Um mau casamento prejudica tanto a saúde como tabaco e alcoolismo

Cientistas norte-americanos estudaram 373 casais durante 16 anos para descobrirem que casamentos conflituosos fazem mal à saúde. Sobretudo a dos homens.

Não é por acaso que os casamentos das comédias românticas têm maridos e mulheres cheios de amor, a superar obstáculos. É que se fossem maus, com conflitos insanáveis, prejudicariam tanto a saúde do casal como o tabaco e o alcoolismo, revela uma pesquisa levada a cabo por investigadores das universidades de Nevada e Michigan, EUA. Naturalmente, dessas relações não rezam as histórias.

"Acompanhámos 373 casais heterossexuais, ao longo dos seus primeiros 16 anos em conjunto, e então fomos comparar a saúde de esposas e maridos que discutiam sobre quase tudo - filhos, dinheiro, sogros e até atividades de lazer - com a de outros que discutiam menos", explica a psicóloga Rosie Shrout, uma das responsáveis pelo estudo, que apresentou esta semana as conclusões preliminares na conferência da Associação Internacional para a Pesquisa das Relações, no Colorado.

Enquanto casamentos felizes trazem aos parceiros uma vida mais longa e saudável do que a solteiros, divorciados e viúvos - é a ciência que o diz -, casamentos conflituosos podem, pelo contrário, traduzir-se em inflamações no corpo, distúrbios alimentares, dores de cabeça e reações intensas de stress que afetam desde o coração ao sistema imunitário.

"Se pensarmos que, de um ponto de vista biológico, nascemos apetrechados desta capacidade para nos ligarmos emocionalmente, e que essa é uma necessidade equivalente à de nos alimentarmos, torna-se mais fácil entender que o impacto das nossas relações se estenda à saúde do nosso corpo", justifica a psicóloga e terapeuta familiar Cláudia Morais, autora de Os 25 Hábitos dos Casais Felizes (ed. Manuscrito, 2015) e Sobreviver à Crise Conjugal (Oficina do Livro, 2004).

E o que define um mau casamento, para começar? "Acima de tudo, é uma relação que não acrescenta ligações afetivas significativas e seguras", esclarece Cláudia Morais. Isto, quando a base de uma relação amorosa é a certeza de termos ao nosso lado alguém que se importa, "alguém que se preocupa genuinamente connosco, com o que nós sentimos e nos faz felizes".

Segundo a investigadora Rosie Shrout, um casamento de discórdia pode ser particularmente devastador para a saúde se por acaso os cônjuges se mostram hostis ou defensivos nas brigas. "Também se discutem sobre o mesmo assunto vezes e vezes sem conta sem chegarem a consenso", acrescenta ainda a especialista, sublinhando que o impacto é pior nos homens.

Uma conclusão que não surpreende a psicóloga portuguesa, ciente de que as mulheres têm quase sempre uma rede de suporte quando surgem problemas no casamento, além de estarem mais habituadas a mostrar as suas emoções.

"Se pensarmos que continuam a existir diferenças significativas na forma como educamos homens e mulheres,
e que de um modo geral os homens de hoje foram educados no sentido de reprimir as suas vulnerabilidades, percebe-se que lhes seja mais difícil construir laços emocionais significativos fora das relações amorosas", conclui Cláudia Morais.

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

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