A nova ordem sexual

A atriz americana Alyssa Milano apelou a uma "greve ao sexo". Ou como as imagens que usamos são sempre a ilustração daquilo que pensamos e do que não sabemos (ou não queremos) pensar.

A significação de uma imagem não obedece a uma qualquer lei universal: é mesmo um fenómeno multifacetado que pode expor profundas clivagens entre um cidadão e outro cidadão. Creio que a imagem posta a circular pela atriz americana Alyssa Milano - um "X" com uma hashtag apelando a uma "greve ao sexo" - pode servir de exemplo modelar da energia diferenciadora daquilo que vemos.

Nenhuma imagem existe (e significa) fora de um contexto. Esta surgiu nos EUA, numa conjuntura política muito particular, decorrente de uma proposta legislativa de Brian Kemp, governador do estado da Geórgia, criando um novo enquadramento para a interrupção voluntária da gravidez: de acordo com a respetiva formulação, as mulheres só poderão abortar até às seis semanas de gestação.
Que fez, então, Milano? Discordando da lei de Kemp, colocou no Twitter esta imagem, sobrepondo-lhe a sua hashtag e acrescentando, em rodapé: "Se as nossas escolhas são negadas, também as vossas." Entenda-se: as escolhas sexuais das mulheres mobilizam-se contra as escolhas sexuais dos homens.

O tweet é completado pelas seguintes frases: "Os nossos direitos de reprodução estão a ser rasurados. Até que as mulheres tenham controlo legal sobre os seus próprios corpos, não podemos mesmo arriscar a gravidez. JUNTEM-SE a mim não fazendo sexo até recuperarmos a nossa autonomia corporal. Convoco uma #GreveAoSexo. Passem palavra."

No plano legislativo, é minha convicção que a possibilidade da interrupção voluntária da gravidez constitui um direito inalienável das mulheres. Apesar disso (aliás, precisamente por causa disso), fico perplexo com o facto de uma militância deste teor favorecer o entendimento das relações sexuais como uma entrega unilateral em que há uma pessoa (mulher) que se dispõe, ou não, a conceder a outra pessoa (homem) algo que só faz sentido em função do respetivo enquadramento legal.

Não sei se a atriz teve consciência, nem que fosse por provocação mediática, do facto de a sua mensagem visual integrar um gigantesco "X" que pode ser também associado à designação corrente das imagens pornográficas. Não a censuro por isso (atualmente, toda a iconografia, a meu ver brilhante e sofisticada, do novo álbum de Madonna, Madame X, envolve uma apropriação da mesma letra). Pergunto apenas até que ponto a sua intervenção pública corresponde a um discurso minimamente pensado.

Milano consegue a proeza, a meu ver nada invejável, de tentar defender um direito das mulheres como se os respetivos fundamentos estivessem não na defesa da dignidade de qualquer ser humano, mulher ou homem, mas na maldade congénita dos homens. Dir-se-ia o triunfo de uma nova ordem sexual: o sexo não passa de uma transação, só possível se, à partida, o homem se reconhecer como agente potencial de uma agressão.

Provavelmente, Milano considera que nos EUA as tentativas de alteração, ou mesmo de anulação, da formulação legal do direito à interrupção voluntária da gravidez são produto (apenas e só) de mentes masculinas. Embora sem qualquer recurso estatístico para o provar, creio que ela se engana: o aborto é (continua a ser) um tema que não opõe apenas mulheres a homens, mas também mulheres a mulheres, homens a homens.

O que mais me perturba neste não reconhecimento das muitas fraturas de que (também) se faz uma sociedade é o propósito, militantemente repetido, de tentar formular as delicadas questões afetivas e identitárias que o aborto pode envolver sem que haja um sinal, um breve momento, em que se tente apontar para outra possibilidade de reflexão. A saber: a consolidação de formas de responsabilização (de homens e mulheres) que favoreçam a redução do número de casos em que a possibilidade do aborto surja como alternativa. Ou ainda: como falar do aborto sem avançar uma palavra, ténue que seja, sobre educação sexual?

Este é também um tempo em que muitas reflexões sobre os direitos das mulheres surgem parasitadas pelo apelo a um conflito mais ou menos gritado entre "prós" e "contras". Tal lógica só tem servido para desvalorizar a intensidade, e também o indizível intimismo, que uma relação entre uma mulher e um homem pode envolver. Neste contexto, sejamos realistas, Alyssa Milano não passa de um sintoma.

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