Premium As "provas" contra Bruno de Carvalho e Mustafá que o juiz ignorou

Na acusação que deduziu, o Ministério Público apresenta o ex-presidente do Sporting e o líder da Juventude Leonina como mandantes e instigadores do ataque aos jogadores. "Façam o que quiserem", terá dito Bruno de Carvalho.

O Ministério Público (MP) pediu a prisão preventiva de Bruno de Carvalho e de Nuno Mendes (Mustafá), líder da Juventude Leonina. O juiz de instrução criminal do Barreiro recusou, por falta de indícios fortes sobre os crimes.

Mas o MP diz estar sustentado por várias atitudes, comentários a criticar os jogadores, apoio à "escalada de violência" da claque, até ao ceder à sugestão da "visita" a Alcochete.

"Façam o que quiserem", é a frase-gatilho que o MP alega que o ex-presidente do Sporting disse numa reunião com Mustafá e outros membros da Juve Leo. Isto numa altura em que, segundo o MP, havia um clima de enorme animosidade da parte do ex-dirigente do clube (acusado de 97 crimes) em relação aos jogadores.

Eis o mais importante que o MP tem contra Bruno de Carvalho:

Escalada de violência

1 - A "escalada de violência foi apoiada pelo ex-presidente do Sporting", que manteve vários "contactos pessoais e privilegiados com o líder da Juve Leo, mantidos, por vezes, no gabinete do próprio ex-presidente Bruno Carvalho, designadamente nos casos em que o SCP era derrotado e a claque protestava e reclamava ações concretas, designadamente o afastamento de jogadores e elementos da equipa técnica";

2 - Numa publicação no seu Facebook, Bruno de Carvalho chamou "meninos mimados" à equipa, na sequência da derrota com o Atlético de Madrid, a 5 de maio deste ano, ameaçando suspender todos os jogadores;

3 - Tais afirmações "visavam determinar os adeptos à prática de ações violentas contra os jogadores e a equipa técnica", o que Bruno de Carvalho "pretendia, dado que há muito que existia um conflito aberto" entre ele "e alguns jogadores do clube, designadamente Rui Patrício, William Carvalho e Acuña";

4 - O ex-presidente do Sporting sabia que "tais comentários potenciavam um clima de animosidade, que já existia entre a Juve Leo, designadamente os ora arguidos e alguns elementos do subgrupo Casual, também arguidos, por um lado, e os jogadores e a equipa técnica, por outro, a pretexto dos resultados desportivos da equipa profissional de futebol";

Animosidade e crispação

5 - O clima de "profunda animosidade e de crispação crescente nos adeptos ligados à Juve Leo" levou a que Bruno de Carvalho marcasse uma reunião com Mustafá no dia 7 de abril de 2018, na sede da claque. Além dos dois, estiveram presentes vários membros do staff de Mustafá. Na reunião foi discutido o comentário do presidente no Facebook. Alguns dos adeptos, "indignados com os resultados da equipa de futebol", sugeriram "visitar" os jogadores na academia em Alcochete, o que bem sabiam que não lhes era permitido pelas normas do clube e pelo treinador Jorge Jesus, porquanto os treinos eram realizados à porta fechada e o ambiente existente entre claques e jogadores desaconselhava de todo investidas - visitas - à academia do SCP em Alcochete";

6 - Contudo, Bruno de Carvalho, "bem sabendo que os treinos se realizavam à porta fechada e que o ambiente de insultos e crispação entre o presidente da Juve Leo, Nuno Mendes, e o seu staff mais próximo e jogadores e elementos da equipa técnica só poderia agravar a situação do clube e pôr em causa a integridade física dos jogadores, acabou por ceder às exigências dos ora coarguidos, determinando-os também à prática de atos que bem sabia que poriam em causa a vida e a integridade física dos jogadores, respondendo-lhes quanto à ida à academia de Alcochete"... "Façam o que quiserem!";

7 - Desde então, pelo menos 41 adeptos (agora arguidos) "seguros da instigação à prática de ameaças, agressões e outras ações violentas por parte do ex-presidente Bruno de Carvalho, do arguido Nuno Mendes e do arguido Bruno Jacinto, agruparam-se e organizaram-se por forma a concretizarem tais ações contra os jogadores";

8 - Os jogadores foram convocados para uma reunião no dia 14 de maio, pelas 18.00 (a invasão da academia foi a 15). Nessa reunião, Bruno de Carvalho dirigiu-se ao jogador Acuña e disse-lhe: "Acuña, porque fizeste aquilo ao chefe da claque? Logo ele. Tenho um problema tremendo, estiveram a ligar-me a noite toda, os gajos da claque, a dizer que te queriam apanhar, queriam a tua morada... tenho um problema tremendo, vou tentar resolver a situação" e acrescentou "que tinha passado toda a noite a receber telefonemas de elementos da claque que pretendiam também saber as matrículas dos jogadores". Acunã terá chamado "filhos da puta" aos membros da claque que o insultavam depois da derrota na Madeira.

