Urbanidade

Falei quinta-feira na Royal Society of Chemistry, em Londres, para um grupo de médicos e de representantes de várias agências governamentais inglesas sobre canábis medicinal, e como pode o Reino Unido aprender com a nossa experiência legislativa. Nesta coisa da política de drogas Portugal tem tradição. No mesmo edifício, na Royal Academy of Arts, uma exposição do arquiteto italiano Renzo Piano. Teria tempo para lá voltar?

Depois, uma série de reuniões consecutivas, back-to-back meetings em inglês é bem mais sensual, parece que estamos com as costas encostadas uns nos outros, como se fôssemos ambos vigas de um edifício (as vértebras das vigas à mostra de Renzo Piano, uma sensualidade concreta), ou numa aula de ginástica num movimento elevatório, mas também não havia por ali assim costas por ali além. Uma correria a andar, notícias de casa consultadas à pressa no Twitter, o governo inglês a desfazer-se a cada hora. No metro, entre reuniões, lia o que vinha de Lisboa, alguém olhava muito para o meu telemóvel, eram os encapuzados do IRA. Ora encapuzados e IRA para um inglês é coisa séria. Podia ter explicado o pouco que sabia, que era um grupo de ativistas que resgatava animais maltratados, mas irra, IRA não ajudou nada a ser bem olhado na carruagem. Eu ri-me, ela riu-se por instinto mas sem convicção, bloquei o ecrã, e só esperei que não chamasse a polícia, o que não aconteceu, estou aqui para contar.

Numa das reuniões, a função mais importante (trazer cafeína aos corpos que tentavam trabalhar) era desempenhada por uma portuguesa, Sílvia, da zona de Vila Franca, que me topou logo, está nesta empresa há seis anos, gosta muito de Londres, o filho vai todos os dias à escola portuguesa, mas há portugueses que só levam dois dias por semana, eles não, falar português bem é muito importante.

Ainda não consegui perceber bem a história do IRA, e não sei se a Sílvia estaria a par, mas parece-me bem. Com o PAN tivemos o primeiro partido ecologista digno desses dois nomes em Portugal e estamos agora a ver que podemos também ter o primeiro partido radical com representação parlamentar. Eu a arriscar ser preso para lutar contra a injustiça talvez não começasse pelos cãezinhos e gatinhos dos Salamanos de Odivelas, mas isso sou eu e cada um sabe de si, e se é para termos partidos radicais, que tenham mesmo radicais nas suas fileiras. Claro que isto é uma afronta aos pseudopartidos radicais, betinhos, partidos que não partem um copo, vá uma ou duas invasões de call centres por precários, dois ou três sopapos em manifestações, mas esta malta dos animais foi mais longe e fez bem. Como dizem os bifes, bifes sem ofensa para ninguém, walkthe talk.

Claro que há problemas maiores no maltrato animal, e não sei se, pelas silhuetas que vi, lá no IRA estão preparados para pegar o boi pelos cornos. É que chegar a uma tourada e salvar o touro que está a ser agredido exige umas semanas de treino no aposento da moita. Mas isso é que talvez valesse a pena, mais do que usar o ativismo fiscal.

Eu queria ser a favor das touradas, queria muito, ou pelo menos não ser contra. Juro que queria. Queria desde logo porque acho que o mundo não avança com proibições, pelo contrário, avança com a certeza radical de que tudo o que não é proibido é permitido e pelo menos metade do que é proibido também. Por isso ser contra uma coisa que é permitida, achando que ela devia proibida, viola aquilo em que mais profundamente acredito.

Mas por mais que pense, por mais voltas que dê, por mais que leia, não encontro um único argumento que ultrapasse este: o mero prazer de um grupo de humanos não pode justificar o sofrimento de um animal. Estou longe de ter uma consciência ecologista desenvolvida, e de ser um defensor absoluto dos direitos dos animais. Sou um omnívoro convicto, como e continuarei a comer carne, peixe e marisco (ontem, as vieiras, deliciosas). Posso estar desperto para os problemas da produção animal, do seu bem-estar, da sustentabilidade e da segurança alimentar, mas nessa equação não tenho dúvidas. Respeito, e sobretudo ouço, o contrário, mas estou do outro lado. Consigo perceber a pesca e a caça que resultam em animais consumidos (embora não tenha nem tempo nem interesse em nenhuma delas). Mas quando de um lado está apenas prazer e do outro está apenas sofrimento, já escrevi aqui, não pode haver dúvida que aqui está uma barreira. E se nos outros binómios prazer-sofrimento tenho dúvidas, sobre os zoos e as suas jaulas, sobre as gaiolas e os canários, não tenho qualquer dúvida sobre a tourada e as suas farpas. E por isso é bom haver uma voz no governo com uma opinião clara sobre o assunto (falo de Graça Fonseca).

Todos evoluímos. Na exposição sobre Renzo Piano, o arquiteto fala sobre a sua arte num vídeo, e da necessidade de levar a urbanidade às periferias. O contexto estrito é o do fazer cidade, mas isto de levar mais longe o maior bem é um movimento que também deve acontecer nos nossos corações, um a um. E isto acontece mais depressa do que se pensa, mas é preciso ser inteligente na estratégia. Não basta hostilizar, ou talvez o melhor seja nem o fazer, talvez melhor falar de urbanidade do que de civilização. Todos somos um produto de camadas complexas, divergentes. Assisti na vida a inúmeras touradas, em Lisboa e em praças mais pequenas, algumas garraiadas e largadas, também na televisão. Os meus filhos vêm touradas na televisão, e muita gente que respeito muito tem outra posição.

Muitos falam de cultura, de tradição, de portugalidade. Mas eu hoje para cultura prefiro aprender como Renzo Piano pensou e desenhou o Centro Cultural Jean-Marie Tjibao, na Polinésia Francesa. E para portugalidade prefiro o poster da Royal Academy de uma exposição sobre arte portuguesa que lá esteve em 1956, ou ver Licor Beirão numa lista de vinhos de sobremesa de um bom restaurante em Londres (£8). Mas para portugalidade aquilo que eu prefiro mesmo é o doce sorriso da Sílvia.

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