As sondagens não são búzios para ler o futuro

Cria-se sempre uma certa excitação, entre o pessoal político e o comentariado, cada vez que uma sondagem mostra uma pequena alteração de resultados entre os dois partidos que disputam o poder. Se o PSD se aproxima ou se afasta do PS, isso é valorizado como se tratasse de um caminho que vai ser seguido até às próximas eleições. Só que os estudos de opinião refletem, apenas, o que pensam os inquiridos naquele dia sobre aquela matéria.

Várias sondagens já são capazes de refletir uma determinada tendência, e a única novidade, posterior às eleições de 2019, é que o Chega está com uma tendência de forte crescimento nas intenções de voto. É até muito provável que, como aconteceu recentemente com Trump e Bolsonaro, as sondagens não sejam capazes de refletir inteiramente o potencial de um populista que se apresenta como "não político" e assim é percecionado por uma parte significativa dos eleitores. O último caso de sucesso, em Portugal, de alguém que se afirmava como "não político" foi Cavaco Silva, que esteve 40 anos na política ativa e conseguiu quatro maiorias absolutas de votos, com raras sondagens a preverem esses feitos.

Procurar uma certeza do que pode acontecer nas próximas legislativas, com base em intenções de voto de hoje, é navegar na maionese. A esta distância, sem sequer saber quando vão ser as eleições, é mais seguro utilizar a memória para procurar em eleições passadas fatores que possam determinar eleições futuras. Aceitemos como certo que a conquista do poder tem tanto de mérito de quem está na oposição e ganha esse poder, como de demérito de quem está no poder e o perde. Ou, simplesmente, que o resultado das próximas legislativas está também dependente de fatores que nem sequer somos capazes de imaginar hoje.

Façamos recurso da memória de eleições passadas, ela diz-nos, por exemplo, que a taxa de desemprego é altamente influenciadora da decisão de voto, quer entre aqueles que perderam o seu posto de trabalho quer entre os que fazem parte do agregado familiar. O contrário também é verdade: na legislatura anterior, a taxa de desemprego foi reduzida para metade, tornando praticamente impossível uma derrota do PS. Saber, como sabemos hoje, que a pandemia destruiu muitos empregos e que ainda vai destruir mais no próximo ano, sem que exista uma ideia firme de quando será possível recuperá-los, diz-nos, de forma segura, que o PS sairá penalizado, em relação às intenções de voto que tem hoje, se não for capaz de inverter esta tendência, mas também sabemos que a tendência pode ser invertida.

É útil, portanto, fazer estudos em que se colocam os eleitores a responder a perguntas sobre intenções de voto, tendo por base cenários construídos com bases científicas, como é o caso da previsão de variações significativas na taxa de desemprego. De igual forma, o regresso da obrigação de cumprir os tratados orçamentais, exigência da Comissão Europeia na saída da crise atual, resultará em Portugal no regresso de alguma austeridade, e isso também influencia quer os apoios parlamentares a quem governa quer as intenções de voto numas eleições determinadas por uma crise política. São apenas dois exemplos.

Pretender antecipar o resultado de umas eleições que, pelo menos por agora, estão previstas para 2023 é um exercício quase tão válido como lançar os búzios ou procurar ler nas cartas o destino de cada um de nós. Mal se percebe porque é que há tanta gente que julga que há eleições todos os meses (periodicidade dos estudos de opinião).

Jornalista

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