Plano de ação violenta

9 - Na sequência destas reuniões e de "desavenças permanentes" entre Bruno de Carvalho e os jogadores de futebol e os elementos da respetiva equipa técnica, o líder da claque Juve Leo, Nuno Mendes, e o ex-presidente do SCP Bruno de Carvalho determinaram os demais arguidos a levar a cabo uma ação violenta contra os jogadores e elementos da equipa técnica do Sporting Clube de Portugal, a concretizar-se no dia 15 de maio de 2018, na academia do SCP em Alcochete";

10 - À medida que a Juve Leo "se reforçava, aumentando a sua capacidade de influência junto de outros adeptos do subgrupo Casuals, e com a total concordância de Bruno Carvalho, "torna-se cada vez mais clara a orientação agressiva da respetiva claque, traduzida na apologia permanente da violência contra os jogadores e elementos da equipa técnica, mediante utilização de tochas, paus, bastões, com vista a fomentar os estados de espírito antijogadores";

11 - O "plano delineado" visava "ofender corporalmente todos os jogadores e elementos da equipa técnica, privá-los da liberdade, ameaçá-los, bem como destruir-lhes os seus veículos, que sabiam ser de alta cilindrada e de elevado valor patrimonial". ​​​​​​Plano esse "há muito difundido" por Bruno de Carvalho "através dos posts que publicou no Facebook e das reuniões que manteve com o líder da claque Juve Leo, Nuno Mendes, e respetivo staff, bem como com os jogadores e elementos da equipa técnica";

12 - Assim, Bruno de Carvalho "determinou aos elementos da claque a prática de ações violentas contra os jogadores, treinador e restantes elementos da equipa técnica";

13 - Os 41 arguidos que se deslocaram, em grupo, à academia de Alcochete "agiram com o propósito concretizado de molestar fisicamente os ofendidos, como fizeram, provocar-lhes medo e receio pela sua integridade física, o que quiseram e conseguiram, e, enquanto ali se mantiveram, quiseram privar todos os ofendidos da liberdade, impedindo-os de se movimentar ou fugir, como conseguiram";

14 - Tais atos foram executados "de acordo com as diretivas" de Bruno de Carvalho, juntamente com Nuno Mendes e Bruno Jacinto, os quais os determinaram à prática dos referidos atos".

Para o MP esta descrição sustenta a acusação que fez contra Bruno de Carvalho, pela prática de 40 crimes de ameaça agravada, 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada, 38 crimes de sequestro - crimes classificados como terrorismo.

As "provas" contra Mustafá

Vários dos indícios descritos pelo MP coincidem com os de Bruno de Carvalho, acima referidos.

1 - Desde que assumiu a liderança da Juve Leo, Nuno Mendes "passou a ser o suporte institucional que o grupo mais radical de adeptos do SCP decidiu utilizar para viabilizar o prosseguimento das atividades criminosas a que se propunham e que se traduziam na prática de agressões e outras ações violentas, designadamente no lançamento de tochas durante os jogos, agressões a adeptos rivais e a elementos das forças de segurança";

2 - Liderados por Nuno Mendes, "todos os arguidos" tinham "o propósito de concretizar ações violentas contra número indeterminado de adeptos de clubes rivais, geralmente na via pública, provocando situações de guerrilha urbana, ou seja, ataques em grupo, criando assim um clima de terror e pânico nos dias dos jogos, práticas também defendidas, executadas e previamente planeadas entre a Juve Leo e o subgrupo Casuais;

Difamação contra os jogadores

3 - Nuno Mendes e todo o seu staff iniciaram uma campanha de difamação contra os jogadores, proferindo frases insultuosas durante os jogos e por todo o clube, contra os mesmos, exigindo ao ex-presidente Bruno de Carvalho uma reunião urgente com o propósito de afastarem alguns jogadores;

4 - Nuno Mendes "fomentou" um clima de "profunda animosidade e de crispação crescente nos adeptos ligados à Juve Leo face aos resultados do clube e às publicações do ex-presidente Bruno de Carvalho";

5 - Numa reunião entre os jogadores com o então presidente do SCP, William de Carvalho confrontou-o "com o facto de este ter mandado o líder da claque, Nuno Mendes, partir os veículos dos jogadores". Bruno de Carvalho liga a Mustafá e com o telefone em alta voz pergunta-lhe diante de todos os presentes: "Mustafá, diz lá ao Williamzinho se alguma vez te mandei partir os carros dos jogadores ou bater em alguém", ao que este, "como seria de esperar, respondeu negativamente";

