Médicos, políticos, influentes: as elites goesas em Portugal

Bem antes de Costa liderar o governo, Goa já tinha aqui forte presença, com nomes como Alfredo da Costa ou Gama Pinto. Até hoje, há referências de sucesso que partilham essas origens.

Esta semana, quando a Índia celebrou os 71 anos de independência, o primeiro-ministro publicou no DN um artigo a enaltecer as relações entre os dois países no qual fez questão de recordar as suas origens indianas. "Nascido de pai goês, e, portanto, enquanto pessoa de origem indiana, o dia 15 de agosto reveste-se para mim de um simbolismo especial", escreveu António Costa no artigo, que mereceu o elogio do homólogo indiano, Narendra Modi.

Filho do escritor Orlando Costa e da jornalista Maria Antónia Palla, nascido em 1961 - cinco meses antes da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana -, António Costa é o primeiro com origens na antiga colónia portuguesa a chegar à chefia do governo. Mas está longe de ser o único ilustre português de origens goesas - que, independente das áreas de afirmação, têm em comum serem católicos convertidos e da casta brâmane, a elite.

Na política, na medicina ou na advocacia, a lista é extensa, alguns ainda estão no ativo, outros deixaram o nome gravado na história, como o ginecologista Alfredo da Costa, que deu o nome à principal maternidade do país, ou o oftalmologista Gama Pinto. Também o pediatra Mário Cordeiro é neto do goês Júlio Gonçalves, médico e oficial da Armada que presidiu à Sociedade Portuguesa de Geografia até morrer. Ao prestígio alcançado pelos goeses na área da saúde não é estranha a criação e manutenção de uma Escola de Medicina e de Farmácia em Goa, a única nas ex-colónias.

Uma aliança bem-sucedida

André Gonçalves Pereira, professor de Direito Administrativo, foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1981 e 82 nos governos de Francisco Pinto Balsemão - antes, em 1979, o já o desaparecido Bruto da Costa, também goês, tinha sido ministro de Maria de Lourdes Pintasilgo na pasta Coordenação Social e Assuntos Sociais. Para secretário de Estado da Cultura, Passos Coelho escolheu o goês Barreto Xavier; Abílio Fernandes, nascido em Moçambique de pais goeses, presidiu a Câmara de Évora durante 25 anos; Kalidás Barreto, resistente antifascista e fundador da CGTP, era filho do escritor goês Adeodato Barreto; Narana Coissoró, antigo deputado do CDS, nasceu em Goa mas nunca se converteu ao catolicismo; os jornalistas Ricardo Costa (irmão do primeiro-ministro) e Camilo Lourenço são descendentes de pais goeses; a atriz Rosa Lobato Faria era bisneta de um goês... Há também que recordar Sebastião Fernandes, que morreu no início do ano, uma referência da gastronomia goesa na capital, primeiro com o Cantinho da Paz e depois com o Nova Goa.

"Goa é um caso raro de uma cultura europeia e cristã com grande importância no Oriente", explica André Gonçalves Pereira, já aqui nascido depois de o pai vir, jovem, estudar Direito em Lisboa e por cá ficar. A explicação para este sucesso, e quem sabe para o êxito de muitos portugueses que lá nasceram ou lá têm origens, remete-o para a estratégia dos conquistadores. "Quando os portugueses lá chegaram já havia uma civilização, com duas forças em conflito, a hindu e a muçulmana. Afonso de Albuquerque e João de Castro intervieram a favor dos hindus, contra os muçulmanos, nossos inimigos seculares. Assim, os portugueses não aparecem tanto como conquistadores, mas como aliados, o que não sucedeu noutras colónias. Não chegámos como ocupantes, convivemos com uma civilização e por isso Goa era diferente de África."

Antigo chefe da diplomacia, Gonçalves Pereira ainda se lembra das palavras do primeiro-ministro de Goa, quando visitou a Índia, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo sido acolhido de braços abertos. Estava feliz por o receber depois de uma luta de 400 anos. Foi nessa viagem que visitou a grande casa senhorial da família, habitada pelas primas "que eram completamente portuguesas e assinavam o Diário de Notícias, que recebiam com 15 dias de atraso mas faziam questão de ler".

Naquela que foi a sua primeira deslocação à Índia - foi convidado pelo governo indiano para visitar o país e, entre outros locais, pediu que fosse incluída a ex-colónia - foi recebido pela então primeira-ministra Indira Gandhi. Desde então, encantado com esta civilização, o local passou a integrar os seus roteiros. "Goa é um exemplo de que fomos bem-sucedidos como aliados e depois sucedidos por gente civilizada, diferente do que aconteceu em África. Goa está cheia de ruas com nomes portugueses."

