta época decidiu que era hora de voltar a casa e iniciar o seu percurso como treinador principal no futebol sénior. Luís Filipe Vieira convidou-o a assumir o comando do Benfica B, na II Liga, onde ficou até janeiro... O resto da história já é conhecida.

Um verdadeiro conto de fadas de um treinador que logo no primeiro jogo na equipa principal deixou bem claro que este percurso tem um responsável: Jaime Graça. A ele dedicou a vitória com o Rio Ave no jogo estreia. "Mister Jaime, onde quer que estejas, espero que feliz e orgulhoso. Eternamente grato", escreveu na sua conta do Facebook. E neste sábado, na hora da consagração, ao vestir uma camisola com o nome do ex-jogador e treinador já falecido. A maior prova de agradecimento pessoal e profissional ao seu mentor terá, no entanto, sido o facto de ter colocado ao seu filho o nome de Jaime.

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