Poder a crescer

6 - O relacionamento com Bruno de Carvalho "aumentava o poder crescente" de Mustafá, que assumia "todas as decisões", designadamente para a utilização de material pirotécnico, como está descrito numa conversa entre os arguidos. "Vou ver o que o Musta diz", terá afirmado um dos arguidos sobre as dezenas de tochas que terão sido utilizadas no jogo que decorreu entre o Sporting Clube de Portugal e o Futebol Clube do Porto, a 18 de abril de 2018;

7 - "Seguros da instigação à prática de ameaças, agressões e outras ações violentas por parte do ex-presidente Bruno de Carvalho, do arguido Nuno Mendes e do arguido Bruno Jacinto", os arguidos "agruparam-se e organizaram-se por forma a concretizarem tais ações contra os jogadores";

8 - Foi assim que em data anterior a 5 de maio de 2018, sob as ordens de Nuno Mendes, alguns dos arguidos adquiriram número indeterminado de tochas que transportaram para a sede da Juve Leo, "com o propósito de as utilizarem como arma de arremesso e agressão contra os jogadores";

Tochas contra Patrício

9 - As tochas foram escondidas na sede e depois colocadas sob os bancos do setor do estádio atribuído à claque Juve Leo;

10 - No dia 5 de maio de 2018, no início do jogo entre o Sporting e o Benfica, realizado no Estádio José de Alvalade, em Lisboa, os adeptos da Juve Leo, entre os quais alguns dos arguidos, "sob orientação direta" de Nuno Mendes, "taparam-se com a bandeira principal da claque e colocaram na cabeça balaclavas e golas por forma a não serem identificados". Depois de Mustafá se ter dirigido ao local onde se encontrava Bruno de Carvalho, o líder da claque, "com a autorização do presidente, deu ordem para que fossem lançadas sobre o guarda-redes Rui Patrício número indeterminado (pelo menos dezenas) de tochas acesas, com o propósito de agredir o jogador em várias zonas do corpo, impedindo-o de continuar em campo e defender a baliza";

11 - Nuno Mendes fazia parte de um grupo de WhatsApp em que vários dos arguidos ameaçavam e sugeriam violência contra os jogadores. Depois da derrota na Madeira, a 14 de maio, Mustafá falou com Bruno Jacinto e Fernando Mendes, dizendo-lhes: "Já falei com o presidente e ele disse-me 'desta vez façam o que quiserem aos jogadores'" e que o presidente tinha informando "que Jorge Jesus já não era treinador do SCP";

12 - Na sequência das desavenças, Nuno Mendes e Bruno de Carvalho "determinaram os demais arguidos a levar a cabo uma ação violenta contra os jogadores e elementos da equipa técnica do Sporting Clube de Portugal, a concretizar-se no dia 15 de maio de 2018, na academia do SCP em Alcochete";

13 - Mustafá e os elementos do seu staff "visavam com os comportamentos acima descritos suscitar, como suscitaram, nos restantes adeptos das claques, um ambiente de profunda hostilidade contra os jogadores e elementos da equipa técnica e persuadir, como persuadiram, quer os elementos das claques quer o ex-presidente do clube, Bruno de Carvalho, à tomada de medidas drásticas contra os jogadores e elementos da equipa técnica, por forma a afastá-los do clube";

14 - "Na prossecução de tal desígnio", Mustafá e os demais elementos do seu staff decidiram levar a cabo um ataque aos jogadores e elementos da equipa técnica, na academia do SCP;

15 - Para se deslocarem à academia, quatro dos arguidos utilizaram uma carrinha da Juve Leo, com autorização de Mustafá;

16 - Nuno Mendes nada fez "para impedir a prática de tais atos violentos contra os ofendidos, tanto mais que durante as reuniões em que estiveram presentes criticaram sucessivamente os jogadores, potenciando um clima de violência contra os mesmos que se foi instalando no seio da claque Juve Leo e no subgrupo Casuais";

A droga

17 - No dia 11 de novembro último, no âmbito das buscas à sede da Juve Leo - conhecida como Casinha -, foi encontrada numa divisão, a que só Mustafá e a sua mulher tinham acesso, cerca de 16 gramas de cocaína (quantidade que já é considerada como tráfico), dentro de um frasco de vidro com arroz;

18 - Na sede foi também apreendido haxixe, "que foi lançado para o solo por vários indivíduos não identificados".

Nuno Mendes está indiciado pelos mesmos crimes que Bruno de Carvalho, somando o de tráfico de estupefacientes.

Ambos foram acusados pelos mesmos crimes que os arguidos que estão em prisão preventiva, mas o juiz de instrução criminal decidiu aplicar-lhes outras medidas de coação: apresentações diárias na esquadra da sua área de residência e 70 mil euros de caução.

Apesar de ter pedido ao tribunal que também ficassem em prisão preventiva, na acusação o MP recua e pede que "aguardem os ulteriores termos do processo na situação em que se encontram".

*Por lapso, a primeira parte deste trabalho não foi publicada na versão em papel. Por isso pedimos desculpa aos leitores.

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