Em África conta-se também a passagem de emigrantes goeses, com particular apetência por Moçambique - por razões de proximidade. Mas há uma família que se destacou em Angola, os irmãos Valles: Sita, Edmar e Edgar. Sita viria a ser assassinada, juntamente com o marido, José van Dunem, na tentativa de golpe de estado de 1977.

Jogar ao berlinde com castanha de caju

Filho de pais goeses, Abílio Fernandes nasceu em Inhambane, para onde o pai emigrou à procura de uma vida melhor, contrariando assim a tendência dos goeses católicos que deixavam a Índia portuguesa para altos cargos na administração pública de Moçambique. O comunista que esteve 25 anos à frente da Câmara de Évora era filho de um empregado de farmácia, de uma casta inferior, e só pôde vir estudar para Lisboa graças aos esforços do pai.

Quando a II Guerra Mundial acabou, em 1945, tinha então 7 anos, Abílio pôs pela primeira vez os pés em Goa para conhecer os avós. Ficou um ano e fez lá a segunda classe. Desses tempos lembra-se das brincadeiras, de jogar à castanha de caju, que era quase a mesma coisa que jogar ao berlinde... Terminado o liceu, veio para Lisboa tirar Económicas, tendo sido contemporâneo de Cavaco Silva, com quem chegou a jogar e correr, nada mais. Mas foi ao lado do antigo colega de faculdade, então Presidente da República, que Abílio regressou à Índia, em 2007, integrado na delegação parlamentar.

As elites goesas emigravam para Portugal e Moçambique com lugares de destaque na administração

"As elites goesas emigravam para Portugal e Moçambique com lugares de destaque na administração. Eram pessoas de estudos, o que tem que ver com a estrutura social de Goa que a conversão ao catolicismo não alterou, e cuja característica fundamental são as castas - os brâmanes são a elite, os mais ricos", explica. Acrescentando que, ao criar a escola médica em Goa, o Estado português deu um grande impulso para as elites seguirem esta vocação, contribuindo com infraestruturas para as camadas mais ricas se formarem.

E para ilustrar a ascendência social dos brâmanes católicos, recorre a um dito local: "Costumava dizer-se que, se uma família brâmane tivesse três filhos, o primeiro seria médico, o segundo advogado e o terceiro padre. Para lhes tratar da saúde, depois dos direitos e por fim da alma."

Os casamentos mistos

Narana Coissoró é um caso à parte. Este hindu brâmane nasceu em Goa, mantém lá propriedades e, mesmo tendo casado com uma católica, nunca se converteu. Define-se como "um português com o coração em Goa". O ex-deputado do CDS não vê de forma tão linear o sucesso e a compensação dos brâmanes com altos cargos na administração pública.

Quando os portugueses chegaram, encontraram uma civilização letrada, mais do que a portuguesa

"As famílias faziam grandes investimentos para que os filhos viessem estudar, eram encargos muito grandes, tinha de haver um retorno." Mas, sublinha, Goa não tinha lugar para todos os licenciados, era preciso que emigrassem para Moçambique ou ficassem a fazer vida em Portugal, onde, aliás, a maioria tirava os cursos. Como ele próprio, que veio para Coimbra com 18 anos para estudar Direito.

A sua teoria para a integração do povo goês é simples: "Quando os portugueses chegaram, encontraram uma civilização letrada, mais do que a portuguesa."

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE - Business School e do IIM - Rohtak (Indian Institute of Management), acrescenta: "Quando os portugueses chegaram à Índia, escolheram o melhor local, que era o ponto das trocas comerciais. Goa contactava com comerciantes e marinheiros que vinham da Arábia, do Golfo, do Egito, para comprar e levar mercadorias até à Itália, que por sua vez as espalhava pela Europa. Não era um local terceiro-mundista, mas muito evoluído. Isso terá levado os portugueses a tratar os goeses de uma forma muito cuidada, pois não eram uns burgessos, analfabetos e preguiçosos, mas gente muito trabalhadora."

Viassa Monteiro refere ainda que foram levadas portuguesas à Índia para se casarem com goeses, o que resultou numa sociedade multirracial.

Mas nem todos os casamentos mistos foram assim. Um dos mais célebres é o de Edila Gaitonde com o médico Pundlik Gaitonde, um resistente ao domínio português na Índia. Autora de As Maçãs Azuis, esta açoriana diz ter sido a primeira portuguesa católica a casar-se com um hindu. A boda, nos anos 50, teve lugar no forte de Peniche, onde amigos de Pundlik - o primeiro representante hindu de Goa no Parlamento de Nova Deli depois da independência - estavam presos.

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