Premium Quando o discreto António se fez Variações

Variações, filme de João Maia sobre a época em que o autor da Canção do Engate se tentava afirmar no panorama artístico, é um projeto que conta mais de dez anos e finalmente tem estreia marcada para 2019.

São duas da tarde e há dezenas de pessoas no Trumps, o clube gay lisboeta que poucos terão frequentado a esta hora do dia. Lá vem ele, de corpete preto e curtíssimos calções, corrente ao pescoço, uma espécie de relâmpago na orelha esquerda, quatro traços negros na cara. Sobre as costas, uma capa escarlate. Pede um isqueiro e acende um cigarro, próximo daquela barba loura e dos olhos claros.

Eis António Variações, nascido António Ribeiro em 1944, numa aldeia minhota, em Fiscal. O corpo é-lhe emprestado pelo ator Sérgio Praia, que entretanto começa a cantar Estou Além. A capella. Estamos nas filmagens do filme Variações, que apesar de ser a primeira longa-metragem de João Maia é já uma história antiga.

O realizador começou a pesquisa para o filme em 2002, antes de os Humanos cantarem os temas de Variações ou Manuela Gonzaga escrever a sua biografia (recentemente reeditada). Há dez anos, por divergências com o antigo produtor Alexandre Valente, o projeto parou, e o caso chegou a tribunal, que acabaria por dar razão a João Maia sobre os direitos do argumento. Em 2012 recomeçou, mas acabaria por parar por falta de financiamento. O realizador filma agora com o apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), numa produção de Fernando Vendrell (David & Golias).

"É engraçado estarmos aqui. Foi o primeiro sítio onde o Variações deu um concerto [em 1981]. Dois anos antes de gravar o primeiro disco", lança João Maia na apresentação do filme, que só deverá ter estreia em 2019 (quando terão passado cinco anos da morte de Variações). Atrás dele está uma cortina feita de bolas de pingue-pongue, brancas e cor de laranja, que existia ali, no Trumps, nos anos 1980 e foi recriada para o filme.

Sérgio Praia estava lá desde o início. "Achei que ele tinha o Variações algures", justifica o realizador. De tal maneira que, durante este interregno, o ator levou ao palco do Teatro São Luiz a peça Variações, de António, com texto e encenação de Vicente Alves do Ó, em que deu vida àquela personagem "para matar o bicho", explica ao DN.

Quando fechavam as portas a Variações

Este filme retrata o período da vida do artista no final nos anos 1970 e início da década de 1980, quando ele, barbeiro de profissão, para ganhar a vida, e músico por vocação, embora sem qualquer aprendizagem formal, está a tentar afirmar-se no panorama musical.

O ator conta que nesta época, e durante anos, houve um "fechar de portas constante [a Variações], porque ninguém conseguia perceber muito bem onde encaixar o género musical. A certa altura queriam pô-lo quase como cantor de folclore. Ele estava focado num único objetivo: a música, a música, a música e, de vez em quando, a Amália, e a mãe. Foi tudo feito à volta desse desejo de fazer as pessoas felizes, de fazer as pessoas esquecerem os seus problemas. Acho que ele tinha isso na cabeça desde muito cedo, é como se nascesse predestinado para esta profissão".

Quando o vemos, na rodagem, a cantar Estou Além, Amália (Maria José Paschoal) aparece ao seu lado como um vulto fantasmagórico, e grande referência, que foi na sua vida. Variações chegou mesmo a cantar e a gravar Povo Que Lavas no Rio.

É a voz de Sérgio Praia que se escutará no filme, a cantar os temas de Variações (entre os quais um inédito), e foi através deles que o ator procurou conhecer o homem, mesmo tendo falado com muita gente. "Acho que as letras são a grande chave do filme e da vida do António", explica.

"Tive um trabalho de preparação vocal durante três meses, trabalhei com a banda e com um professor de música", conta Sérgio Praia, dizendo, contudo, que foi quando começou a cantar nas filmagens que entrou realmente na pele do artista. "Acho que as próprias músicas dele - é engraçado isso - parecem estar construídas de maneira a que tu não consigas ficar quieto. Tens de mexer qualquer coisa para fazer a voz sair. É de uma grande inteligência e principalmente de quem trabalha de dentro para fora."

"A personagem mais surpreendente da época"

João Maia tinha 16 anos quando Variações morreu, aos 39, em 1984. "Foi a personagem mais surpreendente da época. Não era um tipo urbano, cresceu no campo, e toda a gente acharia que ele era ultralisboeta, ou que vinha de fora, porque tinha uma cabeça muito arejada", afirma.

Na fase de pesquisa, que resulta agora em "caixotes e caixotes" com material que o ajudaram a montar uma espécie de puzzle, o realizador falou com "família, amigos mais próximos, músicos que trabalharam com ele" e, nota, "até a costureira dele eu encontrei". Foi para a Praça do Chile perguntar por ela. Disseram-lhe que viva em Azeitão, já reformada.

O António era uma pessoa muito discreta, ao contrário do que se calhar as pessoas pensam

"O António era uma pessoa muito discreta, ao contrário do que se calhar as pessoas pensam, por causa da maneira como ele se vestia. Muito discreto, muito tímido. Tinha a vida muito compartimentada. Os músicos não conheciam a sua vida pessoal. Ele ia para estúdio sozinho, não levava entourage, nem amigos, nem família, nem agente. Era muito solitário. Os músicos só conheciam a parte da música. Os amigos pouco sabiam da música dele. Os clientes ficaram surpreendidos por ele ser cantor", diz João Maia, explicando quem foi descobrindo por detrás dos testemunhos que ouvia, mesmo tendo procurado olhar para Variações como uma personagem.

No filme, o realizador mostra "a luta inglória" de Variações, que "teve contrato cinco anos com a editora [Valentim de Carvalho, como a figura da sua predileção, Amália] até conseguir fazer o primeiro disco. Mas ele nunca desistiu. Talvez uma das coisas mais dramáticas da história é que, quando conseguiu, morreu. Isso é muito triste".

Variações, autor de canções como Estou Além, O Corpo É Que Paga, ou a Canção do Engate, deixou apenas dois álbuns editados, Anjo da Guarda (1983) e Dar e Receber (1984). Além deles, deixou várias cassetes, algumas das quais estão a ser trabalhadas pelo músico Armando Teixeira para este filme. São também elas, e as letras que as fazem, o material biográfico mais precioso para João Maia neste trabalho.

A rodagem terminará na aldeia natal de Variações, em Fiscal, no Minho, depois de ter passado pelo Trumps, ou pelo prédio onde o artista viveu no Conde Redondo. Não foi possível filmar - por motivos financeiros e logísticos - na sua barbearia, que se chamava É pró Menino e prá Menina e é hoje um supermercado, nem tê-lo a subir o Chiado, uma das suas imagens mais emblemáticas.

"Ele não abria a porta de casa a toda a gente. Muito poucos iam a casa dele. Acho que isso diz muito de como é que uma pessoa é. Ele não abria a vida dele a toda a gente. E eu também, no filme, não quis abrir. Vou abrir a porta, mas não vou escancarar. A porta fica aberta", remata o realizador.

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