Premium Falar mal pelas costas: team building ou bullying disfarçado?

Falar dos outros na sua ausência é prática comum, seja no local de trabalho ou num grupo de amigos. Não conseguimos evitar. Temos de dar opinião sobre determinado comportamento, roupa, forma de estar, e quase nunca o fazemos frontalmente. Os colegas ou os amigos estão cá para partilhar da mesma necessidade e as conversas tendem a ir mudando o alvo consoante o momento. Mas estamos a criar laços ou a potenciar preconceitos?

Há que admitir: é assim que passamos grande parte do tempo. Existem até programas de televisão ou blogues dedicados a escrutinar pessoas (e situações) que, na maioria das vezes, nem se conhecem. A revista The Atlantic debruçou-se sobre este assunto, mas em vez de condenar a prática, abordou-a de uma perspetiva positiva. E se afinal o gossip for benéfico para fortalecer relações?

Ainda que o filósofo Blaise Pascal tenha dito que «se as pessoas realmente soubessem o que os outros dizem sobre si não existiriam quatro amigos em todo o mundo», a verdade é que existem vários estudos e literatura a sustentar a teoria de que falar mal pelas costas faz bem.

No artigo da The Atlantic, é citado o estudo Interpersonal Chemistry Through Negativity , conduzido pela Universidade do Texas e de Oklahoma, em que se chega à conclusão de que duas pessoas sentem-se mais próximas quando partilham sentimentos negativos por uma terceira. E vai mais longe. O estudo holandês Tell Me the Gossip sugeriu que as pessoas sentiam mais orgulho de si mesmas quando partilhavam "segredos" negativos de terceiros.

O efeito naqueles de quem se fala (mal) também pode ser positivo. Em Gossip and Ostracism Promote Cooperation in Groups , uma equipa de pesquisadores da Universidade de Stanford sugere que, quando alguém é ostracizado por um grupo, tende a refletir sobre o assunto e a melhorar os seus hábitos para voltar a ter a aprovação do grupo.

Para o psicólogo e autor Vítor Rodrigues, as «conversas de corredor são um cenário traiçoeiro» porque, apesar de proporcionar uma sensação de proximidade, esta não justifica o fundamento da crítica. "O gossip, assim outras práticas predatórias de grupo como, por exemplo, não gostar de outros clubes, dá momentaneamente uma sensação de união de grupo perante os outros. Nesse sentido, reforça os laços do todo naquele instante. Mas isso não quer dizer que faça sentido. Os laços dos nazis estavam reforçados contra os judeus, os laços dos americanos estavam reforçados contra os índios... Mas este sentido de união pode traduzir-se numa perda enorme para a sociedade em geral uma vez que estão a reforçar o preconceito e a intolerância."

Pode mesmo ser considerado "um ato de bullying", defende o psicólogo. "O gossip é a defesa do cobarde. O refúgio da pessoa que não tem coragem para assumir o que pensa. E o acusado não tem como se defender. É um julgamento à revelia, com poucos dados e opiniões pouco fundamentadas. Não aceitamos o direito ao outro a ser diferente, a vestir-se com outro estilo ou a ter opiniões contrárias."

Margarida Vieitez, especialista em terapia de casal, mediação familiar e de conflitos, lamenta que estejamos todos "mais focados nos defeitos do que nas virtudes uns dos outros. E tendemos a apontar o que corre menos bem na vida". E a tendência tende a ser proporcional.

"Quem está habituado a criticar terceiros normalmente também tem muita dificuldade em valorizá-los. Vemos isso todos os dias. Temos uma dificuldade grande em elogiar ou reconhecer os outros."

Existe uma receita para nos relacionarmos com maior frontalidade? Depende de cada um, mas a especialista alerta para o facto de "vivermos num mundo com relações e situações imperfeitas, há que aceitar isso". E talvez lembrar mais vezes o velho ditado: "Nas costas dos outros vemos as nossas."

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.