Arménia. Nas águas de rosas

Mala de viagem (11). Um retrato muito pessoal da Arménia

Eu previa que a capital Yerevan já se tivesse tornado numa cidade fervilhante de cultura e com uma economia em franco crescimento. Calhou estar no período em que se celebra uma das mais curiosas manifestações públicas a que já assisti. Vardavar é o festival mais celebrado entre os arménios, num regresso à história pagã. É comemorado 98 dias (14 semanas) após a Páscoa. Qualquer um que passe pelas ruas pode ser vítima do derrame de baldes de água das varandas ou mesmo no chão. Qualquer coisa mais própria do Carnaval, mas que ali é mais tardio. Embora seja uma tradição cristã, celebrando a transfiguração de Jesus Cristo, a história do Vardavar remonta aos tempos pagãos da Arménia e de Astghik, que era a deusa da água, da beleza, do amor e da fertilidade. Os arménios ofereciam as suas rosas como forma de celebração e jogavam água de rosas uns aos outros para honrar a deusa e espalhar o amor durante o período das festividades. Por falar em água, num dos dias, viajei até às margens de um lago turquesa a quase dois mil metros de altitude para conhecer a comunidade de Sevan, no noroeste do lago e a nordeste da capital, sendo um dos mais importantes centros industriais da Arménia. O Lago Sevan é o maior da Arménia e da região do Cáucaso e um dos mais altos do mundo. Visitei-o num dia ensolarado. O lago, como um espelho, refletia o céu azul e as montanhas de neve. Transbordava de cor. Uma viagem completamente em seu redor é de aproximadamente 250 quilómetros, por isso não deu para o ver assim. Preferi apostar numa curiosidade em particular. Na sua costa noroeste, está uma península que já foi uma ilha. O lago foi parcialmente drenado durante a ditadura de Estaline. Isso criou uma península onde havia uma ilha e se encontra o Mosteiro de Sevanavank, um complexo monástico que remonta ao ano 874. Foi estabelecido pela princesa Mariam e tinha como objetivo servir principalmente como lar dos monges de Etchmiadzin, que haviam pecado. Sevanavank também era conhecido pelas suas regras rígidas, que incluíam abster-se de carne, vinho, juventude e mulheres. O meu purgatório começava desde logo ao subir 245 degraus até o topo. Felizmente não me esperava a admoestação dos monges, mesmo que eu já tenha pecado. Tanto assim foi que, à volta, a refeição num restaurante, com vista para o lago, foi notável. Um churrasco de peixe do lago foi antecedido de kebab de lagostim com ketchup e cebola, acompanhado de um delicioso pão achatado chamado "lavash". Afinal, que mais gostoso purgatório poderia eu ter? Aliás, e que superou o balde água que quase me molhou por completo em Yerevan.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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