"Na África do Sul relação entre negros e brancos é melhor do que nos EUA"

John Carlin, ex-correspondente na África do Sul, autor do livro que deu origem ao filme Invictus, de Clint Eastwood, está em Lisboa, a participar nas comemorações do centenário de Nelson Mandela, que hoje se assinala.

Carlin, de 62 anos, tem participado nestes dias em várias conferências organizadas pelo Academia de Líderes Ubuntu do Instituto Padre António Vieira. Natural de Londres, filho de pai escocês e mãe espanhola de Madrid, o jornalista viveu em vários países, para além do Reino Unido. Na Argentina esteve entre os 3 e os 10 anos de idade, em Espanha, mais propriamente na Catalunha, viveu 15 anos. Nicarágua e EUA são outros dos países onde trabalhou.

Foi na África do Sul, porém, que conheceu Nelson Mandela. Aí foi chefe da delegação do jornal britânico The Independent, entre 1989 e 1995. Nome assíduo nalguns dos maiores jornais mundiais, como o The Times ou o Financial Times, foi até outubro do ano passado colaborador do El País, de onde saiu após ter escrito um artigo crítico do governo espanhol por causa da Catalunha no The Times. Passou-se depois para o catalão La Vanguardia.

Em Portugal para participar nas comemorações do centenário de Mandela, que hoje se assinala em todo o mundo, o jornalista britânico estará hoje na conferência Mandela, Inspiração para os Construtores de Pontes, no Auditório Montepio, em Lisboa, entre as 14.00 e as 18.30.

Autor de artigos sobre política, escreve também sobre desporto, sobretudo futebol e ténis. Sobre o herói da luta contra o apartheid na África do Sul e líder histórico do ANC, Carlin escreveu os livros Invictus - Conquistando o Inimigo e O Sorriso de Mandela. Em entrevista ao DN, confessa que desde a primeira vez que viu Mandela, em 1990, soube que "estava perante o maior líder político que alguma vez tinha visto ou que alguma vez iria ver em toda a minha vida".

Qual é a sua melhor memória de Nelson Mandela?
É difícil escolher. Mas houve um momento, que foi no dia a seguir à libertação dele. Na noite anterior [de 11 de fevereiro de 1990] ele tinha feito um discurso que achei muito fraco. Foi na Cidade do Cabo. Era cedo. Deviam ser aí umas sete da manhã. Havia jornalistas de todo o mundo. A maioria eram jornalistas famosos nos seus países. Quando a conferência de imprensa acabou - durou aí uns 47 minutos - sabia que estava perante o maior líder político que alguma vez tinha visto ou que alguma vez iria ver em toda a minha vida. Primeiro por causa da forma como ele chegou, como andava, era a de um rei por natureza. Depois por causa da clareza que ele tinha no discurso, a qual não demonstrara na noite anterior. Eu perguntei-lhe como é que ele, com a herança do apartheid, ia negociar a transição para a democracia? Era uma pergunta complexa que requeria uma resposta longa, mas ele respondeu, muito sucintamente: "O que temos de fazer é encontrar uma fórmula que reconcilie o medo dos brancos com as aspirações dos brancos." Saiu tão limpo, tão claro, direto ao essencial. Em terceiro lugar o facto de ele não excluir o seu inimigo. Nessa conferência de imprensa tínhamos de dizer o nosso nome e o meio de comunicação que representávamos. Assim fizemos. Até que chegou a vez de um africâner, que pôs a mão no ar e se apresentou como editor de política do Die Burger, jornal que apoiava o regime do apartheid. Não me recordo o nome dele com precisão. Nós congelámos e ficámos a pensar como é que Mandela ia responder. Houve uma pausa. Tensão. Até que Mandela abriu o seu enorme sorriso e disse: "Muito gosto em conhecê-lo. Há muitos anos que o leio com muito interesse." Foi magnífico. Isso marcou o tom com que ele iria lidar com os seus inimigos nos quatro anos seguintes. Isto aconteceu numa altura em que a maior parte da população africâner achava que o governo [de Frederik de Klerk] tinha enlouquecido para o libertar. Tinham sido programados para achar que ele era uma espécie de Osama bin Laden sul-africano e depois, passados uns anos, esse Osama bin Laden transformou-se em alguém que os seus inimigos passaram a admirar. No final da conferência de imprensa, em que os jornalistas já eram muito experientes e cínicos, muito difíceis de impressionar, todos aplaudiram. Nós fizemos aquilo que não podemos fazer. São as nossas regras sagradas. Mas ali o ser humano ultrapassou o jornalista e não nos conseguimos conter. Todos aplaudiram.

Quando olha para a África do Sul e para o mundo em geral acha que o legado de Mandela tem sido seguido?
Vemos as pessoas a construir trincheiras, em vez de pontes, que as aproximem umas das outras. Vemos os EUA, vemos [Vladimir] Putin na Rússia, vemos [Recep Tayyip] Erdogan na Turquia, toda esta estupidez do brexit. Se virmos bem, Donald Trump é absolutamente o oposto, em tudo, de Nelson Mandela. Para começar, não tem qualquer classe. É o anti-Mandela. Ou Mandela é o anti-Trump. Trump não tem empatia, é incapaz de se colocar no lugar do outro. Não é um adulto. É apenas um narcisista, uma criança de 8 anos no corpo de um homem de 70 e poucos anos. As coisas que diz são por impulso, não tem visão estratégica sobre nada, é uma criança que grita e esperneia se as suas necessidades imediatas não são satisfeitas. É tudo menos um político adulto. Mas há muitos Trumps por esse mundo fora. Onde está o legado de Mandela? O legado dele é o exemplo que ele deixa ao mundo. Para sempre. A África do Sul tem muita sorte em tê-lo tido como exemplo de generosidade, bondade, pacifismo. Porque é que estamos a falar dele agora? Porque me está a perguntar coisas sobre ele agora? Bem, porque através do seu jornal e de outros meios vamos mantê-lo vivo. E o exemplo vai permanecer e não vai desaparecer. Houve uma coisa que eu uma vez disse por acaso e deve ter sido das coisas mais inteligentes que já disse. A história sobre Mandela é que: se aconteceu uma vez, pode acontecer outra vez.

