As famílias portuguesas emigrantes nos EUA separadas pela deportação: "Fazia mais cinco anos na cadeia para voltar"

Agora é a administração Trump que separa imigrantes. Mas há mais de 30 anos que famílias portuguesas são separadas, nos EUA. Pais que deixaram para trás filhos pequenos, obrigados a voltar aos Açores, deportados.

Filipe GarciaPaula Gouveia
José Costa, deportado nos Açores. | foto Eduardo Resendes
Francisco Aguiar, deportado nos Açores. | foto Eduardo Resendes

São duas histórias, mas podiam ser 1364. Este é o número total de deportados que voltaram dos EUA para os Açores, em pouco mais de 30 anos. Homens e mulheres que cometeram crimes, na América e que foram apanhados pela lei e deportados para os Açores. Histórias de vidas interrompidas no país que escolheram para viver ou para onde os pais os levaram pequenos, forçados a regressar à ilha onde nasceram, vindos dos Estados Unidos da América e do Canadá, mas também da Bermuda.

Com uma nacionalidade diferente daquela que sentem como sua, mas portugueses no papel, são obrigados - por não terem permanência legal no país para onde emigraram ou por terem cometido um crime com pena igual ou superior a um ano - a voltar a um país, a uma ilha, que já não lhes dizem nada. "Deram-me dois castigos", diz Francisco Aguiar, que dos 46 anos, passou dez numa prisão norte-americana. "Fazia mais cinco anos na cadeia para me deixarem voltar à América."

Apesar do nome, é com esforço que Francisco se expressa em português. Chegou há dois meses e meio a São Miguel, de onde saiu com os pais aos 5 anos. "Não tenho memória nenhuma daqui, nem nunca cá tinha vindo", diz sem conseguir disfarçar o sotaque "americanizado".

"Saí de uma cadeia para vir para outra cadeia", diz Francisco Aguiar,

Na ilha, onde "tudo é diferente", carrega o rótulo de repatriado. "Eu vejo como algumas pessoas olham para mim... Quando me veem, a minha maneira de andar, de falar, dizem logo: "Esse rapaz não é daqui. É repatriado." O que vestimos e como falamos é muito diferente. As pessoas sabem que somos repatriados", explica Francisco, inconformado com uma pena acessória que considera injusta.

"Já paguei pelo que fiz", diz o homem que deixou mãe e filha na única terra que conheceu como sua. Não é pois de admirar o desabafo: "Saí de uma cadeia para vir para outra cadeia.

Sobre o que o levou a esta situação não gosta de falar. Garante apenas que "se não fosse pelas drogas", não teria perdido a cidadania americana e hoje bem se penitencia por nunca se ter preocupado com isso.

Da vida que agora tem - apesar da violência da distância da família, da cultura e da geografia a que sente pertencer - quer torná-la numa nova oportunidade de "fazer tudo direito". "Não quero voltar à cadeia!"

Sem casa para onde ir nem família próxima que o possa ajudar a reintegrar-se, conta com a ajuda das associações - Novo Dia e Arrisca - que apoiam, no âmbito de protocolos com o governo regional, os deportados que chegam à ilha de São Miguel.

"Eu tenho uma cama para dormir e comida. Estou a ir à escola para aprender a escrever português. Estou a fazer tudo o que me têm dito para fazer", diz Francisco que, na ilha, até fez "amigos" entre os deportados, mas com quem não quer voltar a conviver. "Se vou andar com eles, vou ficar igual a eles. Não quero."

E a preocupação de Francisco é justificada. Nem todos os que chegam deportados à ilha, encaram a deportação como a oportunidade para uma nova vida. Há quem não deixe as drogas e faça das ruas a sua rotina diária. "Por uns pagam os outros." Os outros a que se refere são os que, injustamente, sentem o rótulo de repatriado que a comunidade lhes cola à pele e que esta associa à criminalidade, à violência, à indigência.

