O Drácula que nós amamos

Na nova série da Netflix, o vampiro adere à internet, viaja de Uber e só falta sair de camisola encarnada para torcer pelo Liverpool.

Há alguns anos, em Dublin, tive uma farta escolha de pequenos bustos de escritores irlandeses para trazer comigo, pô-los nas estantes e ficar a contemplá-los com admiração: Jonathan Swift (1667-1745), Laurence Sterne (1713-1768), Sheridan Le Fanu (1814-1873), Oscar Wilde (1854-1900), Bernard Shaw (1856-1950), William Butler Yeats (1865-1939), Sean O'Casey (1880-1964), James Joyce (1882-1941) - incrível como os irlandeses produzem tantos e tão grandes escritores na língua do colonizador. Qualquer deles ficaria bem numa prateleira aqui de casa, ao lado de seus livros. Mas, como decidi só comprar um busto, escolhi o de Bram Stoker (1847-1912). Não que, como escritor, eu o preferisse aos outros. É que, naturalmente, só Stoker escreveu Drácula.

Haverá alguém que, ao ouvir o nome Drácula, não o associe de estalo a caninos ensanguentados, capas pretas, morcegos sinistros e toda uma saga de vampirismo, terror e morte? Não. Todos conhecem Drácula. Mas quantos saberão dizer o nome do seu criador? Duvido que cheguem a um por cento. Se isso lhe parece injusto, eu diria que, ao contrário, é o máximo de consagração a que um ficcionista pode aspirar - ver sua criação se impor ao mundo à sua revelia. E quem mandou Bram Stoker construir um ser quase imortal, imune às armas comuns, com poderes vedados aos humanos e capaz de atravessar os séculos sem envelhecer um único dia?

Para sua sorte, Stoker, que tinha 50 anos ao criar Drácula, em 1897, viveu para acompanhar o primeiro bater de asas de seu vampiro, da Transilvânia a Londres e daí para outros países e línguas. Quando Stoker morreu, em 1912, aos 65, Drácula já tinha sido traduzido, adaptado para o teatro e até para o cinema - embora nada se comparasse ao que fariam com ele a partir de Nosferatu (1922), o filme de F. W. Murnau, com Max Schreck no papel, e de Drácula (1931), de Tod Browning, com o húngaro Bela Lugosi. Dali em diante, não haveria crucifixos, estacas de madeira ou resmas de alho que o segurassem. A quantidade de filmes tirados do romance ou "inspirados" nele deve chegar hoje à casa dos mil títulos. Num deles, Drácula foi obrigado a enfrentar até a dupla Abbott & Costello.

A última ressurreição de Drácula é a série em três capítulos, recém-lançada pela Netflix, que ainda não me dei ao respeito de assistir. E que, com certeza, não assistirei, por ter sido informado de que, no último episódio, a ação salta da Londres de 1897 para a de 2020, e Drácula é visto falando ao celular, abrindo conteúdos pela internet, deslocando-se de Uber pela cidade e talvez até usando uma impressora 3D para produzir uma bolsa de sangue, o que o pouparia de sair pela noite chupando carótidas. Os criadores da série, Steven Moffat e Mark Gatiss, são conhecidos por esse tipo de sacrilégio - há anos, fizeram o mesmo com Sherlock Holmes.

Em princípio, não me oponho a que se tome liberdades com os clássicos da literatura e do próprio cinema. O Drácula de Bela Lugosi, por exemplo, não foi extraído diretamente do romance original, mas de uma adaptação rudimentar para o teatro, de enorme sucesso, feita poucos anos antes. Nesse sentido, o filme era também uma versão simplificada da história - mas que simplificação! O que o livro tinha de fascinante na sua variedade de formas de escrita - é uma montagem de diários, memorandos, cartas, telegramas, recortes de jornal e até a transcrição de uma fala registada no então novíssimo gravador de voz -, o filme respondia com a riqueza das composições de cena, os efeitos radicais de luz e, principalmente, a máscara facial de Lugosi. Ao contrário do vampiro do filme de Murnau, com dentinhos e orelhas de rato, foi Lugosi quem corporificou o Drácula sedutor, sensual e cruel imaginado por Stoker. O impecável peito branco de sua camisa parecia talhado para receber o sangue de Mina Harker, sua obsessão.

Um Drácula adepto das modernidades eletrónicas, como o da Netflix, equivale a um Frankenstein que, feito de partes de cadáveres, se submetesse a cirurgias plásticas para diminuir sua monstruosidade e ser aceite pelos humanos. Ou a um lobisomem que, fora das temporadas de Lua cheia, fizesse sessões de depilação, a exemplo dos ginastas, nadadores olímpicos e jogadores de futebol. Ou a uma Múmia que vivesse num sarcófago refrigerado, com música ambiente de bossa nova e trocasse suas ataduras imundas e em frangalhos, de 4000 anos, por outras novas, branquinhas e esterilizadas. Ou a um Jack, o Estripador, que saísse para suas incursões noturnas por Whitechapel acompanhado de um anestesista, uma enfermeira e uma instrumentadora. Ou a um Fantasma da Ópera que trocasse seu amor pela Marcha Fúnebre de Uma Marionete, de Charles Gounod, pela marchinha de Carnaval Mamãe Eu Quero ("Mamãe, eu quero/ Mamãe, eu quero/ Mamãe, eu quero mamar..."), de Vicente Paiva e Jararaca. Ou a que o parto de Mia Farrow em O Bebé de Rosemary - em que ela dá a luz a um filho do Demónio - produzisse trigémeos, o que provocaria um grande problema para os agentes das Trevas, que não saberiam qual dos três era o herdeiro.

Definitivamente, não pretendo assistir ao Drácula da Netflix. Temo ver o vampiro, de repente, de camisola encarnada, na bancada do estádio, a gritar pelo Liverpool.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros livros, Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha (Tinta-da-China).

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