Muita gente depositou muitas esperanças em Barack Obama por exemplo... Ele não esteve suficientemente à altura?
Bem, ele operou num sistema que, infelizmente no caso dele, mas felizmente no caso de Trump, a presidência tem muitas limitações constitucionais ao seu poder. Particularmente no que toca a assuntos internos nos EUA. Obama conseguiu fazer muito pouco nos EUA. Se olharmos para Trump, ele não consegue fazer muito dentro dos EUA, os juízes são contra as políticas de imigração, o muro... qual muro?! Mas o que ele descobriu, infelizmente, e que é uma verdade, porque eu vivi em Washington e percebi isto há muito tempo, é que o presidente dos EUA causa maior impacto fora dos EUA do que dentro. Por isso é que digo que todo o mundo deveria votar nas presidenciais americanas. Trump joga todos estes jogos com a NATO, com a UE, com Putin, tudo isso... Obama, desse ponto de vista, era mais pragmático e contido. Acima de tudo era consciente da complexidade que existe em cada indivíduo. Trump não percebe isso. É uma criança. Mas, pronto, Obama tinha estilo, tinha...

Tinha o Prémio Nobel da Paz...
Isso foi um pouco louco... prematuro... Obama tinha estilo, as palavras certas, essas coisas contam. O estilo, em política, é substância... mas... Uma vez tive uma conversa com o ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês e perguntei-lhe sobre a chegada ao poder de Obama. Ele disse: Obama não chega aos pés de Mandela. Obama também esteve no poder em circunstâncias diferentes também...

Uma vez tive uma conversa com o ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês e perguntei-lhe sobre a chegada ao poder de Obama. Ele disse: Obama não chega aos pés de Mandela.

Quando olha para a África do Sul de hoje, acha que a Nação Arco-Íris, que vemos no filme Invictus, inspirado no seu livro, a festejar a vitória no Mundial de Râguebi de 1995, como um só país, ainda existe?
Esse jogo de râguebi, essa final, foi muito importante porque, naquela altura, o país permanecia muito instável. A democracia era muito jovem. Havia risco de um movimento terrorista estragar tudo. O país inteiro explodiria e tornar-se-ia como é hoje por exemplo a Síria. Esse jogo não foi um ato isolado. Foi a confirmação de todo um exercício político que Mandela vinha fazendo há anos. E percebeu-se que já ninguém ia para a guerra contra Mandela porque ele conseguira conquistar o apoio dos africâneres, que a partir dessa altura aceitaram Mandela como presidente de pleno direito. Ele conseguiu levar a África do Sul para fora do apartheid, conseguiu paz e estabilidade democrática. Depois vieram outros governos a seguir, incrivelmente corruptos, como o de Jacob Zuma, numa história clássica de pessoas deslumbradas pelo poder e o dinheiro e também do poder que corrompe as pessoas. Pessoas bajulam outras, veem oportunidades de fazer dinheiro de forma corrupta, agarram nessas oportunidades, etc. Já vi isso noutros países. Na Nicarágua por exemplo. É sempre a mesma história. Na África do Sul ainda há quem tente causar divisões a partir da raça.

Como por exemplo Julius Malema [dissidente do ANC e líder do Partido dos Combatentes da Liberdade Económica]?
Eu vou muito à África do Sul e posso afirmar que, no dia-a-dia, a relação entre negros e brancos é muito melhor do que nos EUA. Eu fui da África do Sul para Washington como correspondente em 1995, um ano depois de Mandela chegar ao poder. Em Washington, no dia-a-dia, as relações eram muito mais tensas e difíceis do que eram na África do Sul. Aí, as pessoas negras não são racistas. Não te vão julgar pela cor da pele mas sim pelo teu caráter. Isso, em geral, continua a ser verdade agora. Há pessoas que tentam, este Malema...

Ele é jovem...
É jovem e radical. Mas também consegue ser calmo. Não acredito que alguma vez chegue ao poder. Nem pensar.

Mas os seus apelos à vingança não são perigosos?
Malema não anda por aí a dizer para matarem os brancos. Se eu agora me sentar com ele, a jantar com ele, daqui a meia hora estamos a rir.

Então, no final de contas, é tudo uma personagem?
Até certo ponto sim. Malema é um sul-africano normal. A não ser que esteja a enganar-me muito. Eu estive na África do Sul no Mundial de 2010, com outros jornalistas, que eram jornalistas desportivos. Eles estavam com algum receio por serem brancos. Ficaram surpreendidos por não haver problema nenhum. Toda a gente foi muito agradável. E era essa a minha experiência da África do Sul. Mas claro que têm sido anos desperdiçados com corrupção, com má gestão económica, com muita pobreza, especialmente nas zonas rurais. Mas sabe que mais? A África do Sul manteve-se como uma parábola da raça para todo o mundo. Só que é um país grande, que se tornou relativamente rico, com infraestruturas desenvolvidas, com uma classe média, mas que está rodeado por todo um oceano de pobreza.

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