Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

O poeta via a banheira como um lugar de recolhimento e meditação - mesmo que fosse a dois.

Alguém me falara de como Vinicius fazia do banho um ritual diário. Enchia a banheira com água muito quente. Munia-se de uísque, copo, gelo, cigarros, isqueiro, cinzeiro, telefone, jornais, revistas, livros, bloco, caneta, um sanduíche - e, quem sabe, um patinho de borracha -, e só então entrava na água. Podia passar horas ali, lendo, escrevendo ou falando ao telefone. Se alguém o procurasse, Vinicius o convidava a entrar e a compartilhar a banheira. Isso deve ter incluído as duas repórteres ou estagiárias, e que certamente não tinham aceitado - porque não cheiravam a sabonete ao passar por mim. Mas, atenção; não havia nada de sensual ou malicioso nesses convites de Vinicius. A banheira, para ele, era um local de recolhimento e meditação - mesmo que a dois, se fosse o caso. Ele não era nada agressivo quando se tratava de mulheres. Ao contrário, era um romântico - e chego a pensar que talvez gostasse mais do clima de sedução do que da ação propriamente dita.

Foi o que aconteceu quando ele manifestou vivo interesse pela gloriosa cantora Elizeth Cardoso, nos áureos tempos da boate Vogue, em Copacabana, em fins dos anos 1950. Elizeth percebia as intenções de Vinicius, mas, por mais que o admirasse e amasse como poeta, compositor e amigo, ele não correspondia às suas preferências quando se tratava de homens. Elizeth, apenas 160 centímetros acima do nível do mar, gostava de homens altos, esguios, morenos, bonitos e não fazia particular questão de que fossem muito inteligentes - de inteligente, já bastava ela. Vinicius, ao contrário, era baixinho, rechonchudo, rosadinho, olhos azuis, e um génio. Foi o que ela disse a um amigo comum, o qual a aconselhou: "Elizeth, na próxima vez que ele lhe fizer um convite, aceite. Mas diga que tem de ser naquele exato momento!"

O desfecho se deu naquela mesma noite, na Vogue, que ficava no térreo de um hotel. Vinicius se insinuou e Elizeth lhe respondeu: "Está bem, Vinicius. Mas tem de ser agora. Vamos subir já!" E Vinicius, chocado: "Mas, Elizeth, para que esta pressa??? Ainda é cedo... Vamos primeiro tomar um uisquinho e...". E Elizeth, firme: "Não. É agora ou nunca!" Foi nunca.

Vinicius casou-se oito ou nove vezes. O número é impreciso porque seu primeiro casamento, com a admirada Tati, foi interrompido pelo breve casamento com Regina Pederneiras e depois retomado. Então Tati conta uma ou duas vezes? Pode pensar-se que quem se casou tanto foi um lascivo, um devasso, não? Mas, no caso de Vinicius, não foi nada disso. Ele não era de aventuras extradomésticas - Elizeth seria uma exceção -, e só trocava de mulher porque, quando um casamento começava a dar sinais de estagnação, deixava-se apaixonar irremediavelmente por outra. Vinicius só admitia viver em permanente estágio de paixão. Acredito que todas as suas mulheres entenderam isso - pelo que sei, todas continuaram suas amigas, nenhuma lhe guardou rancor.

Vi Vinicius pela última vez no réveillon de 1980. Foi na ilha Grande, perto de Angra dos Reis, na Costa Dourada do Rio. Era um grupo grande de cariocas, do qual fazíamos parte. Em certo momento, na praia, Vinicius nos convocou para apresentar Gilda, sua nova mulher. E foi absolutamente preciso na apresentação. Disse: "Aqui, Gilda. Minha viúva." Seis meses depois, em junho, morreu no Rio, em sua casa na Gávea, de um edema pulmonar.

E onde? Na banheira, onde entrara de madrugada, para relaxar.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova (Tinta da China).

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