"As pessoas não compreendem a nossa situação", diz. Não quer parecer ingrato com todo o apoio que lhe tem sido prestado, mas está consciente das dificuldades que terá pela frente. "A única coisa com que fico ruim é que pegam em nós, mas não há trabalho. Há pessoas que estão cá há 10 e 20 anos e não conseguem arranjar trabalho. Se eles que estão aqui há muito mais tempo não arranjam trabalho, como é que eu vou arranjar? E há quem fale português melhor do que eu!", diz apreensivo, contando que, nos EUA, antes de ser preso, ganhava 31 dólares por hora a trabalhar na construção civil. "Sou açoriano como eles, mas para eles sou um apenas um repatriado", diz defendendo que contra a "injustiça" da deportação só Portugal pode agir. "O seu Presidente, de Portugal, não devia pegar na gente. Não devia aceitar.".

A segunda história é contada na primeira pessoa por José Costa. Cinco anos passaram desde a sua chegada aos Açores... e continua sem trabalho.

"Tenho tanto para oferecer", diz este homem de 54 anos que, nos Estados Unidos, cumpriu 11 no exército, foi chefe durante quase 30 na construção civil e, apesar de só ter o 12.º ano, fala várias línguas.

"Aqui encontro racismo. Sou açoriano, micaelense, mas para eles sou apenas um repatriado", lamenta com o olhar carregado de tristeza. "É preciso conhecer a pessoa primeiro."

À semelhança de outros deportados sem trabalho, sobrevive com 186 euros mensais de rendimento social de inserção e desses retira 30 para a renda, para a qual recebe também um apoio atribuído pelo Instituto da Segurança Social dos Açores (ISSA). "Estou a manter-me com isso, e de vez em quando tenho uma ajuda familiar", explica, deixando o apelo: "Gostaria que o país onde nasci me desse uma oportunidade."
Nos EUA desde os 7 anos, para onde partiu das Furnas, no concelho da Povoação, tem a mãe "muito doente", quatro irmãos, tios, os filhos que nasceram lá e duas netas que nunca conheceu.

"Tive uma grande vida. E vim para aqui sem nada", diz com mágoa José.

"Tive uma grande vida. E vim para aqui sem nada", diz com mágoa José, lembrando ser "muito difícil" ter sido "arrancado" da sua vida. "Senti-me vazio quando cheguei. Nunca pensei que ia chegar a este ponto."

A reviravolta chegou quando foi acusado por uma mulher de a ter ameaçado de morte. "Eu não queria mais a relação e ela, para se vingar, disse que estava com medo de mim", conta. Foi proibido por um juiz de a contactar. E o caso, "que é considerado violência doméstica", conduziu-o à perda do direito legal a permanecer no país.

"Tenho de "acartar" com a minha cruz diária", diz. "A minha filha casou-se e eu não a pude levar ao altar", "tenho um pequeno com 12 anos e está a ser criado sem o pai" e "tenho duas netas que nasceram lá e que conheço por uma foto", explica, a conter a emoção. "O meu pequeno está sempre a perguntar-me: "Pai, como é o teu país?" Adorava que viesse, mas ele não vem porque a mãe pensa que o vou roubar."

Resignado em ficar na terra onde nasceu, confessa que gostaria de obter autorização para visitar a família nos EUA. "Deixei lá muito de mim. Choro de dor e também de muita saudade. Aqui não tenho vida, não tenho ocupação. Passo o tempo a ler, a pesquisar, a refletir. Não tenho família, mas falo com muita gente e tenho encontrado boa gente da minha terra." Diz ter no pároco da Fajã de Cima um amigo e conta que já foi de romeiro com o rancho da paróquia.

Em busca de ajuda, conseguiu ser recebido por um representante do presidente do governo dos Açores, Vasco Cordeiro, e agora deixa um apelo. "Que o presidente da Região Autónoma dos Açores e o Presidente de Portugal façam todo o possível para travar esta separação de famílias."