Exército aceita substituir G3 por espingarda em uso num só país da Nato

A HK alemã e a FN belga disputam concurso onde era "requisito desejável" que todas as versões equipassem "pelo menos dois países" aliados.

O concurso de 42,8 milhões de euros para substituir a velha G3 do Exército tem agora uma definição de "arma-padrão" que deixou cair o critério "desejável" de cada variante equipar pelo menos dois países da NATO, alertaram fontes ouvidas pelo DN.

O Exército garantiu ao DN que "não alterou os seus requisitos" durante o concurso, mas essa definição de arma-padrão foi divulgada em julho pela agência da NATO encarregada do concurso (NSPA, sigla em inglês) e só agora conhecida.

O concurso aproxima-se do fim e na mesa estão, segundo as fontes, a alemã HK - apontada como mais cara mas de grande qualidade e em uso generalizado na NATO - e a belga FN. Em jogo estão três variantes de espingarda automática: a de calibre 5.56 mm (uma dezena de milhar de unidades) e duas de 7.62 mm, uma das quais de precisão (ou sniper). Estão ainda incluídos lança-granadas de 40 mm (a acoplar naquelas armas) e metralhadoras naqueles dois calibres.

Segundo diferentes fontes ouvidas sob anonimato, por não estarem autorizadas a falar sobre a matéria, a NSPA informou que a arma de "serviço padrão" destina-se a equipar "um ramo das Forças Armadas" - enquanto as que equipam as forças de operações especiais (como os rangers de Lamego) são de "serviço limitado".

Acresce que essa definição "considera cumprido" um requisito inicialmente estabelecido noutros termos no caderno de encargos, garantiram algumas fontes: em vez de a arma-padrão de 5.56 mm e a de 7.62 estarem cada uma ao serviço de "pelo menos dois países da NATO", assim como os lança-granadas, a indicação dada em julho pela NSPA diz que afinal basta a primeira estar em uso num país e a segunda noutro.

Ora isto leva a que o Exército - e a Brigada de Reação Rápida (BRR) em especial - possa ser equipado com espingardas diferentes se o concurso for ganho pelo fabricante belga FN, cujo modelo SCAR de 5.56 mm só é arma-padrão nas Forças Armadas belgas. Isso decorre de o Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOP) de Lamego estar praticamente todo equipado com as HK 416A5 (calibre 5.56 mm) - usadas em países como a França, a Noruega ou a Holanda - e a HK 417A2 (7.62 mm).

As Forças Armadas norte-americanas também utilizam a arma alemã, mas fabricada nos EUA e com a designação M27.

Como o CTOE é uma unidade da BRR, as outras - os regimentos de paraquedistas e de comandos - ficariam nesse caso com uma arma diferente. O Exército explicou ao DN que os rangers de Lamego "têm um emprego diferenciado das restantes tropas especiais" da BRR.

Porém, isso é refutado pelo coronel Barroca Monteiro e pelo tenente-coronel Miguel Machado, ambos paraquedistas (reforma). Para o primeiro, "paraquedistas e comandos seriam discriminados" face aos rangers, além de a eventual opção pela FN surgir "ao arrepio da economia logística e da normalização dos equipamentos sem qualquer justificação organizacional".

Miguel Machado frisa que "não faz sentido, nos dias de hoje, esta divisão" entre arma-padrão e de serviço limitado. "Na mesma brigada deviam estar as mesmas armas" em uso, complementadas com algumas de natureza específica (como as de precisão). E o oficial dá dois exemplos: a França comprou as HK 416 "para todas as suas unidades, especiais ou regulares", enquanto a Bélgica está a equipar "todas as suas unidades, da cavalaria aos paracomandos, passando pelas forças de operações especiais, com a FN SCAR".

Outro oficial, ligado aos fuzileiros da Marinha (cujo Destacamento de Ações Especiais usa a HK 416A5), pronuncia-se no mesmo sentido: "Quanto mais diversificadas forem as opções, mais difícil fica todo o processo logístico e é necessário dar formação extra" aos soldados.

"Material mais vendido é o melhor"

Sobre a alteração no "requisito desejável" de cada uma das espingardas de assalto (5.56 e 7.62) a concurso estarem ao serviço de pelo menos dois países da NATO, com a NSPA a dizer que basta a primeira estar apenas num e a segunda noutro, Miguel Machado entende que essa formulação inicial "não foi colocada para ser desprezada liminarmente".

Essa condição, não sendo mandatória, "poderá ter sido inserida para que o Exército não seja forçado a optar por uma arma só por ser mais barata, por exemplo, mas possa ter liberdade para comprar material de excelência e esse geralmente é o mais vendido", sublinhou Miguel Machado.

"Nesta área do material de guerra, o mais vendido regra geral não é o mais barato mas o melhor", prosseguiu o responsável pelo site especializado Operacional. Agora, há países a fabricar "armas que só eles usam, o que se compreende, mesmo sendo material fraco ou não sendo do melhor". A título de exemplos atuais e só ao nível das espingardas de assalto, Miguel Machado citou os casos da Suíça (SIG), da Itália (Beretta), Bélgica (FN) e Croácia (HS Produkt).

No caso da Bélgica, reafirmou Miguel Machado, este é "o único país que está a introduzir a FN SCAR como padrão" nas suas Forças Armadas.

Agora, "cada vez mais há países a comprar fora para comprar melhor e a abandonar o protecionismo nesta área do material militar" e, entre outros exemplos, Miguel Machado deu três: "a Espanha, que há uns anos deixou a sua CETME e comprou a HK G-36"; depois "a França, que deixou a sua FAMAS e comprou [em 2018] a HK 416"; por fim, "o Reino Unido usa hoje uma arma nacional [a SA80A2] mas com vários componentes fundamentais produzidos pela HK, que lhe deram uma fiabilidade e capacidade que não tinham a versão original."

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