Os jovens mais velhos do mundo

Passei os olhos sem querer por um desse sites da internet que mostram curiosidades inúteis e fiquei sabendo que Elvis Presley, o rei do rock, morto em 1977 aos 39 anos, tem um neto, Benjamin, de 25, que é a sua cara. A prova disto estava nas duas fotos lado a lado. Em ambas, os mesmos olhos azuis, o mesmo topete de dois andares, a mesma boca farta e sensual e a mesma expressão de quem nunca leu Kierkegaard. Uma semelhança, de facto, espantosa.

Benjamin é o filho mais velho do primeiro casamento de Lisa Marie, única filha de Elvis e sua mulher Priscilla. Lisa, por sua vez, casou-se quatro vezes, uma delas com Michael Jackson, quando Michael (ou ela) estava distraído. Donde, pensando bem, não há nenhum espanto em Benjamin parecer-se com Elvis. Haveria, isto sim, se ele se parecesse com Michael Jackson.

Mas, realmente, há algo de intrigante na informação de que Elvis Presley é avô de um neto que, em idade tão avançada, já poderia tê-lo feito bisavô - se é que não fez. É que Elvis não parecia feito para ser avô. Desde que gritou "Wop-Bop-a-Loo-Bop-Lop-Bam-Boom!" lá em Memphis, em 1956, ele instaurou um regime na música popular em que tudo era permitido, exceto... ser velho. E por "velho" entendia-se qualquer música com mais de dois acordes e que não fosse produzida por um cantor de calças justas e uma guitarra elétrica. Ali começava uma ditadura da juventude, que chegaria ao apogeu nos anos 1960 e 1970, com o surgimento de milhares de grupos musicais formados por jovens bonitos, magrinhos, com longas melenas louras ou morenas e as mesmas calças justas.

Esse novo padrão foi tão avassalador que, num piscar de olhos, aposentou compulsoriamente pelo menos duas gerações de artistas consagrados e ainda em forma. Nos Estados Unidos, isso significou a perda do mercado para todos os grandes nomes de então - porque os auditórios, boîtes e gravadoras se fecharam para eles. Bing Crosby dedicou-se a jogar golfe. Tony Bennett foi demitido pela CBS. Doris Day encerrou a carreira. Sammy Davis Jr., Peggy Lee e Vic Damone se eclipsaram. O próprio Frank Sinatra, o cantor mais poderoso do mundo, decidiu "retirar-se" - fez isto por dois anos e, quando voltou, já não era o mesmo Sinatra. E nem era o mesmo mundo. Ficara proibido ter mais de 50 anos.

Décadas se passaram. Chegamos a 2018, e muitos daqueles jovens roqueiros bonitos, magros e cabeludos dos anos 1960 e 1970 estão até hoje em atividade. A diferença é que, agora, tornaram-se velhos, horrorosos, carecas e barrigudos - duvido que algum deles consiga entrar de novo naquelas calças - e, apesar disso, continuam se apresentando e lotando estádios pelo mundo afora. Mick Jagger e Keith Richard têm 75 anos - cada. Paul McCartney, 76. Bob Dylan, 77. Todos já são avós, bisavós ou coisa pior. Mas, a eles e aos seus colegas, foi permitido envelhecer e continuar trabalhando.

Também curiosamente, suas plateias nesses estádios são formadas por famílias compostas de três gerações dedicadas à mesma música. No passado, o normal e saudável era que cada geração - anticonformista, como se deve ser - se voltasse contra os valores da geração anterior, principalmente na música, e impusesse um novo ritmo, um novo pensamento, uma nova estética. Não mais. Pela primeira vez na história da música popular, os jovens de hoje não têm uma música só para eles. Gostam da mesma música que seus pais e avós gostavam, escutam os mesmos discos e vão todos juntos aos mesmos shows. São os jovens mais velhos do mundo.

Pensando bem, Elvis teve a sorte de morrer aos 39 anos, em 1977. A morte o conservou "jovem" para sempre. Mas isto não impede que seus netos comecem a se reproduzir e denunciar o facto de que, se ainda estivesse por aqui, ele teria completado, em janeiro último, a impossível, incompreensível e intolerável - para um rei do rock, claro - idade de... 80 anos.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros livros, Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova (Tinta da China).

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