Premium Temos tempo

Achamos que temos tempo mas tempo é a única coisa que não temos. E o tempo muda a relação que temos com o tempo. Começamos por não querer dormir, passamos a só querer dormir, e por fim a não conseguir dormir ou simplesmente a não dormir, antes de passarmos o resto do tempo a dormir, a dormir com os peixes. A última fase pode conjugar noites claras e tardes escuras, longas sestas de dia com um dormitar de noite. Disse-me um dia o meu barbeiro que os velhotes passam a noite acordados para não morrerem de noite, e se ele disse é porque é.

Estou a cortar nos sorvedouros de tempo, atrasar-lhes a hora. Conferências estéreis, pessoas chatas, reuniões inúteis, think tanks que são sink tanques, jantares e almoços de generalidades, fazer número, fazer alguns números, ser a carne do canhão do tempo dos outros, não fazer nada, papo para o ar, papar secas - está tudo em racionamento, entrou a troika do tempo. Só não cortei nas paradas militares porque nunca estive em nenhuma, nem vou estar em posição de estar. O Trump queria uma grande parada militar em Washington, mas também lhe cortaram as vazas, disseram quanto custava - 92 milhões - e o senhor desatou aos berros a dizer que era muito caro, que assim não brincava. E não devem ter contado o preço do tempo daquela gente toda naquele tempo todo ali, de um lado para o outro.

Em Portugal também gostamos pouco de contar o tempo, sobretudo em euros, como se fosse infinito o tempo; infinito o tempo de todos e infinito o tempo do país para sair da cepa torta. Em Portugal é tudo tempo infinito, temos tempo de lá chegar, por isso a energia nuclear e agora o petróleo não são opções, ou melhor são parte da opção de não querermos ir a lado nenhum (mesmo para ir a lado nenhum deve ir-se depressa, como na canção Nowhere Fast, dos Fire Inc.). E tudo isto, todo este tempo, faz que as pessoas se eternizem nos cargos, que não larguem o pedaço, para um pedaço melhor até porque há poucos pedaços melhores. E com leis a eternizar a idade da reforma, num país seniorárquico mais difícil será a renovação.

Em Portugal é tudo tempo infinito, temos tempo de lá chegar, por isso a energia nuclear e agora o petróleo não são opções, ou melhor são parte da opção de não querermos ir a lado nenhum.

Noutra seniorarquia, na siciliana, dormir com os peixes é a noite mais longa, e é o que se diz n'O Padrinho. Luca Brasi está a dormir com os peixes, quer dizer está morto de morte, morto porque o mataram. Luca Brasi agradece o convite que não esperava merecer para o casamento. O casamento de Connie é o que se passa ao ar livre, mas também no escritório de Vito, que aproveita o tempo do casamento para receber pessoas, distribuir encargos, tratar de assuntos. Kay, namorada de Michael, estranha Luca Brasi a ensaiar o agradecimento a Vito (ensaiar é gastar ou poupar tempo?). Vito, já a morrer, diz ao filho Michael que tentou, tentou que tudo ficasse legítimo, mas não houve tempo suficiente, não houve tempo suficiente.

Não podemos ganhar ao tempo, mas podemos ganhar tempo. Foi há uns anos, estava a ler a biografia do Pedro Arrupe, escrita pelo Miguel Lamet, um homem extraordinário na conjugação pragmática e determinada entre meios e fins, li que dormia pouco, cada vez menos. E fiz uma conta, que refeita hoje é deste modo: dormindo sete horas por dia estou 17 horas acordado. Com uma esperança média de vida de 78 anos já só me faltam 37. Isto quer dizer que se eu dormir menos meia hora por dia ganho 400 dias acordado de vida (um dia acordado são as 17 horas originais mais esta meia hora extra). Já ouvi todos os argumentos contrários (adoro dormir, dormir faz bem, é absolutamente necessário) mas o onirismo não é coisa que me convença perante mais um minuto acordado para ver o sorriso dos meus filhos. Sim, foi baixo e rude o golpe, implicando que quem está a dormir não gosta dos filhos, mas há casos em que a argumentação racional é um desperdício, como quando a escolha é estar acordado ou estar a dormir. E não chegando à esperança média de vida, e só em média é que cada um de nós lá chega, o que é uma grande chatice, faz que as horas acordadas sejam menos, mas com muito mais valor, voltando ao sorriso de uma criança, são mais sorrisos no dia de ir ter com os peixes.

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.