A verdade numa curva da estrada

Um biógrafo destruiu uma lenda de 32 anos sobre a morte de Bessie Smith. Para isto servem os biógrafos.

Todos os fãs de jazz conhecem essa história. Na madrugada de 26 de setembro de 1937, a cantora Bessie Smith, 43 anos, famosa como "a imperatriz do blues", estava a bordo de um Packard dirigido por seu namorado, Richard Morgan, numa estrada mal iluminada entre os estados do Tennessee e do Mississipi, no Sul dos Estados Unidos. De repente, numa curva, Morgan viu surgir à sua frente um caminhão e não teve tempo para se desviar completamente. Entrou pela traseira do caminhão. Não sofreu nada, mas Bessie foi atingida em cheio e atirada inconsciente para fora do carro.

Outro carro que vinha atrás presenciou tudo e seus dois ocupantes desceram para ajudar. Um deles era um cirurgião, Dr. Hugh Smith, sem parentesco com Bessie. Ele a atendeu como pôde á beira da estrada, enquanto seu amigo correu a Clarksdale, a cidade mais próxima, para conseguir uma ambulância. Todo o lado direito de Bessie fora atingido e seu braço, que provavelmente estava para fora da janela, quase decepado. Enquanto isso, um terceiro carro que vinha em velocidade, trazendo um casal, acertou por trás o carro vazio do médico e o atirou contra o de Bessie, destruindo-o. Ninguém se feriu, mas os carros passaram a poucos metros do corpo de Bessie estendido no chão.à

Duas ambulâncias chegaram - 25 minutos depois. E, então, segue-se a história que todos pensam conhecer. Bessie teria sido levada para um hospital branco de Clarksdale, que se recusou a atendê-la por ela ser uma mulher negra. Na confusão, e com Bessie perdendo muito sangue, não houve tempo para transferi-la para um hospital que a aceitasse, e Bessie morreu a bordo da ambulância. Isto foi contado aos jornais no dia seguinte por John Hammond, produtor dos discos de Bessie na gravadora Columbia, homem largamente respeitado como o descobridor de Billie Holiday e Count Basie e por sua identificação com os jazzistas negros.

Pelos 32 anos seguintes, ninguém contestou essa versão. E, pelo facto de a história se ter passado numa das regiões mais racistas dos Estados Unidos, nem havia por que contestá-la. Baseado nela, o teatrólogo Edward Albee escreveu em 1959 uma peça de um ato, A Morte de Bessie Smith, corroborando-a. E assim se consolidou uma das mais tristes lendas do jazz.

Suponha agora que não tenha sido bem assim. Como vimos, as duas ambulâncias levaram 25 minutos para chegar - foi quase o tempo que o amigo do Dr. Smith levara para chegar a pé a Clarksdale. Uma delas pertencia ao G.T. Thomas Afro-American Hospital --- um hospital negro; a outra, a um hospital branco na mesma cidade, que se juntara à primeira ambulância sem saber a cor da vítima. Bessie foi levada ao G.T. Thomas e atendida imediatamente. Mas seu estado, resultado de inúmeros ferimentos, era crítico. Não foi possível salvá-la. Morreu de manhã no hospital. Esta foi a verdade.

E como se sabe que foi assim? Porque um biógrafo de Nova Iorque, Chris Albertson, levou boa parte dos anos 1960 dedicando-se a investigar a vida de Bessie em função de um livro que pretendia escrever. Para isto, uma das tarefas a que se propôs foi a de ir ao exato ponto da estrada onde se dera o acidente e procurar todos os sobreviventes. Conseguiu localizar o Dr. Hugh Smith e o seu amigo, Henry Broughton, além dos motoristas das ambulâncias e o casal do carro que os abalroara. Todos contaram a mesma história. Sabendo-se como eram as coisas naquela região do sul dos Estados Unidos, nunca houve dúvida sobre para qual hospital levar Bessie. Ela só poderia ir para o G.T. Thomas. Um exame dos registos de internações no hospital naquela noite confirmou tudo. A história contada por John Hammond - que não presenciara o acidente - era mais interessante. Mas não era a verdade.

Bem, para isto servem os biógrafos - para tentar estabelecer a verdade. No Brasil, até há pouco, uma disposição introduzida no Código Civil nos anos 1990 obrigava a que os biógrafos tivessem de pedir a autorização dos biografados para poder escrever sobre eles. Na prática, isso era uma censura porque, se não gostasse do livro a seu respeito, o biografado poderia processar o autor, a editora e o próprio livro, fazendo que ele fosse retirado do mercado e destruído. Isso aconteceu com o livro Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo Cesar de Araújo. Numa das batalhas judiciais mais sórdidas de que se tem notícia, o livro de Paulo Cesar - um livro de admirador, reverente ao artista e sem nenhuma revelação sensacional - teve sua edição de 40 mil exemplares recolhida e, parece, entregue ao cantor. Houve uma grita nacional contra este absurdo. Em 2013, a favor de Roberto Carlos - ou seja, a favor da censura -, colocaram-se Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Erasmo Carlos e Djavan.

Começou então a batalha entre nós, os biógrafos, que queríamos independência para trabalhar, e esses artistas tão ciosos de sua imagem. A luta levou dois anos, com a opinião pública a favor dos biógrafos e contra a atitude truculenta daqueles artistas. Mas foi finalmente resolvida em 2015, com o parecer da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, a favor de que a história do Brasil pudesse ser contada sem que tivéssemos de perguntar - fosse ao Chico Buarque, ao Neymar ou aos torturadores da ditadura brasileira - se eles permitiam que escrevêssemos sobre eles.

Ah, sim, Chris Albertson, autor do livro Bessie, de 1972, que contou a verdade sobre a tragédia da grande artista, morreu na semana passada em Nova Iorque. Tinha 87 anos. Todos nós, biógrafos e leitores, lhe devemos um grande trabalho.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha (Tinta-da-China).

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