Ryanair só negoceia com os seus trabalhadores

Companhia irlandesa recusa falar com sindicatos que tenham representantes de outras companhias. Empresa cancela cem voos na próxima semana.

Avizinham-se dias de forte turbulência na Ryanair. Em Portugal, a companhia irlandesa só vai negociar com os sindicatos que tiverem apenas os funcionários da empresa. Os tripulantes voltam a acusar a Ryanair de violar a lei do trabalho e já preparam a greve da próxima semana. Nos dias 25 e 26 de julho, serão cancelados ao todo cem voos; 18 mil clientes com voos de e para Portugal serão afetados por esta paragem.

"Queremos reconhecer um sindicato em Portugal. Não há obstáculos em relação a isso. Mas não queremos estar com pessoas do sindicato que pertençam a outras companhias. Não fizemos isso noutros países. Só aceitamos dialogar com trabalhadores da Ryanair", alega Kenny Jacobs, responsável de marketing da companhia aérea low-cost, em declarações ao DN/inheiro Vivo. Até agora, só foram reconhecidos os representantes de Reino Unido e Itália.

"Queremos reconhecer um sindicato em Portugal. Não há obstáculos em relação a isso. Mas não queremos estar com pessoas do sindicato que pertençam a outras companhias."

O SNPVAC, sindicato que representa os tripulantes portugueses, atira-se ao governo. "É vergonhoso que ainda não tenha sido tomada qualquer atitude contra esta empresa. Preocupam-se tanto com cidadãos estrangeiros que mal vivem em Portugal e depois não salvaguardam os diretos dos trabalhadores do seu próprio país", lamenta Bruno Fialho, da direção deste sindicato.

Na próxima semana, a Ryanair vai cancelar até 50 voos por dia de e para Portugal por causa da greve de tripulantes de 48 horas, em conjunto com o pessoal de voo de Espanha e Bélgica - em Itália, a greve será só no dia 25. Nos três países, serão afetados cerca de cem mil clientes, por causa do cancelamento de 600 dos 4800 voos previstos para estes dias. Os passageiros já foram contactados e "podem remarcar ou solicitar voos alternativos num intervalo de sete dias antes/após os dias 25 e 26", segundo a companhia irlandesa.

O SNPVAC acusa ainda a companhia de estar a pressionar os trabalhadores e denunciou o envio de um questionário online aos tripulantes de cabina de Portugal, Espanha, Bélgica e Itália para saber se vão aderir à paralisação da próxima semana.

No documento digital a low-cost irlandesa alerta os seus funcionários para o facto de não serem obrigados a aderir ao protesto e de serem livres de comparecer no trabalho.

A Ryanair defende-se: "Temos direito a saber se as pessoas vão ou não trabalhar na próxima semana para provocar o mínimo de problemas possível." Mas a verdade é que "os voos da próxima semana estão mesmo cancelados. Não há possibilidade de os mudar em cima da hora", afirma Kenny Jacobs.

A empresa irlandesa alega ainda que "os tripulantes de cabina da Ryanair auferem salários excelentes - até 40 mil euros por ano (em países com elevado índice de desemprego jovem) -, horários líderes de indústria (14 dias de folga por mês), ótimas comissões por vendas, subsídio de uniforme e baixa de doença paga".

Os sindicatos avisam: "Haverá mais paragens se a empresa continuar com esta postura." As condições salariais, o direito de usufruto de licenças de parentalidade, o fim dos processos disciplinares com base nas baixas médicas ou nos objetivos inerentes às vendas de bordo são alguns dos motivos que estão na base a paralisação.

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